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ROMA - A polícia rodoviária italiana encontrou
ontem sob um viaduto da rodovia Turim-Savona, conhecido como "a ponte do
suicídio", o corpo de Edoardo Agnelli, de 46 anos, filho mais velho de Giovanni
Agnelli, o presidente honorário da Fiat. Edoardo, que trocou sua herança (maior império
industrial da Itália) por "uma vida discreta e de meditação", aparentemente
lançou-se do Viaduto Fossano (de 80 metros de altura), sobre o Rio Stura, suspeitam os
investigadores da polícia de Cuneo, para onde o corpo foi transportado.
Ali, seria feita autópsia para determinar a causa da morte. Mas, segundo
a agência EFE, advogados da família teriam conseguido evitar a ação dos legistas e o
filho de Agnelli acabou sendo levado para a residência da família em Villar Perosa.
"O corpo apresenta apenas os ferimentos provocados pela queda", assegurou um
porta-voz dos Agnellis, tentando encerrar o caso.
Contudo, os investigadores, embora admitindo o suicídio como provável,
não afastam outras hipóteses. Condenado em 1990 no Quênia por porte de 300 gramas de
heroína, ele levava uma vida bastante atribulada (ler ao lado).
O corpo de Edoardo, vestindo roupas esportivas, foi encontrado por uma
patrulha rodoviária. Os policiais notaram um Fiat Croma de cor escura estacionado no
acostamento do viaduto e pararam para investigar. O automóvel estava aberto. No
porta-luvas, encontraram a documentação com o nome do filho de Agnelli. Olhando viaduto
abaixo, descobriram o corpo inerte. Todos os pertences da vítima pareciam estar no
interior do veículo, eliminando, pelo menos naquele momento, a possibilidade da ação de
ladrões.
Equipes de resgate chegaram imediatamente ao local, mas não removeram o
corpo. Aguardaram a chegada de Gianni Agnelli, de 79 anos, que reconheceu o filho e
dirigiu-se, em seguida, para Milão, onde se reuniu com a filha Margherita, agora
aparentemente a única herdeira do império. A morte de Edoardo, segundo analistas
italianos, não terá nenhum reflexo sobre as atividades do grupo Fiat, que é dirigido
por Paolo Fresco.
O primogênito de Agnelli nunca se interessou pelos negócios da família,
mas fez parte durante algum tempo da diretoria da Juventus - clube de futebol de Turim do
qual seu pai é proprietário. O presidente da Federação Italiana de Futebol, Luciano
Nizzola, lamentou a morte dele e pediu aos clubes que observem 1 minuto de silêncio em
seus próximos jogos.
É a segunda tragédia em três anos que abala os Agnellis - tão
tradicionais e respeitados na Itália como os Kennedys nos Estados Unidos e a família
real na Grã-Bretanha. Em dezembro de 1997, morreu Giovanni Alberto Agnelli, de 33 anos,
depois de prolongada batalha contra um câncer no estômago. Era brilhante administrador,
apontado como o futuro czar da Fiat.(OESP com Ansa, Reuters, EFE, DPA, Associated Press e
France Presse)
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Rebelde e atormentado, rejeitou regras
Edoardo nunca se enquadrou na tradição dinástica do clã Agnelli |
ROMA
- Há poucas imagens de Edoardo Agnelli. As últimas, que ficaram impressas, são de 1990,
quando as câmeras da televisão o mostraram em Malindi, no Quênia, com ar perdido,
despenteado, com as roupas amarrotadas.
A polícia queniana havia encontrado heroína em seu poder e ele teve de
esperar julgamento no país africano.
De volta à Itália, tornou a viver no maior isolamento - não morava na
luxuosa mansão Villar Perosa da família - e discrição, dos quais saiu poucas vezes,
mas que deixaram recordações.
Numa de suas últimas declarações, dois anos atrás, criticou numa
entrevista a escolha do sobrinho John Elkann para ocupar na empresa da família o lugar
que foi do primo Giovanni Alberto, poucos dias depois da morte deste por um câncer no
estômago em 1997, aos 33 anos. A impossibilidade de Edoardo assumir qualquer papel
importante nas empresas da família Agnelli tinha ficado evidente com a nomeação de
Giovanni Alberto como membro do conselho de administração da Fiat.
O pai não gostou do comentário e Edoardo se defendeu dizendo:
"Nunca pensei em ser empresário, luto por um mundo sem oprimidos nem
opressores."
Na verdade, único filho homem, ele deveria ser o herdeiro do pai na
presidência da maior indústria italiana. Uma sucessão dinástica, como acontece nas
famílias reais. Isso porque no imaginário coletivo os Agnellis não são apenas a
família mais famosa e poderosa da Itália, mas uma espécie de reino com seus soberanos -
Giannni e a mulher, Marella Caracciolo Agnelli -, uma corte com regras férreas. Edoardo,
rebelde e atormentado, foi a única pessoa da família que se recusou a aceitar as normas.
Formado em letras e filosofia pela Universidade de Princenton, preferiu
viajar pela Índia e conhecer melhor as religiões orientais em vez de se aplicar na
administração da Fiat ou das outras empresas do grupo.
Na tentativa de aproximá-lo dos interesses da família, o pai deu-lhe a
direção da Juventus, clube de futebol de Turim dos Agnellis. Mas suas declarações
pouco diplomáticas a respeito de técnicos e jogadores acabaram afastando-o do cargo - da
mesma forma como tiveram péssima repercusão na Fiat as afirmações que fez em 1986
sobre as brigas pela sucessão presidencial na maior montadora do país.
As declarações polêmicas, nas quais ele dizia que se considerava
candidato à sucessão, foram feitas durante a marcha internacional pela paz organizada
pelos franciscanos em Assis, grupo religioso ao qual Edoardo se aproximou nos últimos
anos de vida.
Segundo as pessoas que o conheceram, Edoardo, nascido em 1954 em Nova
York, era uma pessoa culta, gentil e reservada - o oposto do pai, que antes de se tornar
presidente da Fiat era conhecido como um dos maiores playboys do jet set internacional.
Mas que não conseguiu conciliar as diferentes aspirações de sua vida: seguir os
interesses da família ou as próprias intuições, suportar o peso de um pai como Gianni
Agnelli que imaginava um herdeiro determinado e grande empresário. (Assimina Vlahou,
OESP) |
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