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Você sabia que os russos, na 2.ª Guerra, ensinaram
seus cães a buscar alimento embaixo de tanques? Levados para a linha de frente e mantidos
em jejum por alguns dias, eram soltos quando os tanques alemães se abriam em leque na
planície. Com uma mochila nas costas carregada de explosivos e com uma antena de aço
ereta, corriam ávidos e velozes contra as máquinas mortíferas. Metiam-se então no
ventre de cada panzer, que voava pelos ares.
Esta é apenas uma das muitas histórias sobre o maior conflito do século
relatadas pelo escritor italiano Curzio Malaparte (1898-1957), em Kaputt, um libelo contra
o autoritarismo, publicado, em 1944, por um dos mais controversos e influentes prosadores
de sua geração. Malaparte é o pseudônimo de Kurt Erich Suckert, um misto de
jornalista, dramaturgo, contista e romancista. Sua vida já é digna de um livro, pois
alistou-se como voluntário na 1.ª Guerra e, posteriormente, dedicou-se ao jornalismo,
fundando, em 1926, a célebre revista 900, que tinha, entre outros, a participação de
James Joyce.
O mais interessante, porém, viria depois. Malaparte se converteu ao
fascismo, seguindo as idéias do poeta Gabriele DAnnunzio. No entanto, nos anos
1940, repudiou essa ideologia e foi expulso do partido, atuando na 2.ª Guerra como
correspondente do jornal Corriere della Sera. Seus textos enfureceram nazistas e fascitas,
que o prenderam por algum tempo num campo de concentração. Libertado, acompanhou, como
jornalista, os avanços das Forças Aliadas.
O livro começou a ser escrito em 1941, na Ucrânia, teve seu seguimento
na Polônia e foi terminado em Capri, Itália, dois anos depois. Para salvar os
manuscritos da Gestapo, eles foram costurados no forro de uma farda e escondidos numa
dupla sola de sapatos. O título Kaputt, tirado do idioma alemão, significa
quebrado, acabado, que se fez em pedaços e reproduz a imagem que Malaparte
tem da Europa durante o conflito mundial.
A 2.ª Guerra, de fato, é o pano de fundo para os mais variados
acontecimentos. Um exemplo é Siegfried e o salmão, em que um general alemão
se irrita com a valentia de um salmão que resiste à pesca. Perante o temor de uma
humilhação, a solução é dar dois tiros de pistola à queima-roupa na cabeça do
peixe. Esse simples episódio mostra muito bem a intolerância nazista perante qualquer
desafio que fugisse ao seu controle.
Subúrbios arrasados por bombardeios, palácios enegrecidos por
incêndios, escombros de estações ferroviárias e ruas desertas são uma constante. Uma
descrição impressionante é a do gueto judeu de Varsóvia, circundado por um alto
muro de tijolos vermelhos que os alemães construíram para fechar, como numa gaiola,
aquelas feras miseráveis. As pessoas são descritas com olhar preciso e crítico,
digno de um jornalista consciente de que as imagens falam mais do que centenas de páginas
melodramáticas. O frio, a febre, a fome, as lágrimas e as barbas sujas compõem telas de
horror em que saltar sobre mortos entre candelabros utilizados em rituais fúnebres
hebraicos nunca é visto como exceção.
Ao ler os passos do narrador percorrendo esse mar de cadáveres, é
impossível ficar indiferente. Entre a neve e a lama, pessoas, comparadas a imagens de
Chagall, são vistas em cenas marcantes, como a que descreve grupos de dezenas de judeus
batendo os pés na neve, com as mãos nos ombros uns dos outros, abraçando-se para obter
calor. As palavras de Malaparte sobre as crianças judias são ainda mais precisas. Ele
descreve os brinquedos desses jovens com muita ironia. Nada de bonecas, bolas de borracha,
cavalinhos de chumbo, espingardas de ar comprimido ou trombetas. Suas
únicasdiversões são acompanhar carros fúnebres cheios de mortos e ir
ver fuzilar mamãe.
Essa miséria não se resume aos guetos. Na Moldávia, o autor encontra
colchões esburacados, gavetas de móveis abertas, e peças de roupa e papéis cobrindo
assoalhos de casas saqueadas. Solidão e miséria tornam Kaputt assustador, ainda mais
quando sabemos que há regiões em que, atualmente, conflitos entre nações ou entre
civis continuam causando milhares de mortes.
As histórias de Malaparte são humanas até quando envolvem animais, como
ocorre no capítulo 11, em que conhecemos o relacionamento, em Belgrado, de Mameli,
ministro italiano, com Spin, um cão perdigueiro inglês de três anos.
Estão guardadas para o capítulo final, intitulado As moscas,
as imagens mais impactantes. Esses insetos geram medo e, para alguns personagens, trazem
azar. Para outros, serão os únicos sobreviventes da guerra. Em meio à fome, às aldeias
incendiadas e às cidades destruídas, uma nuvem preta e cintilante de moscas se levanta,
de um mar de sangue, como se fosse a peste bíblica de gafanhotos no Egito. A imagem,
digna de um quadro de Bosch, é uma síntese daquilo que Malaparte soube fazer de melhor:
alertar as futuras gerações sobre a estupidez da guerra e suas trágicas
conseqüências. Melhor do que um discurso sobre a paz repleto de frases vazias, ele soube
descrever as atrocidades nazistas e fascistas com precisão cinematográfica e um fluxo
narrativo elegante, digno dos melhores dramas históricos de Shakespeare. (Oscar
D'Ambrosio, JT) |