Aos 78 anos e pela primeira vez fora
do Brasil, ele nunca poderia, com o salário mínimo que recebe como pedreiro aposentado,
conhecer uma das mais belas cidades do mundo."Os Alpes, cobertos de gelo, são de
arrepiar e as igrejas cada uma mais linda que a outra", descreveu Juca, que chegou a
andar de gôndola nos canais. Ele integrou, durante dois meses e meio, um grupo de 34
brasileiros de várias regiões do País que fez um curso de restauração e conservação
de monumentos históricos no Centro Europeu de Veneza.
Patrocinado pelo Projeto Monumenta, do Banco Interamericano de
Desenvolvimento (BID), em parceria com o governo brasileiro, o curso formou canteiros,
pedreiros, carpinteiros, ferreiros, pintores de restauro e estucadores (especialistas em
revestimento e ornamentação de teto).
Centros - De volta ao País, esses profissionais trabalharão em
três centros de restauro, que serão instalados em Ouro Preto (MG), Olinda (PE) e Rio,
formando anualmente uma média de 300 restauradores e conservadores do patrimônio
histórico. Mestre de cantaria na Universidade de Minas, Mestre Juca só reclamou das 24
horas de viagem de avião. "Ainda estou zonzo." Ao lado de restauradores
alemães e franceses, o futuro professor, que ganhou dos italianos o apelido de Bambino
(menino), embora fosse o mais velho do grupo, aprendeu novas técnicas de limpeza de gesso
e mármore, além de conhecer novas ferramentas.
Na área há 20 anos, Mestre Juca começou na profissão por acaso, ao
ajudar na restauração da cruz principal da Igreja Nossa Senhora do Pilar. "Não me
considero um oficial, mas fico muito feliz por Deus ter me dado esse dom de ajudar na
defesa do patrimônio", afirmou. Os 34 profissionais foram escolhidos entre 240
inscritos. As escolas de restauro serão formadas depois de uma concorrência que
definirá as escolhidas, que administrarão recursos de US$ 7 milhões divididos entre o
BID e o governo federal.
Com experiência em restauração de quadros de artistas como Di
Cavalcanti, a pintora carioca Leila Maria dos Santos, de 34 anos, que fez curso de
restauro de papéis em São Paulo, se surpreendeu com a importância conferida pelos
venezianos à preservação do patrimônio. "Eles têm prédios que foram restaurados
pouco depois de 1500, quando o Brasil nascia."
Herança - A utilização adequada de pigmentos naturais para
recuperação de quadros acabou sendo a mais importante lição aprendida em pouco mais de
dois meses na Itália. "Restauradores lá fazem questão de usar materiais que não
agridam o ambiente."
Canteiro desde os 13 anos, profissão que aprendeu com o pai, assim como
os três irmãos, Everaldo Matos de Abreu, de 31 anos, baiano de Santa Luz, ajudou a
reformar o Museu de Arte Sacra e o Mosteiro de São Bento, ambos em Salvador. Entre os
frutos do curso, uma masseta de borracha, espécie de marreta usada para acabamento fino
em pedras, que ganhou de um restaurador alemão. "A gente se falava por mímica, mas
no fim do curso tanto ele quanto eu já tínhamos noção de italiano."
Segundo o coordenador do Monumenta, Pedro Taddei, o programa atua em 27
cidades brasileiras com prédios de interesse histórico. O País tem cerca de cem áreas
históricas urbanas sob proteção. (© O Estado de S.
Paulo)