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Incorreto, livro de Cícero suporta mal passagem dos séculos

02/10/2001

 


  Marco Túlio Cícero não é considerado um filósofo, ainda que tenha escrito textos de caráter supostamente filosófico. Sua inegável habilidade com as palavras, sua maestria da língua latina, da qual foi um dos grandes estilistas, e sua inteligência foram inteiramente devotadas à arte da retórica, ou seja, a produzir a persuasão em seus ouvintes, por todos os meios emocionais e racionais alcançáveis por meio de palavras.

   Ao longo de sua movimentada carreira política, na Roma de e pós Julio César, Cícero teve amplas oportunidades de exercer o seu dom perante tribunais e assembléias, ao defender interesses de indivíduos ou causas públicas com as quais se envolveu, tendo ocupado os cargos de Praetor e Cônsul da República.

   Dizer que foi filósofo, porém, seria um equívoco — ao menos se tomarmos esta disciplina na acepção formulada por Sócrates e Platão. No célebre diálogo platônico Górgias, Sócrates demonstrou que a retórica está para a filosofia assim como a culinária está para a ginástica. As primeiras se destinam a agradar aos sentidos, a promover o prazer e a persuasão, mas seu real valor para estabelecer e verdade, no primeiro caso, e a saúde, no segundo, não resistem a uma análise racional. Revelam-se, neste diálogo platônico, como os logros que são. A arte da persuasão pode ser usada para convencer alguém de que algo falso seria verdadeiro, da mesma forma que, por meio da arte culinária, é possível agradar ao paladar, mas sem por isto beneficiar o corpo de maneira verdadeira — já que nem tudo o que é saboroso e palatável é também saudável.

Verdade absoluta

   Implícita na concepção socrática e platônica está a idéia de uma verdade absoluta, imaterial e independente de qualquer sujeito, que não pode ser alcançada pelos sentidos e que é a base de um sistema filosófico coerente, até hoje respeitado por estudiosos não como mera curiosidade arqueológica, mas como algo de valor perene para a humanidade.

   Ao idealismo platônico contrapõe-se, em Cícero, uma sabedoria extraída da vida — neste caso, uma vida intensa no ambiente de intrigas e tramas políticas romanas, que raramente cheiravam bem. Cícero nasceu em 106 a.C. e foi aluno de grandes mestres retóricos da Ásia Menor — os herdeiros espirituais dos oradores como Górgias, que o ateniense Sócrates se comprazia em ridicularizar nos diálogos imortalizados por Platão. Longe de cultivar o estado de ataraxia (paz de espírito ou, literalmente, ausência de agitação) que Aristóteles considerava, à maneira dos filósofos do oriente, indispensável à contemplação das verdades sobre-humanas, Cícero foi, em primeira instância, um político e um orador que apenas se voltava à reflexão filosófica quando em busca de refúgio para seus malogros na vida política — e eventualmente em busca de uma compreensão que o levasse a evitá-los, na prática, num futuro próximo.

   Seu tratado 'Da Amizade', recentemente publicado em versão brasileira, bem traduzida e anotada, é um exemplo do que produziam os momentos de recolhimento do autor, entre uma e outra de suas investidas políticas. O texto guarda certa semelhança formal com o Banquete, talvez o mais célebre dos diálogos platônicos. Além da proximidade temática — o amor e a amizade — as duas obras têm sua ação situada num momento distante do passado, ao qual só se tem acesso por meio da lembrança das palavras de um ancião, que teria narrado, anos antes, uma antiga conversa entre homens com a reputação de sábios.

A morte não é ruim

   Em Da Amizade, Cícero rememora o encontro entre Lélio e seu genro Caio Fânio, que lhe teria sido narrado por Cévola muitos anos antes, e o reconta a seus amigos. Os personagens do texto são Lélio, Fânio e Cévola, que logo se põem a discutir sobre o que consideram ser a amizade. Lélio faz um longo discurso, corpo principal do livro. Com a doutrina platônica, o discurso de Lélio compartilha da crença na imortalidade da alma, mas não como o sinal de uma fé autêntica. A imortalidade da alma é vista com ceticismo, só como uma possibilidade, quando Lélio considera o que foi, para ele, a morte de um grande amigo. Ele afirma que a morte nada tem de ruim, pois, se “as almas são divinas, quando se apartam do corpo voltam para o céu, onde vão ter imediatamente os melhores e os mais justos” e, se não o forem, “se o mesmo fim aguarda o corpo e a alma, se nenhum sentido subsiste, então certamente a morte não é um bem, mas pelo menos não será um mal.”

   Da doutrina platônica o discurso de Lélio toma de empréstimo, também, a noção de que a amizade 'só pode existir entre os bons'. Para ele, porém, isto justifica que prefiramos 'os concidadãos aos estrangeiros, os parentes aos estranhos'. Se isto soa um tanto xenofóbico à sensibilidade moderna ocidental, moldada pela noção de que o respeito às diferenças está na base de toda a possibilidade de convívio, é preciso lembrar que o imperialismo romano tinha como máxima estabelecer a 'pax romana' em todo o seu território, o que significava, na prática, colocar os romanos em posições de comando nas diferentes províncias, e escravizar, o quanto fosse possível, as populações locais, numa política internacional de rapina sem precedentes na história.

   Mais adiante, o mesmo Lélio faz uma idealização desta política imperialista, ao afirmar que 'a virtude (considerada um requisito indispensável para a amizade entre dois homens) não é desumana, egoísta ou orgulhosa, pois chega ao ponto de proteger povos inteiros e velar por seus interesses, o que certamente não faria se recusasse amar os homens em geral'. As muitas notas ao texto, ricas em informações históricas e assinadas por Homero Santiago, reconhecem que a utilização do termo amicitia para caracterizar as relações entre Roma e os povos a ela submetidos é falsa, correspondendo a uma idealização.

Mudanças de conjuntura

   Lélio refuta, igualmente, as teses dos epicuristas, muito difundidas na Roma de então, segundo os quais a amizade resultava, na verdade, de uma busca por vantagens mútuas — e que necessariamente cessaria quando cessassem essas vantagens. Para sustentar o seu argumento contra os epicuristas, ele afirma ser a amizade superior às honras, às magistraturas, aos cargos civis e militares, e despreza aqueles que não a colocam acima de bens como cavalos, criados, roupas e baixelas, embora nunca explique por quê. São dignos de amizade, por isto, aqueles que têm em si mesmos a razão de serem amados.

   Os critérios por meio dos quais Lélio (e Cícero) recomendam que se julgue aqueles que são dignos de receber a amizade de alguém são, sempre, os encontráveis entre os membros de sua classe política, formada pelos descendentes das famílias patrícias romanas, que cultivavam os mesmos gostos e costumes, e que eram os senhores de sua época, servidos por escravos trazidos de todos os quadrantes do Mediterrâneo. Ainda assim, constata Lélio tristemente, são raríssimas as amizades que resistem às mudanças de conjuntura, aos jogos de interesses. Não há, portanto, para o autor, qualquer virtude dissociada de classe social ou nação e ao final da longa e rebuscada oração de Lélio tem-se a nítida impressão de que a amizade genuína é tão elusiva e fugidia quanto os gases atmosféricos e que, embora o autor afirme ser ele de fundamental importância, não consegue encontrar nela significado outro que não o de manter a coesão de uma classe sócio-política — aquela à qual ele pertenceu.

   Filosoficamente deficiente, carente de conceitos verdadeiros e repleta de bordões desgastados, trata-se de uma obra que suportou mal a passagem dos séculos e pouco tem a dizer ao leitor contemporâneo — exceto, talvez, justificar, embora afirme o contrário, a 'Realpolitik' daqueles que não medem esforços para beneficiar os participantes de suas máfias e panelas. Para os amigos, tudo... Luis S. Krausz / Invest News (© Terra/Diversão)

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