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Curzio Malaparte: um libelo contra o autoritarismo

06/11/2000

Kaput - Curzio Malaparte

 

Você sabia que os russos, na 2.ª Guerra, ensinaram seus cães a buscar alimento embaixo de tanques? Levados para a linha de frente e mantidos em jejum por alguns dias, eram soltos quando os tanques alemães se abriam em leque na planície. Com uma mochila nas costas carregada de explosivos e com uma antena de aço ereta, corriam ávidos e velozes contra as máquinas mortíferas. Metiam-se então no ventre de cada panzer, que voava pelos ares.

   Esta é apenas uma das muitas histórias sobre o maior conflito do século relatadas pelo escritor italiano Curzio Malaparte (1898-1957), em Kaputt, um libelo contra o autoritarismo, publicado, em 1944, por um dos mais controversos e influentes prosadores de sua geração. Malaparte é o pseudônimo de Kurt Erich Suckert, um misto de jornalista, dramaturgo, contista e romancista. Sua vida já é digna de um livro, pois alistou-se como voluntário na 1.ª Guerra e, posteriormente, dedicou-se ao jornalismo, fundando, em 1926, a célebre revista 900, que tinha, entre outros, a participação de James Joyce.

   O mais interessante, porém, viria depois. Malaparte se converteu ao fascismo, seguindo as idéias do poeta Gabriele D’Annunzio. No entanto, nos anos 1940, repudiou essa ideologia e foi expulso do partido, atuando na 2.ª Guerra como correspondente do jornal Corriere della Sera. Seus textos enfureceram nazistas e fascitas, que o prenderam por algum tempo num campo de concentração. Libertado, acompanhou, como jornalista, os avanços das Forças Aliadas.

   O livro começou a ser escrito em 1941, na Ucrânia, teve seu seguimento na Polônia e foi terminado em Capri, Itália, dois anos depois. Para salvar os manuscritos da Gestapo, eles foram costurados no forro de uma farda e escondidos numa dupla sola de sapatos. O título Kaputt, tirado do idioma alemão, significa “quebrado, acabado, que se fez em pedaços” e reproduz a imagem que Malaparte tem da Europa durante o conflito mundial.

   A 2.ª Guerra, de fato, é o pano de fundo para os mais variados acontecimentos. Um exemplo é “Siegfried e o salmão”, em que um general alemão se irrita com a valentia de um salmão que resiste à pesca. Perante o temor de uma humilhação, a solução é dar dois tiros de pistola à queima-roupa na cabeça do peixe. Esse simples episódio mostra muito bem a intolerância nazista perante qualquer desafio que fugisse ao seu controle.

   Subúrbios arrasados por bombardeios, palácios enegrecidos por incêndios, escombros de estações ferroviárias e ruas desertas são uma constante. Uma descrição impressionante é a do gueto judeu de Varsóvia, circundado por um “alto muro de tijolos vermelhos que os alemães construíram para fechar, como numa gaiola, aquelas feras miseráveis”. As pessoas são descritas com olhar preciso e crítico, digno de um jornalista consciente de que as imagens falam mais do que centenas de páginas melodramáticas. O frio, a febre, a fome, as lágrimas e as barbas sujas compõem telas de horror em que saltar sobre mortos entre candelabros utilizados em rituais fúnebres hebraicos nunca é visto como exceção.

   Ao ler os passos do narrador percorrendo esse mar de cadáveres, é impossível ficar indiferente. Entre a neve e a lama, pessoas, comparadas a imagens de Chagall, são vistas em cenas marcantes, como a que descreve grupos de dezenas de judeus batendo os pés na neve, com as mãos nos ombros uns dos outros, abraçando-se para obter calor. As palavras de Malaparte sobre as crianças judias são ainda mais precisas. Ele descreve os brinquedos desses jovens com muita ironia. Nada de bonecas, bolas de borracha, cavalinhos de chumbo, espingardas de ar comprimido ou trombetas. Suas únicas”diversões” são acompanhar carros fúnebres cheios de mortos e “ir ver fuzilar mamãe”.

   Essa miséria não se resume aos guetos. Na Moldávia, o autor encontra colchões esburacados, gavetas de móveis abertas, e peças de roupa e papéis cobrindo assoalhos de casas saqueadas. Solidão e miséria tornam Kaputt assustador, ainda mais quando sabemos que há regiões em que, atualmente, conflitos entre nações ou entre civis continuam causando milhares de mortes.

   As histórias de Malaparte são humanas até quando envolvem animais, como ocorre no capítulo 11, em que conhecemos o relacionamento, em Belgrado, de Mameli, ministro italiano, com Spin, um cão perdigueiro inglês de três anos.

   Estão guardadas para o capítulo final, intitulado “As moscas”, as imagens mais impactantes. Esses insetos geram medo e, para alguns personagens, trazem azar. Para outros, serão os únicos sobreviventes da guerra. Em meio à fome, às aldeias incendiadas e às cidades destruídas, uma nuvem preta e cintilante de moscas se levanta, de um mar de sangue, como se fosse a peste bíblica de gafanhotos no Egito. A imagem, digna de um quadro de Bosch, é uma síntese daquilo que Malaparte soube fazer de melhor: alertar as futuras gerações sobre a estupidez da guerra e suas trágicas conseqüências. Melhor do que um discurso sobre a paz repleto de frases vazias, ele soube descrever as atrocidades nazistas e fascistas com precisão cinematográfica e um fluxo narrativo elegante, digno dos melhores dramas históricos de Shakespeare. (Oscar D'Ambrosio, JT)

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