Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Cientista italiano faz exame de DNA em são Lucas

18/10/2001

Dente do esqueleto de Pádua


Comparação com populações modernas exclui uma das teorias sobre falsa origem de esqueleto enterrado em Pádua

CLAUDIO ANGELO
EDITOR-ASSISTENTE DE CIÊNCIA

   Pesquisadores italianos apresentam um caso raro de união feliz entre fé e ciência. Um teste de DNA feito num esqueleto de 1.700 anos sepultado em Pádua, Itália, afasta uma antiga tese sobre a falsidade do corpo que teria pertencido a são Lucas, autor do terceiro Evangelho.
O teste foi feito pela equipe do geneticista Guido Barbujani, da Universidade de Ferrara, a pedido da Diocese de Pádua. O bispo da cidade, onde os restos do santo são cultuados desde a Idade Média, desconfiava da origem do esqueleto. Havia suspeitas de que se tratasse de uma substituição -um outro corpo enterrado na sepultura de Lucas, que morreu na Grécia -realizada durante o período bizantino.

   Analisando o DNA das mitocôndrias (as fábricas de energia da célula) de dois dentes do esqueleto, os cientistas descartaram a hipótese de uma substituição na Grécia. O esqueleto de Pádua está geneticamente mais próximo da população da Síria, lugar onde Lucas teria nascido, segundo fontes históricas.

   Para esclarecer o mistério da origem, Barbujani e seus colegas compararam a amostra extraída do esqueleto com a de populações modernas da Síria, da Grécia e da Turquia, para onde os restos mortais de são Lucas foram levados pelo imperador romano Constantino, no ano 338 d.C.

   A análise, publicada na revista norte-americana "PNAS" (www.pnas.org), mediu a quantidade de mutações diferentes no DNA de cada uma dessas populações em relação ao do esqueleto.
Pelo número de mutações -que determina a distância entre uma população e outra-, o corpo de Pádua tinha três vezes mais chance de ser de um cidadão sírio do que de um grego.

   É uma evidência forte a favor das fontes históricas. A ela somam-se outras duas: o esqueleto tem sinais característicos de velhice, como osteoporose -e reza a tradição que são Lucas morreu aos 84 anos. O caixão enterrado em Pádua se encaixa perfeitamente na sepultura atribuída ao santo, na cidade grega de Tebas.

   O que não significa, no entanto, que o esqueleto seja mesmo do evangelista. "Em genética, nós só podemos trabalhar com probabilidades", disse Barbujani à Folha, por e-mail. Apesar de a análise ter mostrado diferenças significativas com a Grécia, a comparação com a população turca não revelou diferenças significativas.

   "A probabilidade de ser sírio e não turco é maior do que vice-versa, mas uma origem turca não pode ser excluída", disse o geneticista. Segundo ele, a troca poderia ter sido feita em Constantinopla.

   Em apoio à hipótese da origem turca está a datação radiocarbônica do esqueleto, que aponta para uma idade de 1.700 anos -mais de um século depois da morte de são Lucas e bem no período em que seus restos mortais estavam na capital bizantina.

   "Só que a margem de erro desse tipo de datação é alta, ainda compatível com a autenticidade do esqueleto. Então, a meu ver, as duas possibilidades ficam abertas", afirmou Barbujani -que é ateu.

   Essa não é a primeira vez que a Igreja Católica encomenda uma revisão histórica. "Há séculos se demandam garantias racionais de que um milagre aconteceu ou de que um santo existiu", disse o teólogo Eduardo Rodrigues da Cruz, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A mais famosa dessas revisões, a do Sudário de Turim, provou que o manto que supostamente abrigara o corpo de Cristo não passava de uma falsificação medieval.

   Mas isso não muda, em absoluto, a crença dos fiéis. "Não há nenhuma evidência histórica de que são Jorge ou santa Bárbara tenham existido, ou de que Santiago de Compostela tenha abrigado o santo", diz Cruz. "O grau de comprometimento da igreja com essas devoções é diferente, mas a piedade popular não muda." (© Folha de S. Paulo)

SAIBA MAIS

Santo não conviveu com Jesus

DA REDAÇÃO

   Nascido na colônia romana de Antióquia, Síria (hoje território turco), numa data incerta do século 1º e morto por volta do ano 150, são Lucas foi o terceiro evangelista (os outros foram Mateus, Marcos e João). Apesar de não ter conhecido Cristo, Lucas acompanhou as peregrinações do apóstolo Paulo pela Grécia e pela Macedônia. É descrito por Paulo como seu "amado médico" e, pelo estilo literário, tinha um alto grau de instrução. (CA) (© Folha de S. Paulo)

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi