INÁCIO ARAUJO
CRÍTICO DA FOLHA Mesmo para quem não acompanha a
carreira de Nanni Moretti, "O Quarto do Filho" constitui uma surpresa. Os
primeiros minutos do filme resumem o que tem sido a carreira recente do italiano.
Giovanni é um psicanalista feliz, com uma família
feliz, que escuta os dramáticos relatos de seus pacientes com distância profissional e,
caso dê um conselho, é mais ou menos o que encontramos em seus filmes. É o seu
procedimento: manter-se aberto ao mundo, deixar as antenas ligadas, permitir que as coisas
cheguem a nós.
É uma receita de humor: o pasmo, a descoberta, a
aventura estão implícitos nela. Suspende-se o juízo para que os olhos (e os sentidos em
geral) possam trabalhar, absorver as coisas tal qual são.
Eis que essa existência idílica é atingida por uma
tragédia: a morte acidental do filho. É difícil conceber dor humana maior. A vida da
família transforma-se subitamente. Como estar aberto às coisas, se elas parecem já não
fazer sentido? Se falta um lugar à mesa?
Moretti transita da comédia ao melodrama sem
intermediários. Ou antes: o único intermediário é a própria psicanálise, pois, para
Giovanni, coloca-se de imediato a questão de como tratar seus pacientes, se sua cabeça
está em outro lugar? A psicanálise é a ciência mais atacada desde o fim do século 20.
Contra ela move-se uma verdadeira guerra biológica, com pílulas dos mais variados tipos
dispondo-se a varrer o inconsciente para debaixo do tapete.
Que sentido tem, pergunta-se, um tratamento longo,
caro, desgastante, que coloca o paciente em confronto com a sociedade, quando pílulas
prometem solução rápida e rasteira para os problemas e pleno ajuste a uma sociedade que
cada vez menos precisa de dissidências de qualquer tipo?
Essa questão permeia "O Quarto do Filho",
pois a dor e o luto se impõem com tal violência que nada parece aliviar o sofrimento
familiar, a não ser o tempo, a sucessão de acontecimentos que, aos poucos, nos leva a
prosseguir na vida, não esquecendo, mas dando um lugar ao ente perdido.
O cinema de Moretti adquire uma gravidade até aqui
insuspeitada, pois afirma a vida para além de qualquer ciência humana (embora deixe uma
porta aberta à psicanálise). Ao mesmo tempo em que convoca todos os sentimentos do
mundo, este filme não configura uma traição aos anteriores. Se "Caro Diário"
era um diário bem-humorado; se "Aprile" cruzava o momento político italiano
com o nascimento de um filho, "O Quarto do Filho" inverte os dados, mas não os
distorce.
Até aqui havia um autor sujeito de seus filmes, como
que a dominar e contemplar o espetáculo do mundo. Agora o mundo se abate sobre esse
autor, atinge-o, frustra-o de modo irreparável. No entanto, esse mundo está lá, e é
como se Moretti nos lembrasse de que a dor, a perda, a morte fazem parte dele tanto quanto
o riso: ambos sugerem diálogo, postura, vontade de sobrevivência, de superação. Não,
claro, a superação proposta pelo mundo da competição em que se vive, mas essa
superação que consiste em voltar a si mesmo, em conhecer a si mesmo para conhecer as
coisas fora da ciranda de idéias feitas. (© Folha de S. Paulo)
O Quarto do Filho
La Stanza del Figlio
Direção: Nanni Moretti
Produção: Itália, 2000
Com: Nanni Moretti e Laura Morante |
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