Hugo Sukman
Correspondente PARIS Se a exposição Raphaël, grâce et
beauté (Rafael, graça e beleza ) fosse, não sobre o mais sublime dos
gênios renascentistas no sentido em que Michelangelo era forte, exuberante, e
Leonardo, misterioso, multifacetado mas sobre Pablo Picasso, seriam necessárias
várias salas do Museu do Louvre com paredes suficientes para que se pendurassem umas mil
telas. E isto abarcaria cerca de 10% da obra de Picasso, o gênio do século XX. Pois a
retrospectiva de Rafael, em cartaz no Museu Luxembourg de Paris até o dia 27 de janeiro,
é a maior já dedicada ao gênio da virada do século XV para o XVI e, mesmo assim,
contém... 11 quadros. Ou seja, 15% de sua obra, estimada em 80 pinturas (fora os afrescos
e trabalhos arquitetônicos, que, evidentemente, não podem viajar).
A exposição é enorme brinca Marc Restellini, um dos
diretores do Museu Luxembourg. E com uma seleção das mais inusitadas. Quadros
como La Velata, São Sebastião, La Fornarina são
todos excepcionais e nunca saíram da Itália. Christ Benisssant nunca havia
saído de Brescia. Pela primeira vez, a maior parte dessas obras poderá ser vista junta,
o que dá uma nova dimensão à maneira de se ver Rafael.
Museu que foi galeria dos Médicis é palco perfeito
Raphaël, grâce et beauté é mesmo uma exposição histórica.
É a primeira desde as comemorações dos 500 anos do artista, em 1982, e acontece no
Luxembourg, um dos mais antigos museus da Europa, criado para ser a galeria particular de
Maria de Médicis em 1615 e, a partir de 1750, tornado o primeiro museu de pintura aberto
ao público quase 50 antes do próprio Louvre. Os Médicis foram, cem anos antes na
Itália, os principais mecenas de Rafael. Segundo Restellini, tal coincidência facilitou
a reunião das obras em Paris.
É o único museu do mundo onde essa exposição era realizável.
Havia uma coerência em enviar para cá quadros tão raros, neste lugar impregnado pelo
espíritos dos Médicis. Vieram obras da Itália, de museus da França, mas também da
Hungria, da Inglaterra, da Alemanha diz o diretor do Luxembourg, hoje administrado
pelo Senado francês (do qual é vizinho) e situado no sul do Jardim de Luxembourg, o
antigo quintal de Maria de Médicis, a maior área verde do centro de Paris.
Não é apenas a abrangência, nem o espírito do lugar, mas também a
leitura da obra de Rafael que a exposição sustenta, justamente em torno da graça e da
beleza, conceitos expressos no título. Filho da redescoberta das obras clássicas numa
Europa saída das chamadas trevas medievais, Rafael buscou expressar a beleza ideal, a
perfeição estética (e espiritual). Graça, no sentido de graciosidade e também de
toque divino, e a beleza clássica e plácida como objetivo único, são as palavras que,
segundo os curadores da exposição, perpassam toda sua trajetória artística. Da
composição perfeita e da elegância ainda contida de São Sebastião, feita
pelo jovem pintor em 1501, a La Fornarina, sua última obra antes da morte
precoce aos 37 anos com a iluminação perfeita, a mão delicada da musa sobre o seio nu,
o que se vê é a fabricação de um ideal estético que iria durar séculos.
Artista se equilibrava entre vidas mundana e religiosa
A busca da beleza por Rafael, e isso fica claro na exposição, poderia se
dar tanto na religião ele foi uma espécie de pintor oficial do Papa quanto
na vida mundana ele viveu e morreu cercado de mulheres. Uma evolução da
sensualidade na obra de Rafael se dá, por exemplo, no caminho entre os três grandes
retratos de mulheres que ele pintou: se em Dame à la licorne (1505), ele faz
uma ode à pureza, à musa plácida ao lado do unicórnio, símbolo da castidade, em
La Velata (1516) a ode é à sensualidade, para não falar em La
Fornarina. (Fofoca renascentista: dizem que La Velata e La Fornarina eram a mesma
musa, uma amante do pintor, o que parece mesmo ser verdade vendo os quadros que, pela
primeira vez, estão a dez metros um do outro).
Nos retratos masculinos, a mesma busca da harmonia
Nos retratos dos homens, Rafael também buscava a harmonia, como no duplo que
fez dos poetas Andrea Navagero e Agostino Beazzano, ou, mais ainda, no de Baldassare
Castiglione, seu melhor amigo e autor do livro Cortesão, um manual do
perfeito cavalheiro renascentista.
Fica claro que ele buscava retratar um mundo em transformação, um ideal de
beleza e harmonia que mais tarde se chamaria de burguês e que, pelo menos até as
revoluções modernistas, foi o sinônimo de arte ocidental. (© O Globo) |