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Em Paris, a graça e a beleza de Rafael têm rara união

18/10/2001

 


Hugo Sukman
Correspondente PARIS

   Se a exposição “Raphaël, grâce et beauté” (“Rafael, graça e beleza” ) fosse, não sobre o mais sublime dos gênios renascentistas — no sentido em que Michelangelo era forte, exuberante, e Leonardo, misterioso, multifacetado — mas sobre Pablo Picasso, seriam necessárias várias salas do Museu do Louvre com paredes suficientes para que se pendurassem umas mil telas. E isto abarcaria cerca de 10% da obra de Picasso, o gênio do século XX. Pois a retrospectiva de Rafael, em cartaz no Museu Luxembourg de Paris até o dia 27 de janeiro, é a maior já dedicada ao gênio da virada do século XV para o XVI e, mesmo assim, contém... 11 quadros. Ou seja, 15% de sua obra, estimada em 80 pinturas (fora os afrescos e trabalhos arquitetônicos, que, evidentemente, não podem viajar).

   — A exposição é enorme — brinca Marc Restellini, um dos diretores do Museu Luxembourg. — E com uma seleção das mais inusitadas. Quadros como “La Velata”, “São Sebastião”, “La Fornarina” são todos excepcionais e nunca saíram da Itália. “Christ Benisssant” nunca havia saído de Brescia. Pela primeira vez, a maior parte dessas obras poderá ser vista junta, o que dá uma nova dimensão à maneira de se ver Rafael.

Museu que foi galeria dos Médicis é palco perfeito

   “Raphaël, grâce et beauté” é mesmo uma exposição histórica. É a primeira desde as comemorações dos 500 anos do artista, em 1982, e acontece no Luxembourg, um dos mais antigos museus da Europa, criado para ser a galeria particular de Maria de Médicis em 1615 e, a partir de 1750, tornado o primeiro museu de pintura aberto ao público — quase 50 antes do próprio Louvre. Os Médicis foram, cem anos antes na Itália, os principais mecenas de Rafael. Segundo Restellini, tal coincidência facilitou a reunião das obras em Paris.

   — É o único museu do mundo onde essa exposição era realizável. Havia uma coerência em enviar para cá quadros tão raros, neste lugar impregnado pelo espíritos dos Médicis. Vieram obras da Itália, de museus da França, mas também da Hungria, da Inglaterra, da Alemanha — diz o diretor do Luxembourg, hoje administrado pelo Senado francês (do qual é vizinho) e situado no sul do Jardim de Luxembourg, o antigo quintal de Maria de Médicis, a maior área verde do centro de Paris.

   Não é apenas a abrangência, nem o espírito do lugar, mas também a leitura da obra de Rafael que a exposição sustenta, justamente em torno da graça e da beleza, conceitos expressos no título. Filho da redescoberta das obras clássicas numa Europa saída das chamadas trevas medievais, Rafael buscou expressar a beleza ideal, a perfeição estética (e espiritual). Graça, no sentido de graciosidade e também de toque divino, e a beleza clássica e plácida como objetivo único, são as palavras que, segundo os curadores da exposição, perpassam toda sua trajetória artística. Da composição perfeita e da elegância ainda contida de “São Sebastião”, feita pelo jovem pintor em 1501, a “La Fornarina”, sua última obra antes da morte precoce aos 37 anos com a iluminação perfeita, a mão delicada da musa sobre o seio nu, o que se vê é a fabricação de um ideal estético que iria durar séculos.

Artista se equilibrava entre vidas mundana e religiosa

   A busca da beleza por Rafael, e isso fica claro na exposição, poderia se dar tanto na religião — ele foi uma espécie de pintor oficial do Papa — quanto na vida mundana — ele viveu e morreu cercado de mulheres. Uma evolução da sensualidade na obra de Rafael se dá, por exemplo, no caminho entre os três grandes retratos de mulheres que ele pintou: se em “Dame à la licorne” (1505), ele faz uma ode à pureza, à musa plácida ao lado do unicórnio, símbolo da castidade, em “La Velata” (1516) a ode é à sensualidade, para não falar em “La Fornarina”. (Fofoca renascentista: dizem que La Velata e La Fornarina eram a mesma musa, uma amante do pintor, o que parece mesmo ser verdade vendo os quadros que, pela primeira vez, estão a dez metros um do outro).

Nos retratos masculinos, a mesma busca da harmonia

   Nos retratos dos homens, Rafael também buscava a harmonia, como no duplo que fez dos poetas Andrea Navagero e Agostino Beazzano, ou, mais ainda, no de Baldassare Castiglione, seu melhor amigo e autor do livro “Cortesão”, um manual do perfeito cavalheiro renascentista.

   Fica claro que ele buscava retratar um mundo em transformação, um ideal de beleza e harmonia que mais tarde se chamaria de burguês e que, pelo menos até as revoluções modernistas, foi o sinônimo de arte ocidental. (© O Globo)

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