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Umberto Eco enfoca o terrorismo em artigo

18/10/2001

 


Pensador italiano, cujo último trabalho é o romance Baudolino, publicou no La Repubblica um longo texto no qual enfoca o terrorismo e critica Berlusconi

Martino Rigacci/AE-ANSA

   Roma - Está claro que "sob o céu há uma grande confusão", mas é justamente diante de uma crise como a atual que "é preciso saber usar as armas da análise e da crítica". Esta é a proposta que se depreende de uma longa análise publicada no jornal italiano La Repubblica por Umberto Eco, um dos grandes semiólogos do mundo e entre os maiores pensadores italianos, que, até agora, havia feito poucas declarações sobre os atentados contra os Estados Unidos em 11 de setembro.

   O ponto de partida do extenso artigo de Eco são as controversas declarações formuladas dias atrás pelo primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, sobre ´a superioridade do Ocidente frente ao Islã. "Todas as guerras religiosas que, ao longo dos séculos, ensangüentaram o mundo nasceram de adeses passionais a contraposições simplistas, como ´nós e os outros´, ´bons e maus´, ´brancos e negros´... Se a ocidental demonstrou ser uma cultura fecunda, é exatamente porque se esfor‡ou em esclarecer as simplificações daninhas, à luz da pesquisa e do espírito crítico", explica Eco em um dos primeiros parágrafos de sua análise.

   O autor do famoso romance O Nome da Rosa, entre outros, adverte que ´se se quer recorrer à História, é preciso ter cuidado, porque ela representa uma arma de dupla face´.

   Ao assinalar alguns dos suplícios dos últimos séculos, Eco lembra que "os turcos empalavam, mas os bizantinos ortodoxos arrancavam os olhos e os católicos queimaram Giordano Bruno... Os piratas de sua majestade britânica incendiavam as colônias espanholas no Caribe", sem esquecer, afirma Eco, que "na cultura ocidental tivemos os senhores que se chamaram Hitler e Stalin".

   Em outro trecho de sua análise, Eco pergunta-se sobre o que quer dizer na realidade "estar na vanguarda de uma cultura", por exemplo, no campo da ciência e da tecnologia. "Quanto é absoluto o parâmetro do desenvolvimento tecnológico?": O Paquistão tem a bomba atômica e a Itália não, e isto quer dizer que nossa civilização é inferior? Viver em Islamabad é talvez melhor que viver em Arcore (o lugarejo perto de Milo onde Berlusconi tem uma de suas mansões)?", Questiona Eco de maneira muito provocativa.

   Eco destaca ainda a importância do ensino da "aceitação das diferen‡as". O autor de Baudolino enfatiza que "para poder dizer que uma cultura é melhor que outra, não é suficiente descrevê-la (como fazem os antropólogos), e sim ter bem presente o sistema de valores ao qual consideramos que no podemos renunciar: apenas ento podemos afirmar que, para nós, nossa cultura é melhor". (© estadao.com.br)

ENSAIO

Após o ataque de Berlusconi ao islã, Eco discute a relação ocidental com outras culturas

Simplificação gera guerras santas

UMBERTO ECO

   Que alguém tenha, nos últimos dias, pronunciado palavras inoportunas sobre a superioridade da cultura ocidental é um fato secundário. É secundário que alguém diga algo que considere correto, mas no momento errado, e é secundário que alguém acredite em algo injusto ou mesmo errado, porque o mundo está cheio de gente que acredita em coisas injustas e erradas, até mesmo um senhor que se chama Bin Laden, que talvez seja mais rico que o nosso primeiro-ministro, Silvio Berlusconi, e tenha estudado em universidades melhores. O que não é secundário -e que deve preocupar um pouco a todos- é que expressões, ou mesmo artigos inteiros e apaixonados que de algum modo as legitimaram, tornem-se objeto de discussão geral, ocupem a mente dos jovens e talvez os induzam a conclusões passionais ditadas pela emoção do momento. Preocupo-me com os jovens porque a cabeça dos velhos não se muda mais.

   As guerras de religiões que ensanguentaram o mundo por séculos nasceram de adesões passionais a contraposições simplistas, como nós e os outros, bons e maus, brancos e negros.
Se a cultura ocidental demonstrou-se fecunda (não só do Iluminismo até hoje, mas antes disso, quando o franciscano Roger Bacon nos convidava a aprender línguas porque temos algo a aprender, mesmo dos infiéis), é também porque esforçou-se para "dissolver", à luz de investigação e espírito crítico, simplificações danosas.

   Naturalmente, não fez isso sempre, porque também fazem parte da história da cultura ocidental Hitler, que queimava os livros, condenava a arte "degenerada", matava os pertencentes às raças "inferiores", ou o fascismo, que me ensinava na escola a recitar "Deus amaldiçoe os ingleses", porque eram "o povo das cinco refeições" e, portanto, gulosos, inferiores ao italiano parco e espartano. Mas são os melhores aspectos de nossa cultura que devemos discutir com os jovens, de qualquer cor, se não quisermos que desabem novas torres nos dias que eles viverão depois de nós.

   Um elemento de confusão é que, frequentemente, não se consegue compreender a diferença entre a identificação com as próprias raízes, o entendimento de quem tem outras raízes e o julgamento de o que é bem ou mal. Quanto às raízes, se me perguntassem se preferiria passar os anos de aposentadoria numa cidadezinha em Monferrato, na majestosa região do parque nacional de Abruzzo, ou nas doces colinas da região de Siena, escolheria Monferrato. Mas isso não permite que julgue outras regiões italianas como inferiores ao Piemonte.

   Dessa forma, se, com suas palavras, o primeiro-ministro queria dizer que prefere viver em Arcore do que em Cabul e tratar-se num hospital milanês do que num hospital em Bagdá, eu estaria pronto para aderir à sua opinião (com a exceção de Arcore). E isso mesmo que dissessem que em Bagdá fundaram o hospital mais equipado do mundo: em Milão me sentiria mais em casa, e isso também influiria na minha capacidade de recuperação. As raízes podem ser até mais amplas do que as regionais ou nacionais. Preferiria viver em Limoges, por assim dizer, do que em Moscou. Mas como, Moscou não é uma cidade belíssima? Certamente, mas em Limoges eu entenderia a língua.

   Em suma, cada um se identifica com a cultura em que cresceu, e os casos de transplante radical, que também existem, são uma minoria. Lawrence da Arábia até se vestia como os árabes, mas, no final, voltou para sua própria casa.

   Passemos agora ao confronto de civilizações, porque é essa a questão. O Ocidente, seja apenas e frequentemente por razões de expansão econômica, foi curioso em relação a outras civilizações. Muitas vezes as liquidou com desprezo: os gregos chamavam de bárbaros, ou seja, de balbuciantes aqueles que não falavam sua língua, e, por isso, era como se aqueles não falassem em absoluto. Mas gregos mais maduros, como os estóicos (talvez porque alguns fossem de origem fenícia), bem cedo advertiram que os bárbaros usavam palavras diferentes das gregas, mas se referiam aos mesmos pensamentos. Marco Polo procurou descrever com grande respeito os usos e costumes chineses; os grandes mestres da tecnologia cristã medieval procuravam fazer com que fossem traduzidos os textos de filósofos, médicos e astrólogos árabes; os homens do Renascimento até exageraram na sua tentativa de recuperar a sabedoria oriental perdida, dos caldeus aos egípcios; Montesquieu procurou entender como um persa poderia ver os franceses; e os antropólogos modernos conduziram seus primeiros estudos sobre as relações dos salesianos, que, de fato, aproximavam-se dos Bororos para convertê-los, mas também para entender qual era o seu modo de pensar e de viver -talvez por lembrar que missionários de séculos antes não tinham conseguido entender as civilizações ameríndias e haviam, assim, encorajado seu extermínio.

   Fiz menção aos antropólogos. Não falo nada de novo se lembro que, da metade do século 19 em diante, a antropologia cultural desenvolveu-se como tentativa de sanar o remorso do Ocidente em relação aos Outros, e especialmente àqueles Outros que eram considerados selvagens, sociedades sem história, povos primitivos. O Ocidente não fora sensível com os selvagens: havia-os "descoberto", tentado evangelizá-los, explorá-los e reduzir muitos à escravidão, aliás, com a ajuda dos árabes, porque os navios dos escravos eram descarregados em Nova Orleans por traficantes muçulmanos. A antropologia cultural (que pôde prosperar graças à expansão colonial) procurava reparar os pecados do colonialismo, mostrando que aquelas culturas "outras" eram justamente culturas, com suas crenças, seus ritos, seus hábitos, bastante razoáveis no contexto em que haviam se desenvolvido e absolutamente orgânicas, ou seja, se sustentavam sobre uma lógica interna. A tarefa do antropólogo cultural era a de demonstrar que existiam lógicas diferentes da ocidental, que deviam ser levadas a sério, não desprezadas e reprimidas.

   Isso não queria dizer que os antropólogos, uma vez explicada a lógica dos Outros, decidissem viver como eles; pelo contrário, terminado seu trabalho de muitos anos além-mar, voltavam para passar uma serena velhice em Devonshire ou na Picardia. Mas, lendo seus livros, alguém poderia pensar que a antropologia cultural defende uma posição relativista e que afirma que uma cultura equivale a outra. Não me parece. No máximo, o antropólogo dizia que, enquanto os Outros estivessem em sua própria casa, era preciso respeitar seu modo de viver.

   A verdadeira lição que se deve tirar da antropologia cultural é que, para dizer se uma cultura é superior a outra, é preciso fixar parâmetros. Uma coisa é dizer o que é uma cultura, outra é dizer com base em quais parâmetros a julgamos. Uma cultura pode ser descrita de forma aceitavelmente objetiva: essas pessoas comportam-se assim, crêem nos espíritos ou numa única divindade que deriva de si toda a natureza, unem-se em clãs de parentesco segundo essas regras, consideram que seja bonito transpassar o nariz com anéis (poderia ser uma descrição da cultura jovem no Ocidente), consideram impura a carne de porco, circuncidam-se, criam cães para colocá-los na panela em dias festivos ou, como ainda dizem os americanos sobre os franceses, comem rãs. O antropólogo obviamente sabe que a objetividade é sempre posta em crise por tantos fatores. No ano passado, estive em Dogon (Camarões) e perguntei a um garotinho se ele era muçulmano. Ele respondeu em francês: "Não, sou animista". Ora, acreditem, um animista não se define animista se não tiver pelo menos obtido um diploma na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (Paris), e, portanto, a criança falava da própria cultura da forma como a haviam definido os antropólogos. Folha de S. Paulo)

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