Livros compreendem produção situada entre o
período da Unificação e 2.ª Guerra MundialROBERTO NICOLATO
Italo Calvino, Luigi Pirandello, Alberto
Moravia e Eugenio Montale. Dá para contar nos dedos os escritores italianos conhecidos do
público brasileiro, em que pese a grande contribuição dos imigrantes, vindos da
Itália, na formação cultural do Brasil.
Demorou muito, mas felizmente esta lista começa a ser ampliada com o
lançamento, desde março deste ano, da Coleção Letras Italianas, pela editora paulista
Berlendis & Vertecchia. Ao todo, já foram publicados 11 volumes de uma produção que
se situa entre o período da Unificação e a Segunda Guerra Mundial.
Os autores da coleção foram escolhidos por regiões - até agora
representadas pela Sicília, Piemonte e Friulli Venezia Guiulia e, em sua maioria,
estão sendo publicados pela primeira vez no Brasil. "E com exceção de Cenas da
Vida Siciliana, de Giovanni Verga, todos os textos são inéditos no país", segundo
informa o editor-adjunto da Berlendis, Bruno Berlendis.
São romances, novelas e contos de autores consagrados, como Pirandello e
Italo Svevo, ou que por muito tempo ficaram do lado de fora do panteão oficial de grandes
nomes da literatura italiana.
Pirandello comparece no terceiro volume da coleção com O Velho Deus, uma
das 280 novelas escritas pelo autor, num trabalho que levou mais de 14 anos para ficar
pronto. A pretensão do escritor era escrever uma novela para cada dia do ano.
Segundo Bruno Berlendis, o objetivo da coleção é oferecer tanto a um
público específico que já de longa data mantém contato com a literatura
italiana - quanto ao leitor comum, o acesso a traduções bastante criteriosas sobre a
produção de escritores italianos no século XX.
Os livros são precedidos de um breve ensaio que procura situar o autor no
seu momento histórico, e o livro no contexto geral da obra. Outra característica
importante é o tratamento gráfico. Os volumes são ilustrados com retratos do autor ou
desenhos feitos por profissionais do gabarito de Paulo Pasta, Luiz Baravelli, Hebe de
Carvalho, Paulo Monteiro, entre outros.
O elo de ligação que a família Berlendis mantém com a Itália tem
facilitado a seleção das obras que compõem a coleção que nos próximos números traz
autores das regiões de Roma e Milão. A editora Berlendis foi criada há cerca de 20 anos
por Donatella Berlendis e se firmou no mercado brasileiro com a publicação de livros de
arte para criança.
Os livros que compõem a Coleção Letras Italianas trazem a marca da
diversificação, tanto com relação aos tipos de narrativas como na temática abordada.
E como foram selecionados por região da Itália, há de certa forma a tentativa de
fornecer um pano de fundo cultural, segundo explica Bruno Berlendis.
Em alguns autores, essa percepção não salta aos olhos à primeira vista;
em outros o diálogo é muito forte com as tradições regionais e o próprio movimento
unificador. Um exemplo é Giovanni Verga, um expoente do movimento veríssimo, que aborda
em Cenas de Vida Siciliana uma visão da Sicília que a Itália continental ignorava.
Outro escritor siciliano, mundialmente conhecido e que comparece na
coleção, é o aristocrata Giuseppe Tomasi di Lampedusa, com Os Contos, dos quais se
destaca "Recordação da Infância" (1955), que precedeu a redação do romance
Gattopardo, também de sua autoria, e que foi publicado em 1958.
O romance de Lampedusa deu origem ao filme O Leopardo, de Luchino Visconti. O
diretor italiano, inclusive, recorreu às indicações contidas no conto
"Recordação da Infância" para completar algumas cenas do filme.
A colaboração dos escritores para arte cinematográfica italiano é
inegável. Do livro A Escuridão e o Mel, de Giovanni Arpini, que integra a Coleção
Letras Italianas, foi feita a adaptação do filme Profumo di Donna (1974), dirigido por
Dino Risi. Em 1992, o filme ganhou uma versão holywoodiana estrelada por Al Pacino, que
ganhou um oscar por sua interpretação. Os dois filmes foram apresentados no Brasil com o
nome de Perfume de Mulher.
Da região de Friuli, Venezia Guiulia, chega ao leitor a obra Argo e seu
Dono, que reúne oito contos de Italo Svevo, autor do conhecido romance A Consciência de
Zeno, já publicado no Brasil. Os contos testemunham diversas fases e problemáticas do
trabalho narrativo de Svevo, considerado como um escritor fin-de-siècle, mas que antecipa
temas que estarão presentes na produção literária do século 20.
O conto homônimo ao título da obra de Svevo é uma preciosidade, um texto
singular e sensível; em determinado momento tem como narrador um cão versado em
filosofia. A obra de Svevo foi incompreendida na sua época, criticada inclusive por
conter uma linguagem descuidada. Mas o escritor felizmente foi descoberto na metade dos
anos anos 20 por autores como Bazlen, Joyce e Larbaurd, que ressaltaram a qualidade do seu
estilo.
Outro destaque da coleção é A Dupla Noite das Tílias, de Carlo Levi, um
escritor pouco conhecido no Brasil e que faz algo que se aproxima do ensaio e reportagem
sobre uma viagem à Alemanha no pós-Guerra.
Os próximos títulos da Coleção Letras Italianas, que devem sair no
começo de 2002, trazem textos de Dacia Maraini, Andrea de Carlo, Ennio Flaiano, Vincenzo
Consolo e Fernanda Pivano. (© Gazeta do Povo)
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