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Zeffirelli finaliza filme sobre Maria Callas |
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12/11/2001
Diretor italiano,
que foi amigo pessoal da cantora lírica, fala da emoção de encerrar as filmagens de Callas
Forever, com Fanny Ardant no papel principal Nova York - Tudo começou em uma ópera de Wagner. Ao saberem
que "uma grega" estava dando o que falar numa montagem de Parsifal, no Teatro
dell´Opera, em Roma, Luchino Visconti e Franco Zeffirelli, que, em 1948, trabalhavam
juntos respectivamente como diretor e decorador de uma peça de Shakespeare, foram
conhecer Maria Callas.
Ambos saíram
encantados. Zeffirelli achou a soprano extraordinária, apesar de feiosa e de ter as
pernas cabeludas. "Quando a vi pela primeira vez, Maria estava muito gorda. Era uma
verdadeira baleia, algo como Pavarotti ou coisa do gênero", explica o italiano.
"Mas ela tinha uma voz de levar o público ao delírio."
Zeffirelli, que mais
tarde veio a se tornar cineasta, dirigindo filmes como Romeu e Julieta, A Megera Domada
e, mais recentemente, Hamlet e Chá com Mussolini, desenvolveu uma
grande amizade com Maria Callas. Ele presenciou a ascensão da diva do bel canto no
cenário mundial da ópera; sua radical mudança anatômica ("Ao emagrecer e se
tornar muito atraente, Maria tinha uma foto de Audrey Hepburn no filme A Princesa e o
Plebeu como inspiração"); foi aos poucos ganhando a confiança dela, até ser
convidado a dirigi-la em óperas como La Traviata e Lucia di Lammermoor.
O cineasta agora presta
uma homenagem à amiga, transformando a atriz francesa Fanny Ardant em Maria Callas. No
fim da tarde de terça-feira, na pequena cidade de Osuna, perto de Sevilha, Zeffirelli
filmou a última cena da produção Callas Forever. O longa, que tem estréia
mundial prevista para meados de 2002, também conta com as participações de Jeremy
Irons, Angela Molina, Joan Plowright e uma ponta de Eugene Kohn, o maestro que acompanhou
Callas nas master classes da Juilliard School, em Nova York.
A cena do balé - Antes
de a produção mudar-se para a Espanha, Zeffirelli falou por telefone com exclusividade
à reportagem. Ele estava num hotel em Budapeste, na Hungria, preparando-se para dormir,
depois de ter passado o dia inteiro filmando a cena de um balé da ópera Carmem.
O cineasta foi abordado
com projetos sobre Callas em duas ocasiões: em 1970, quando a Columbia Pictures queria
contar a história da soprano, e novamente na década de 90, quando saiu o livro Maria
Callas - A Mulher atrás do Mito, de Ariana Stassinopoulos, que ganhou a simpatia da
atriz Anjelica Huston.
"Da primeira vez,
era simplesmente impossível, pois a morte de Callas estava ainda muito recente na minha
memória", explica Zeffirelli. "O segundo projeto era calcado em fofocagem e eu
queria ficar longe disso", continua. "Agora, 25 anos depois, me senti pronto,
pois entendo melhor o legado que ela deixou e quem foi Maria Callas."
"Maria sofreu
muito com seus homens, principalmente Onassis, além da perda da voz, e a terrível irmã
que teve", acrescenta. "Tudo isso resultou numa vida vazia. Nem um filho ela
teve", prossegue. "Callas Forever é uma obra de ficção, onde eu
re-imagino o que teria sido um possível retorno de Callas. É um experimento, um truque
que traz Callas de volta ao cenário operístico."
Fã de carteirinha -
O truque que Zeffirelli menciona é executado pelo empresário Larry Clark,
interpretado por Irons. Clark é um personagem fictício, definido pelo cineasta como
"um amálgama dos assistentes, managers e fãs de carteirinha", como o próprio
cineasta, que passaram pela vida da soprano. Esse empresário tenta convencer uma mulher
que vive reclusa em seu apartamento a fazer vários filmes baseados em suas óperas
preferidas. Callas seria filmada como aparenta, mas com uma voz de 20 anos atrás.
Inicialmente, ela recusa, achando que será uma fraude, um pacto com o diabo. Aos poucos,
é convencida pelo empresário, principalmente porque o primeiro filme seria uma versão
de Carmem, ópera de Bizet que Callas nunca interpretou de forma integral no palco,
apesar de ter feito trechos em recitais e gravado a música em estúdio.
Para interpretar o
papel principal, Fanny Ardant aprendeu todas as árias executadas no filme. Callas não
era totalmente estranha a Fanny. Há quatro anos, a musa e ex-mulher de François Truffaut
havia interpretado a soprano na versão parisiente da peça Master Class, que o
cineasta Roman Polanski montou. Esse texto do dramaturgo americano Terrence McNally foi
originado na Broadway como veículo para a atriz Zoë Caldwell, que venceu o prêmio Tony.
No Brasil, a peça foi
encenada por Marília Pêra. Zeffirelli, entretanto, acha o texto um insulto. "É
tudo muito permeado de picuinhas, uma falsa ironia. Pura especulação", diz.
"Os diálogos da peça nunca teriam saído da boca de Maria."
Callas nunca comentou
com o amigo italiano sua atribulada passagem pela América do Sul, em 1951, quando ela se
apresentou no Municipal do Rio e de São Paulo, além do Teatro Colón, de Buenos Aires.
"Segundo o que me foi contado, a grande rivalidade entre Maria e a soprano Renata
Tebaldi foi acentuada de vez num incidente no Rio", explica. "Renata havia
ganhado a imprensa, mas ao interpretar Norma pela primeira vez Maria é quem acabou sendo
ovacionada", conclui o diretor.
Entre as memoráveis
performances de Callas, Zeffirelli diz que a heroína de Bellini nunca foi suplantada.
"Posso até imaginar-me dirigindo outras versões para La Traviata e Tosca,
mas eu nunca tocaria em Norma, pois Maria era Norma." A última vez que Zeffirelli
conversou com Callas foi em maio de 1977, quatro meses antes da morte dela. "Tive uma
idéia que achava muito boa para sua volta ao palco: fazer uma ópera de Monteverdi, algo
mais simples", revela. "Contei-lhe meu plano por telefone e ela foi
absolutamente Maria: "Maravilhoso, maravilhoso; sim, sim, Franco; mas estou um pouco
ocupada agora; estou indo para uma ilha na Grécia; a gente se fala depois."
Zeffirelli estava
ensaiando Laurence Olivier e Joan Plowright no National Theater, de Londres, quando Callas
morreu. "Era uma tarde. Larry (Olivier) chegou e me colocou de lado, dizendo que não
tinha boas notícias. Foi um choque." As contradições de Callas são as melhores
lembranças para Zeffirelli. "Ela era um pessoa muito focada, mas também
vulnerável. Ela tinha seus chiliques, mas não era uma diva. E, apesar de todas as
porradas que levou da vida, era absolutamente divertida." Marcelo Bernardes (© estadao.com.br)
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