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Entidade contra-ataca McDonald's. Com sabor

27/11/2000

 

 

  Nada de pratos pré-cozidos, sanduíches rápidos, sabores idênticos em países diferentes. O movimento que vem conquistando milhares de adeptos em várias partes do mundo prega exatamente o contrário. Batizado de Slow Food - em oposição ao fast food (comida rápida) - ele defende as tradições culinárias, os pequenos produtores de alimentos, os sabores regionais. Em época de grandes redes de alimentação, quer recuperar antigas receitas, salvar técnicas artesanais de produção e evitar que costumes e até bares, pousadas, cafés e restaurantes típicos desapareçam. 

   Atualmente, o Slow Food reúne cerca de 65 mil participantes, em 45 países. Surgiu bem menorzinho, em 1986, da revolta do jornalista italiano Carlo Petrini com a abertura de um McDonald's na Piazza di Spagna, em Roma.

   Decidido a lutar contra a invasão, fundou um movimento em prol do bom vinho e da boa comida. "O único modo de contra-atacar a invasão da comida rápida e promover o valor dos alimentos puros e artesanais era criando uma entidade capaz de trabalhar para protegê-los", disse.

   Foi o que bastou. Em julho do mesmo ano, surgia oficialmente o movimento em Bra, uma cidade no noroeste da Itália. Seus princípios logo se espalharam e viraram uma luta pelo aumento da qualidade de vida para todos. Hoje, lançaram o projeto Slow Cities, no qual um grupo de 36 cidades se uniu para melhorar a vida de seus cidadãos. Muitas outras que cumprem os requisitos - ter menos de 60 mil habitantes e uma vida tranqüila - já estão indo atrás da idéia.

   Manifesto - Como movimento que se preze, o Slow Food também tem manifesto. Ele foi aprovado em dezembro de 1989 em Paris. A data e o local têm significado: 200 anos depois da Revolução Francesa, pessoas de vários partes do mundo se encontram para "redescobrir a riqueza e os aromas de culinárias regionais em oposição ao efeito padronizador da vida rápida".

   "O Slow Food é um bastião contra a aldeia global de aromas e sabores", prega o manifesto. O símbolo internacional do movimento não poderia ser outro: um caracol, considerado "pequeno, prudente e cosmopolita".

   Para manter a filosofia do movimento, os integrantes se encontram em jantares temáticos, degustação de queijos, vinhos e tours gastronômicos. Dos 65 mil integrantes, cerca de 35 mil são italianos, 5 mil alemães e 4.500 norte-americanos. Segundo a Assessoria de Imprensa da entidade, há perto de 50 brasileiros no movimento. Alguns deles estão formando um novo grupo no Rio de Janeiro (veja texto ao lado).    

   Roraima - Por trás do Slow Food, também está uma grande estrutura. Em 1990, foi fundada a Editora Slow Food, que já publicou cerca de 50 livros que celebram as tradições da comida na Itália e no resto do mundo. Há projetos na Bósnia, na Itália, na Nicarágua. Aqui, ele se chama Hekura Project e se desenvolve em Roraima. A cada mês, a cozinha de um hospital de doenças infecciosas do Estado recebe uma quantia de dinheiro para dar aos pacientes comidas nutritivas da região. Há quatro anos, surgiu a revista Slow, no site www.slowfood.com já se pode comprar de livros a bolsas para garrafas de vinho e camisetas.

   Para atacar o fast food, o movimento faz educação do paladar em mil escolas italianas. Desde 1996, também se realiza a cada dois anos o Salone del Gusto. Em Turim, teve 130 mil visitantes. O próximo deve ocorrer em Bonn.

   O Slow Food ainda briga contra o uso de agrotóxicos e contra os transgênicos. Já a agricultura orgânica é vista com melhores olhos, mas os alimentos cultivados têm de ser, além de saudáveis, saborosos.

   "Não há provas sobre a real necessidade dos alimentos geneticamente modificados e eles não vão ajudar o problema da fome no terceiro mundo", segundo a assessoria. "O necessário é auxiliar a agricultura tradicional, parte de nossa herança cultural." (Luciana Garbin, OESP)

 

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