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Gina de Azevedo Marques
O médico italiano que promete clonar bebês não tem medo das
conseqüências de sua experiência. Severino Antinori, de 55 anos, criador das
mães-avós (mulheres que conseguiram ter filhos depois da menopausa por meio da
fertilização in vitro), revela que o primeiro bebê clonado provavelmente
nascerá em novembro de 2002, fora da Itália, num país cujo nome não diz. A idéia de
implantar um embrião clonado no útero de uma mulher é repudiada por praticamente toda a
comunidade científica internacional, mas Antinori garante que irá fazer isso dentro de
poucos meses.
Apesar de dizer que não gosta de polêmica, o professor não mede as
palavras ao comparar a opinião do presidente americano George W. Bush sobre clonagem ao
fundamentalismo do Talibã. Para Antinori, seriam necessárias tropas morais
para libertar os Estados Unidos. Ele diz que é vítima de uma perseguição injusta por
parte da Igreja Católica e dos governos da Itália e dos Estados Unidos. Na entrevista ao
GLOBO, concedida em sua clínica em Roma, no elegante bairro Prati, entre as fotos de
crianças concebidas em seu laboratório, Antinori alega não entender as restrições à
clonagem de bebês e pergunta: Por que impedir alguém de ter um filho?
Em que estágio estão as suas pesquisas de clonagem?
SEVERINO ANTINORI: Estamos muito avançados.
A clonagem é perigosa?
ANTINORI: Nós estamos chegando a um nível seguro e eficaz. De 20 macacos
clonados, 19 eram perfeitos, sem malformações. Infelizmente com as ovelhas clonadas,
como a Dolly, isso não acontece. Elas apresentam uma taxa de anomalia de 30%. Nos
macacos, primatas como nós, essa taxa de defeitos é de 3%.
O senhor já tem um embrião?
ANTINORI: Fora da Itália, temos estudos de embriões humanos que estão em fase
avançada, mas eles ainda não foram introduzidos no útero de uma mulher. Porém, isto
será feito nos próximos meses.
Quando nascerá o primeiro bebê clonado?
ANTINORI: Entre novembro e dezembro do próximo ano. Será um grande sucesso.
Por que o senhor disse que a ACT roubou a sua idéia? A tecnologia não pode ser
explorada por outras pessoas?
ANTINORI: Conversei com eles (os cientistas da Advanced Cell Technology, que
fizeram o primeiro embrião humano clonado) em 7 de agosto. Eles roubaram minha idéia.
Infelizmente na Itália eu não pude fazer nada para evitar que isso acontecesse. Fui
proibido.
O senhor já causou polêmica antes, ao ajudar mulheres que já passaram da menopausa a
serem mães. Por quê faz isso?
ANTINORI: Há dez anos, quando eu disse que uma mulher que já havia passado pela
menopausa poderia ter um filho, parecia um absurdo. Hoje já nasceram cerca de 50 mil
crianças, filhas de mulheres com mais 50 anos. Esta também é uma invenção minha.
Romper barreiras é algo que lhe fascina, não? Por quê?
ANTINORI: Sim, sou como um jogador de futebol que quer sempre o gol. Como se diz no
Brasil? Um craque? Por falar em Brasil, recebo diversos convites para participar de
simpósios lá. Tenho muito respeito pela medicina brasileira. O espírito latino é
criativo, inventivo, desafiante. Já o anglo-saxão é rígido, sem jogo de cintura.
O senhor tem contato com médicos brasileiros e trabalha em conjunto com eles?
ANTINORI: Tenho contatos.
O senhor acha que um dia a clonagem será uma coisa comum?
ANTINORI: Sim. Daqui a cinco anos a clonagem será uma coisa comum.
Quanto custa clonar um bebê?
ANTINORI:Será uma técnica reprodutiva como outra qualquer. Poderá custar cinco
milhões de liras (cerca de R$ 5.000).
O senhor não tem medo do impacto negativo que a clonagem possa ter sobre a sua
carreira?
ANTINORI: Não. Não matamos ninguém. Que mal há em ter um filho que se parece
comigo?
Há candidatos a clonagem brasileiros?
ANTINORI: Fui procurado por mais de dez casais brasileiros.
O senhor foi muito criticado pela Igreja Católica. Como responde a essas críticas?
ANTINORI: Já denunciei no Tribunal de Haia o cardeal Joseph Ratzinger (prefeito da
Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano) porque ele me comparou a Hitler.
É um absurdo. A hipocrisia é que o Ocidente quer libertar o Afeganistão dos talibãs,
mas age com a mesma mentalidade deles. Os americanos querem tirar as burkas das afegãs e
colocar nos cientistas. Precisamos de tropas morais para libertar os Estados Unidos de
Bush . O direito de transmitir os próprios genes é ancestral. (© O Globo)
Vaticano
está preocupado com primeira clonagem humana
da France Presse, em Roma
O Vaticano expressou hoje sua preocupação com o anúncio da primeira
clonagem de um embrião humano feito pela companhia americana Advanced Cell Technology, e
voltou a condenar esse tipo de experência.
A primeira reação do Vaticano chegou com por Tarcísio Bertone, secretário
da Congregação para a doutrina da fé, a instituição dirigida pelo cardeal Joseph
Ratzinger. "Ainda não sabemos exatamente qual é o processo e se pode ser definido
como uma verdadeira clonagem humana", disse monsenhor Bertone à agência de imprensa
italiana "Ansa".
"Ainda é preciso uma série de verificações científicas seja
feita", acrescentou.
O prelado recordou a condenação do Vaticano de qualquer clonagem humana.
"Temos de fazer uma distinção", frisou. "Se os cientistas americanos
extraíram uma célula-mãe de um paciente para enxertá-la num óvulo, para
reprogramá-lo geneticamente; se depois se formou um embrião, que foi destruído para que
suas células fossem cultivadas para a obtenção de outras células-mãe, que depois se
transformam em células nervosas, então se trata de uma verdadeira clonagem humana, que
deve ser condenada porque foi criado e depois destruído um verdadeiro embrião
humano", explicou.
"Mas, se, ao contrário, os cientistas conseguiram obter células-mães
semelhantes às do paciente utilizando células-mães não embrionárias, então se
trataria de uma verdadeira conquista científica, a qual poderia ser considerada como
eticamente positiva", frisou.
A companhia americana Advanced Cell Technology divulgou hoje que conseguiu
clonar com sucesso um embrião humano para produzir células-mães para fins
terapêuticos.
Usando uma técnica chamada partenogênese, a companhia afirmou que os
"resultados preliminares explicam a teoria segundo a qual a reprogramação das
células humanas é possível".
(© Folha Online) |
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