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Mistério cerca a morte de filho de Agnelli

16/11/2000

 

 

  ROMA - A polícia rodoviária italiana encontrou ontem sob um viaduto da rodovia Turim-Savona, conhecido como "a ponte do suicídio", o corpo de Edoardo Agnelli, de 46 anos, filho mais velho de Giovanni Agnelli, o presidente honorário da Fiat. Edoardo, que trocou sua herança (maior império industrial da Itália) por "uma vida discreta e de meditação", aparentemente lançou-se do Viaduto Fossano (de 80 metros de altura), sobre o Rio Stura, suspeitam os investigadores da polícia de Cuneo, para onde o corpo foi transportado.

   Ali, seria feita autópsia para determinar a causa da morte. Mas, segundo a agência EFE, advogados da família teriam conseguido evitar a ação dos legistas e o filho de Agnelli acabou sendo levado para a residência da família em Villar Perosa. "O corpo apresenta apenas os ferimentos provocados pela queda", assegurou um porta-voz dos Agnellis, tentando encerrar o caso.

   Contudo, os investigadores, embora admitindo o suicídio como provável, não afastam outras hipóteses. Condenado em 1990 no Quênia por porte de 300 gramas de heroína, ele levava uma vida bastante atribulada (ler ao lado).

   O corpo de Edoardo, vestindo roupas esportivas, foi encontrado por uma patrulha rodoviária. Os policiais notaram um Fiat Croma de cor escura estacionado no acostamento do viaduto e pararam para investigar. O automóvel estava aberto. No porta-luvas, encontraram a documentação com o nome do filho de Agnelli. Olhando viaduto abaixo, descobriram o corpo inerte. Todos os pertences da vítima pareciam estar no interior do veículo, eliminando, pelo menos naquele momento, a possibilidade da ação de ladrões.

   Equipes de resgate chegaram imediatamente ao local, mas não removeram o corpo. Aguardaram a chegada de Gianni Agnelli, de 79 anos, que reconheceu o filho e dirigiu-se, em seguida, para Milão, onde se reuniu com a filha Margherita, agora aparentemente a única herdeira do império. A morte de Edoardo, segundo analistas italianos, não terá nenhum reflexo sobre as atividades do grupo Fiat, que é dirigido por Paolo Fresco.

   O primogênito de Agnelli nunca se interessou pelos negócios da família, mas fez parte durante algum tempo da diretoria da Juventus - clube de futebol de Turim do qual seu pai é proprietário. O presidente da Federação Italiana de Futebol, Luciano Nizzola, lamentou a morte dele e pediu aos clubes que observem 1 minuto de silêncio em seus próximos jogos.

   É a segunda tragédia em três anos que abala os Agnellis - tão tradicionais e respeitados na Itália como os Kennedys nos Estados Unidos e a família real na Grã-Bretanha. Em dezembro de 1997, morreu Giovanni Alberto Agnelli, de 33 anos, depois de prolongada batalha contra um câncer no estômago. Era brilhante administrador, apontado como o futuro czar da Fiat.(OESP com Ansa, Reuters, EFE, DPA, Associated Press e France Presse)

Edoardo Agnelli

Rebelde e atormentado, rejeitou regras


Edoardo nunca se enquadrou na tradição dinástica do clã Agnelli

   ROMA - Há poucas imagens de Edoardo Agnelli. As últimas, que ficaram impressas, são de 1990, quando as câmeras da televisão o mostraram em Malindi, no Quênia, com ar perdido, despenteado, com as roupas amarrotadas.

   A polícia queniana havia encontrado heroína em seu poder e ele teve de esperar julgamento no país africano.

   De volta à Itália, tornou a viver no maior isolamento - não morava na luxuosa mansão Villar Perosa da família - e discrição, dos quais saiu poucas vezes, mas que deixaram recordações.

   Numa de suas últimas declarações, dois anos atrás, criticou numa entrevista a escolha do sobrinho John Elkann para ocupar na empresa da família o lugar que foi do primo Giovanni Alberto, poucos dias depois da morte deste por um câncer no estômago em 1997, aos 33 anos. A impossibilidade de Edoardo assumir qualquer papel importante nas empresas da família Agnelli tinha ficado evidente com a nomeação de Giovanni Alberto como membro do conselho de administração da Fiat.

   O pai não gostou do comentário e Edoardo se defendeu dizendo: "Nunca pensei em ser empresário, luto por um mundo sem oprimidos nem opressores."

   Na verdade, único filho homem, ele deveria ser o herdeiro do pai na presidência da maior indústria italiana. Uma sucessão dinástica, como acontece nas famílias reais. Isso porque no imaginário coletivo os Agnellis não são apenas a família mais famosa e poderosa da Itália, mas uma espécie de reino com seus soberanos - Giannni e a mulher, Marella Caracciolo Agnelli -, uma corte com regras férreas. Edoardo, rebelde e atormentado, foi a única pessoa da família que se recusou a aceitar as normas.

   Formado em letras e filosofia pela Universidade de Princenton, preferiu viajar pela Índia e conhecer melhor as religiões orientais em vez de se aplicar na administração da Fiat ou das outras empresas do grupo.

   Na tentativa de aproximá-lo dos interesses da família, o pai deu-lhe a direção da Juventus, clube de futebol de Turim dos Agnellis. Mas suas declarações pouco diplomáticas a respeito de técnicos e jogadores acabaram afastando-o do cargo - da mesma forma como tiveram péssima repercusão na Fiat as afirmações que fez em 1986 sobre as brigas pela sucessão presidencial na maior montadora do país.

   As declarações polêmicas, nas quais ele dizia que se considerava candidato à sucessão, foram feitas durante a marcha internacional pela paz organizada pelos franciscanos em Assis, grupo religioso ao qual Edoardo se aproximou nos últimos anos de vida.

   Segundo as pessoas que o conheceram, Edoardo, nascido em 1954 em Nova York, era uma pessoa culta, gentil e reservada - o oposto do pai, que antes de se tornar presidente da Fiat era conhecido como um dos maiores playboys do jet set internacional. Mas que não conseguiu conciliar as diferentes aspirações de sua vida: seguir os interesses da família ou as próprias intuições, suportar o peso de um pai como Gianni Agnelli que imaginava um herdeiro determinado e grande empresário. (Assimina Vlahou, OESP)

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