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Não se pode imaginar algo mais terrível que a verdade, diz Eco

28/11/2001

 

Xavier Moret

   Barcelona, Espanha -- Desde que publicou 20 anos atrás "O Nome da Rosa", Umberto Eco se transformou em um dos poucos autores capazes de contar como êxitos todos os seus romances. "O Pêndulo de Foucault" (1988) e "A Ilha do Dia Anterior" (1994) levantaram uma grande expectativa e agora, em sua quarta obra, Eco revalida o grande êxito com "Baudolino", romance que já está na terceira edição na Espanha. Nele, um personagem mentiroso que parece ter escapado de uma novela picaresca narra ao historiador bizantino Nicetas suas aventuras junto com o imperador Frederico Barba Ruiva, realizadas a cavalo entre os séculos 12 e 13.

El País: Com "Baudolino" o senhor retorna ao mundo medieval de "O Nome da Rosa", mas de um ponto de vista muito diferente.

Umberto Eco: É verdade, volto à Idade Média, mas em "O Nome da Rosa" tratava do ambiente eclesiástico, enquanto aqui o faço do ponto de vista laico. Naquele utilizei uma linguagem douta e neste uma linguagem popular. Naquele era o ambiente fechado de uma abadia e neste percorro quase todo o mundo conhecido.

El País: Foi premeditado esse regresso à Idade Média depois de dois romances?

Umberto Eco: De modo algum. No início tinha pensado em escrever um romance intitulado "Número Zero", que tratava de um grupo de jornalistas que tentavam fundar um novo jornal e inventar uma falsa grande notícia. Depois percebi que a idéia se parecia com a de "O Pêndulo de Foucault" e me lembrei da falsa exclusiva mais famosa da história: a de Preste Juan, o rei cristão de um reino fabuloso que na Idade Média se dizia estar em algum lugar do Extremo Oriente. Ao revisar as datas vi que a história de Preste Juan apareceu ao mesmo tempo que a fundação de minha cidade, Alessandria. Então pensei que seria bom falar da Lombardia. Como pode ver, cheguei à Idade Média depois de um largo rodeio.

El País: Baudolino é um personagem picaresco, filho adotivo do imperador Frederico Barba Ruiva, que fala da Idade Média na primeira pessoa e inventa muito. O senhor levou muito tempo preparando a trama?

Umberto Eco: A primeira coisa que escrevi foram as dez páginas iniciais, que estão escritas em uma estranha mistura de latim, alemão e dialetos italianos. Foi de certo modo como voltar a minha infância. O resto, quer dizer, a psicologia de Baudolino e tudo o que se narra nasceu dessa linguagem inicial. É curioso, sempre disse que para escrever um romance deve-se inventar primeiro um mundo e depois vem a linguagem e tudo o mais, mas em Baudolino foi o contrário.

El País: Talvez porque para Baudolino seja muito importante sua maneira de falar. Ele é no fundo um mentiroso, um personagem picaresco que inventa através da palavra.

Umberto Eco: É um pícaro, realmente. No início eu também dizia que era um mentiroso, mas não. Os mentirosos mentem sobre o passado e o presente, enquanto Baudolino mente sobre o futuro. É um utópico, já que acredita no que diz. Ele realmente vai buscar o reino de Preste Juan. É um mentiroso no mesmo sentido em que são os grandes idealistas. Como Colombo, que descobriu a América porque se enganou em seus cálculos sobre a Terra.

El País: Na primeira parte de Baudolino se diz que as cidades italianas da época odiavam mais o vizinho que o estrangeiro.

Umberto Eco: Ao revisar a história do imperador Federico percebi que tudo o que nos ensinaram na escola sobre a Idade Média na Itália era falso. Não houve nenhuma aliança de cidades italianas para defender-se do invasor. Ao contrário. Todos estavam divididos. Além disso, uma cidade podia estar em janeiro com o imperador e em maio não mais. Escrever "Baudolino" foi de certo modo uma maneira de entender os jogos da política italiana atual.

El País: Flutua no romance a idéia de que Federico defendia algo semelhante à Europa unida.

Umberto Eco: É que essa idéia já existia na Idade Média. Dante tinha sonhado isso. Era uma idéia da Europa unida, mas como uma federação de cidades associadas.

El País: O senhor buscou um paralelo com os tempos atuais?

Umberto Eco: Talvez os italianos se divirtam vendo analogias com Umberto Bossi e a Liga do Norte, mas não.

El País: No primeiro capítulo do romance surpreende ver Constantinopla destruída pelos "bárbaros latinos".

Umberto Eco: De fato. Inclusive me permiti uma brincadeira de cinco ou seis páginas para que o leitor pense que estou falando dos muçulmanos. Mas afinal se vê que os que destroem tudo são os latinos. Durante as Cruzadas fizeram coisas terríveis que estão documentadas. Nesse sentido a história verdadeira é sempre mais novelesca que a ficção que se possa inventar. As descrições do sítio de Constantinopla estão no historiador Nicetas. Nenhum romancista pode imaginar algo mais terrível que a verdade. Viu-se isso recentemente. Nenhum diretor de Hollywood podia imaginar o que aconteceu com as Torres Gêmeas.

El País: Uma das conclusões do livro é que viajar rejuvenesce. O senhor realmente acredita nisso?

Umberto Eco: Eu viajo muito e não estou morto. Então [risos] é claro que viajar é bom.

El País: Mesmo depois de 11 de setembro?

Umberto Eco: Em 14 de setembro eu subi num avião para ir a Bruxelas. Pensei: se nos deixarmos levar pelo medo os terroristas terão ganho.

El País: O senhor é otimista em relação ao mundo futuro?

Umberto Eco: O 11 de setembro nos ensinou que não é bom fazer previsões sobre o futuro do mundo. Se me tivessem perguntado sobre o mundo em 10 de setembro eu teria dado uma resposta errada.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
(© El Pais/UOL Midia Global)

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