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Pessoa pode não ter existido, diz o italiano Tabucchi

03/10/2001

 


Escritor italiano lança "Réquiem" no Brasil, sobre um encontro de sonhos entre o autor e o poeta português

CYNARA MENEZES

   O escritor italiano Antonio Tabucchi, 58, ficou conhecido por sua ligação quase sobrenatural com o poeta português Fernando Pessoa, de quem chegou a "psicografar" o delírio final no livro "Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa" (1994).

   Dois anos antes, o apreço de Tabucchi pelas letras em português já se manifestara com um livrinho escrito na língua de Camões e Machado, considerado uma de suas obras-primas e que só no final do mês chega até nós: "Réquiem" marca outro encontro de sonhos entre Tabucchi e o poeta, em uma Lisboa real povoada por seres imaginários -segundo o italiano, talvez até mesmo Pessoa.

   Apesar de apaixonado pela capital portuguesa, o escritor vive atualmente entre Paris e sua Itália natal, com temporadas numa casa de campo da Toscana que pertenceu ao avô, de onde falou para a Folha por telefone (em português de Portugal, claro).

Folha - "Réquiem" chega ao Brasil com nove anos de atraso...
Antonio Tabucchi -
[Rindo" Réquiem normalmente é para os defuntos. E, para eles, nunca é tarde.

Folha - No livro, o protagonista é advertido por uma cigana de que não pode viver entre o sonho e a realidade. Mas sua obra continuaria a seguir este rumo. Por quê?
Tabucchi -
A literatura é um estado intermediário; nunca é realidade, nunca é sonho. Mas no "Réquiem" não era eu que estava vivendo essa situação, o personagem não é necessariamente o autor. No fundo, se há um protagonista facilmente identificável e que corresponde à realidade, é Lisboa. As outras personagens todas são criaturas que vagueiam pelo ar. São fictícios, nada existiu.

Folha - Só Fernando Pessoa.
Tabucchi -
Não, talvez também ele não tenha existido. Aliás, pôs em dúvida sua existência criando tantos heterônimos, nos deu a entender que talvez ele próprio não existisse. Onde está, qual deles é o verdadeiro Pessoa? Não se sabe.

Folha - Continuou a escrever em português depois de "Réquiem"?
Tabucchi -
Não. Há dois anos, voltei aos mesmos lugares onde "Réquiem" foi escrito, em Paris, para meditar sobre o motivo pelo qual o livro saiu em português. Escrevi uma nota procurando as razões e claro que não encontrei nenhuma, mas conto o nascimento: cheguei uma noite a Paris e sonhei com meu pai, que já tinha morrido havia muitos anos, me falando em português, uma língua que ele não conhecia. No dia seguinte, sentei-me num café, eram 11h da manhã e, naquele momento, aquele sonho do qual tinha me esquecido quando acordei voltou. Tinha um pequeno caderno no meu bolso, sempre ando com um caderninho e uma caneta -continuo a escrever a mão, não uso computador- e pronto, comecei a escrever. Não pensei que escrevia em português, era natural para mim reproduzir de memória o sonho. Só quando regressei ao hotel, à noite, me apercebi. Estupidamente, depois do jantar, comecei a traduzir o que tinha escrito naquela manhã para a minha língua materna. Não pode imaginar o sofrimento que tive. Estava a fazer uma coisa contra a natureza, estava a obrigar uma criatura que tinha nascido numa língua a exprimir-se em outra. Depois, amarfanhava as páginas e deitava no cesto de papéis. Até que disse: agora chega, é inútil. Fiquei quase um mês em Paris e todos os dias trabalhava naquela história, que nascia sozinha, me acompanhava. Entrei no sonho e comecei a dirigi-lo.

Folha - Foi curioso ver o livro traduzido ao italiano?
Tabucchi -
Quando chegou o momento de publicá-lo no meu país, voltou o problema. Com o livro, tinha sido capaz de atravessar o rio com o meu barquinho e chegar à outra margem, mas não seria capaz de fazer a viagem de regresso. Então perguntei a um amigo que conhece bem português [Sergio Vecchio", mas sobretudo que conhece a mim, se poderia fazer a tradução, e ele fez.

Folha - Ficou bom?
Tabucchi -
Cada livro, em outra língua, também é outro. É como uma pessoa que muda de vestido. Me dou conta quando leio um poema de Drummond em italiano que eu mesmo traduzi. Sei que está lá dentro Drummond, mas mudou um bocadinho.

Folha - Eu não poderia terminar esta entrevista sem perguntar para o senhor sobre os atentados nos EUA. O mundo está em convulsão?
Tabucchi -
Dizer que o mundo endoideceu agora seria esquecer que foi sempre muito problemático. Claro que vivi aquele atentado terrorista com muita dor, muita preocupação e uma grande náusea, sobretudo porque são quase as vítimas de uma guerra e aconteceu em um quarto de hora. Portanto é um daqueles acontecimentos que perturbam as consciências do mundo inteiro. Mas os terroristas não são todo o mundo islâmico, há um mundo islâmico moderado, culto, que não tem nada a ver com esses extremistas. Uma guerra de culturas e religiões seria um desastre neste novo milênio. Antigamente, as guerras de religião e de cultura se faziam com a espada. Agora fazem-se com os mísseis e as bombas atômicas. Mais do que perigoso, seria definitivo.

Folha - Como o sr. viu a declaração do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, sobre uma suposta "superioridade" dos ocidentais sobre os orientais?
Tabucchi -
Não poderia dizer que estou orgulhoso de que um primeiro-ministro diga essas asneiras na televisão pública. Sobretudo se ele tivesse pensado um instantinho que a civilização ocidental em um espaço de poucos séculos conseguiu criar a Inquisição, a escravidão, o Holocausto. Acho que as pessoas deveriam estudar um bocadinho antes de chegarem a primeiro-ministro. 
Folha de S. Paulo)

CRÍTICA

Encontro é bilhete de viagem a Portugal

   Em "Réquiem", que chega aqui tão atrasado que até já virou filme de Alain Tanner em 1998, Antonio Tabucchi conta a história de um italiano com um encontro marcado com o maior poeta do século 20 em Lisboa. Deverá estar às 12h em ponto no cais. O poeta não aparece; seria portanto o compromisso às 12h da noite, e não ao meio-dia?

   A descoberta leva o visitante a passear por uma Lisboa calorenta e deserta para matar o tempo, indo aqui e acolá, encontrando pessoas e, embora se presuma estar sonhando, se entupindo de comida portuguesa -sarrabulho, um cozido com fígado e sangue de porco que lembra o sarapatel- ou apenas falando dela: arroz de tamboril, açorda de mariscos, sopa alentejana. E bebidas: Ginjinha, vinho do Porto, bagaceira.

   Curiosamente, tantas remissões à vida e aos prazeres da capital portuguesa fazem parecer que se trata de uma despedida. No entanto, Tabucchi voltaria ao tema Lisboa/Fernando Pessoa outras vezes desde então. O próprio encontro do narrador com o poeta, no livro, soa como derradeiro, sem sê-lo. Como se dissesse: você diz adeus, eu digo olá.

   A grande virtude do autor italiano em seu "livrinho", que escreve em um português simples, de rua, com forte sotaque lusitano, está em envolver completamente o leitor no clima de sonho desperto que percorre toda a narrativa. Passeamos por Lisboa ao lado do protagonista, sentimos calor, o sabor doce do Porto na boca. Que vontade de comer sarrabulho!

   É um daqueles livros "de viagem" sem bilhete de ida ou volta. Abra-o e estará em Lisboa, ainda que nunca tenha ido lá. Apesar de Tabucchi dizer que não escreve poesia, embora adore lê-la -é tradutor de Carlos Drummond de Andrade e do próprio Pessoa ao italiano-, é uma obra absolutamente poética, escrita em prosa.

   Uma pena que estejamos tão defasados em relação a Antonio Tabucchi. Lá fora, já saíram vários livros seus, ainda inéditos por aqui -inclusive "A Gastrite de Platão" (99), em que se envolve numa polêmica com seu conterrâneo Umberto Eco (só intelectual, segundo diz, "deturpada" pelos jornais). De qualquer maneira, tratando-se de um escritor que restitui à leitura o esquecido e tão necessário prazer, sem dúvida vale esperar. (CYNARA MENEZES) (© Folha de S. Paulo)

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