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Obra do italiano Giacomo Balla no Recife

06/11/2000

 

 

   Michelângelo, Leonardo da Vinci, Raphael, Boticcelli, Giotto, Caravaggio e tantos outros. Quem nunca ouviu falar deles pelo menos uma vez na vida? São todos pintores italianos que influenciaram e ainda influenciam a arte universal. Mas quem sabe quem foi Giacomo Balla (1871-1958), um dos expoentes da escola futurista italiana? Pouquíssimos, por certo, a não ser aqueles que tiveram a sorte de viver na Itália, onde o artista é simplesmente adorado e está presente em praticamente todos os museus de respeito.

   Este mês, no entanto, o pernambucano terá a rara oportunidade de conhecer 100 obras de Balla, além de seis vitrines com objetos pessoais do artista, numa mostra entre os dias 16 de novembro e 15 de dezembro, no Espaço Cultural Bandepe, no Bairro do Recife. Um evento tão importante quanto a exposição das esculturas de Auguste Rodin, no Mamam.

   A mostra já passou por Montevidéu, Buenos Aires e São Paulo. É uma realização do Consulado Italiano no Recife, do Comitê dos Italianos no Exterior e da TIM, empresa que deu de presente mil catálogos com 152 páginas coloridas com reproduções das obras expostas, vida do artista e artigos analisando o pintor e seu tempo. Mostra e o catálogo são responsabilidades dos curadores Mario Verdone e Renato Miracco.

   A exposição chama-se Giacomo Balla 1894-1946 porque compreende o espaço entre a confecção de dois auto-retratos: o Io Balla (1894) e o Ball’Io (1946). Mas reúne trabalhos característicos do artista, que revisitava acentuadamente o código fotográfico, estudando analiticamente as formas em movimento e sua velocidade. Para Balla, “não existe a forma, tudo deve ser determinado pela cor”.

   O artista italiano teve acesso a pesquisas da decomposição do movimento dos animais e dos humanos e se tornou o resultado de uma experimentação contínua. Balla realmente não tinha receio de inovar, de pesquisar e de experimentar. E sempre destacou em sua obra o movimento, a multiplicação das formas e a análise da luz. Ele chegou a se definir no início da carreira como um “pintor futurista abstratista”.

   Mas a sua melhor marca foi sempre a ousadia em experimentar os mais diversos materiais. De seu talento e criatividade nasceram obras como Linee spaziali (Linhas Espaciais), de 1914, uma colagem sobre a tampa de uma caixa de sapatos de criança; Pappagalli e Serpente (Papagaios e Serpente), de 1929, em tinta sobre papel transparente telado e Andiamo Che é Tardi (Vamos Que é Tarde), de 1934, em óleo sobre madeira com rede no fundo.

   O cônsul da Itália no Recife, Giovanni Maria De Vita, 37 anos, lembra ainda que Balla é autor de Cornice Futurista Grande (Moldura Futurista Grande), de 1928, em tintas e têmperas sobre papel de embrulho telado e Esplosione Primavera (Explosão Primavera), de 1917, uma colagem sobre cartolina. Também frutos do seu gênio, obras em lápis, giz, pastel ou aquarela sobre papel em diversos tipos, como o transparente e a cartolina, e telas a óleo sobre madeira ou papelão.

   “A Itália não tem apenas os grandes artistas do Renascimento. Por causa da genialidade, obscureceram até os chamados pequenos artistas do Renascimento, que são tão bons quanto os demais”, lembra Giovanni de Vita. Ele conta que o governo de seu país tem um programa especial para mostrar aos estudantes que os italianos continuam a produzir grandes artistas. “E queremos, através do consulado, trazer ao Recife a cultura que se faz hoje em Nova Iorque, Paris, São Paulo e Rio”, garante.

   As mais fortes características deste pintor nascido em Turim e reconhecido internacionalmente em Roma, Paris e Nova Iorque, não são apenas a explosão de cor, alegria e audácia. Mas sua adesão ao Movimento Futurista, de Marinetti, que influenciou até a nossa Anita Malfatti para a Semana de Arte Moderna de 1922. O primeiro aparecimento oficial de Balla ao lado dos futuristas foi no Manifesto dos Pintores, assinado por Boccioni e Severini (alunos de Balla), Russolo e Carrà, em 1910.

   Sobre a obra de Giacomo Balla, escreve o curador Renato Miracco: “Todos os estudos sobre o artista têm o mérito de ter trazido à tona uma dimensão poliédrica de uma obra que estendeu-se por mais de 60 anos. O Balla futurista não esgota o Balla pintor divisionista, assim como o Balla retratista não esgota o Balla cenógrafo ou o requintado desenhista de artes aplicadas. Mesmo a última fase, aquela da solidão e da volta ao figurativo, é uma etapa que deve ser explicada e reconduzida a uma circularidade artística”.

   E lembra que o próprio Balla escreveu: “Sempre pintei, estou pintando, pintarei até o último instante”. Daí o título que, de forma ideal, percorre a vida do artista representado Io Balla (Eu Balla) como o primeiro dos auto-retratos e Ball'io (Balla Eu) um dos últimos. (Paulo Sérgio Scarpa, JC)

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