Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Programa forma na Itália restauradores da memória do País

19/11/2001

 


Profissionais passaram dois meses e meio na Itália aprendendo técnicas de conservação

MOACIR ASSUNÇÃO

   Quando chegou a Veneza e viu a Praça de São Marcos, os canais e as igrejas, José Raimundo Pereira, um canteiro - profissional que trabalha com pedras de cantaria - conhecido como Mestre Juca, estranhou a arquitetura dos templos renascentistas, mais elaborada que a dos barrocos que ele conhece bem, as praças cobertas pela água e o frio de 5 graus negativos, tão diferente de sua Ouro Preto.

   Aos 78 anos e pela primeira vez fora do Brasil, ele nunca poderia, com o salário mínimo que recebe como pedreiro aposentado, conhecer uma das mais belas cidades do mundo."Os Alpes, cobertos de gelo, são de arrepiar e as igrejas cada uma mais linda que a outra", descreveu Juca, que chegou a andar de gôndola nos canais. Ele integrou, durante dois meses e meio, um grupo de 34 brasileiros de várias regiões do País que fez um curso de restauração e conservação de monumentos históricos no Centro Europeu de Veneza.

   Patrocinado pelo Projeto Monumenta, do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em parceria com o governo brasileiro, o curso formou canteiros, pedreiros, carpinteiros, ferreiros, pintores de restauro e estucadores (especialistas em revestimento e ornamentação de teto).

   Centros - De volta ao País, esses profissionais trabalharão em três centros de restauro, que serão instalados em Ouro Preto (MG), Olinda (PE) e Rio, formando anualmente uma média de 300 restauradores e conservadores do patrimônio histórico. Mestre de cantaria na Universidade de Minas, Mestre Juca só reclamou das 24 horas de viagem de avião. "Ainda estou zonzo." Ao lado de restauradores alemães e franceses, o futuro professor, que ganhou dos italianos o apelido de Bambino (menino), embora fosse o mais velho do grupo, aprendeu novas técnicas de limpeza de gesso e mármore, além de conhecer novas ferramentas.

   Na área há 20 anos, Mestre Juca começou na profissão por acaso, ao ajudar na restauração da cruz principal da Igreja Nossa Senhora do Pilar. "Não me considero um oficial, mas fico muito feliz por Deus ter me dado esse dom de ajudar na defesa do patrimônio", afirmou. Os 34 profissionais foram escolhidos entre 240 inscritos. As escolas de restauro serão formadas depois de uma concorrência que definirá as escolhidas, que administrarão recursos de US$ 7 milhões divididos entre o BID e o governo federal.

   Com experiência em restauração de quadros de artistas como Di Cavalcanti, a pintora carioca Leila Maria dos Santos, de 34 anos, que fez curso de restauro de papéis em São Paulo, se surpreendeu com a importância conferida pelos venezianos à preservação do patrimônio. "Eles têm prédios que foram restaurados pouco depois de 1500, quando o Brasil nascia."

   Herança - A utilização adequada de pigmentos naturais para recuperação de quadros acabou sendo a mais importante lição aprendida em pouco mais de dois meses na Itália. "Restauradores lá fazem questão de usar materiais que não agridam o ambiente."

   Canteiro desde os 13 anos, profissão que aprendeu com o pai, assim como os três irmãos, Everaldo Matos de Abreu, de 31 anos, baiano de Santa Luz, ajudou a reformar o Museu de Arte Sacra e o Mosteiro de São Bento, ambos em Salvador. Entre os frutos do curso, uma masseta de borracha, espécie de marreta usada para acabamento fino em pedras, que ganhou de um restaurador alemão. "A gente se falava por mímica, mas no fim do curso tanto ele quanto eu já tínhamos noção de italiano."

   Segundo o coordenador do Monumenta, Pedro Taddei, o programa atua em 27 cidades brasileiras com prédios de interesse histórico. O País tem cerca de cem áreas históricas urbanas sob proteção. (© O Estado de S. Paulo)

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi