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Um italiano visionário e sua paixão pela narrativa

05/12/2000

 

 

Turim é famosa pelos automóveis Fiat, por seu museu de antigüidades egípcias, porque numa de suas ruas, um dia de 1881, Friedrich Nietzsche deu aquele abraço no cavalo com que se despediu da razão, porque num modesto quartinho do Hotel Roma, vizinho à estação, uma noite de 1951 se suicidou Cesare Pavese, e por muitas outras coisas mais. A elas logo se somará, talvez, graças ao entusiasmo contagioso de um de seus ilustres filhos, o escritor Alessandro Baricco, o fato de estar se convertendo na capital européia da narrativa, ou quase isso.

   Nascido em 1958, Baricco é um dos mais conhecidos escritores contemporâneos, autor da magníficos romances, entre eles o misterioso, lacônico e perfeito Seda, de ensaios e textos teatrais e de estudos musicais, um deles consagrado à obra de Rossini. Mas é ainda uma espécie de agitador e missionário cultural, um cruzado do conto, que dedica parte de sua vida não só a criar histórias e personagens de ficção, mas também a criar escritores e leitores de boa literatura, com múltiplas iniciativas que, pelo que acabo de ver e ouvir numa viagem recente por sua terra turinense, já deram ótimos frutos.

   Uma delas é a Scuola Holden, assim chamada em homenagem a Holden Caulfield, herói de O Apanhador em Campo de Centeio, de Salinger, que funciona a poucos metros das margens do rio Pó, numa casa de fim de século e modernista de uma rua apropriadamente chamada Dante. Nela se ensinam as técnicas da narrativa em todas suas expressões: os livros, o cinema, o teatro a televisão.

   Os jovens que fazem os cursos, com duração de dois anos, têm entre 19 e 30 anos, vêm de toda a Itália e em suas aulas aprendem a ler, a narrar, a ouvir, a construir, a frasear e a sugerir as histórias que trazem dentro de si e gostariam de desaguar em livros, nos palcos ou em filmes. Seus mestres são todos praticantes da narrativa, como o próprio Baricco, não só romancistas, também dramaturgos, roteiristas, letristas ou narradores orais, cuja qualificação exclusiva é a paixão por seu ofício e o desejo de enriquecê-lo e propagá-lo. 

   Pureza - A Scuola Holden tem reminiscências dos departamentos de "redação criativa" (Creative Writing) que muitas universidades anglo-saxãs oferecem, mas existe nela algo que a distingue deles: uma maior exigência de pureza vocacional de parte dos alunos, que não recebem título nem certificado acadêmico ao término de sua formação, pois a Scuola, que é privada, não tem caráter oficial universitário, não aspira a possuí-lo. Sua ambição não é formar profissionais, mas artistas. Ou, melhor dito, narradores, palavra que, nas classes, franciscanas mas pletóricas da alegria e vitalidade da instituição, soa melhor, com mais musicalidade, graça e dignidade do que em outras partes.

   Várias vezes dei cursos e conferências sobre o que aprendi escrevendo novelas; mas nunca me diverti tanto em fazê-lo quanto entre esses jovens aguerridos e apaixonados da Scuola Holden, o mais novo dos quais me sussurrou ao ouvido, com uma convicção emocionante, no último dia de aula, à guisa de despedida: "Vou conseguir tornar-me um escritor".

   Baricco é também criador e protagonista de um espetáculo batizado com o nome de Totem, que percorreu os teatros da Itália congregando multidões, e uma de suas versões foi filmada e transmitida pela RAI. Não a vi ao vivo, só em vídeo, mas, mesmo assim, na tela se notava a concentração de êxtase com que o público escutava (rindo, entristecendo-se ou maravilhando-se) as histórias que Baricco e seus acompanhantes lhes liam e contavam, entremeando seus relatos com casos, comentários e, às vezes, fragmentos musicais.

   Histórias tiradas de escritores clássicos ou modernos, Dickens, Céline, ou de Guilherme Tell, última ópera que Rossini escreveu, revividas no palco literalmente, e vinculadas umas às outras a partir do efeito psicológico causado em quem as ressuscitava, explicando-as e lendo-as em voz alta para compartilhar com a platéia o prazer, a surpresa, a ternura ou a angústia que aquelas leituras lhes proporcionaram. Em alguns casos, um autor reproduzia, com mímica, o personagem da história e, em outros, uma música, gravada ou executada em cena por um pequeno conjunto, acompanhava a leitura para acrescentar certa ênfase, ou rodear de certo clima os textos lidos.

   Entretanto, em todos esses casos, a cenografia não se servia das narrações para fins teatrais, extranarrativos; estava a serviço delas, dava maior relevo aos relatos e contribuía para situá-los dentro de um contexto inteligível.

   Histórias - O Totem renova, em um mundo moderno, a mais antiga e mais difundida das tradições: em todas as culturas e civilizações, desde os tempos mais remotos, os seres humanos costumavam reunir-se para escutar histórias. Histórias que lhes explicavam o mundo e o além-mundo, aplacavam seus medos e incertezas ou os multiplicavam, tirando-os de suas vidas limitadas e fazendo-os viver, no tempo miraculoso do conto, outras mais ricas, mais livres e mais intensas. A literatura é um rebento tardio daquela antiga magia urdida com o verbo e a fantasia para fazer a vida mais tolerável, para apaziguar simbolicamente esse jorro de desejos irrealizáveis de que é feita a existência humana.

   O espetáculo concebido por Baricco chega tão facilmente a grande públicos não-literários porque tem a virtude de mostrar - nos textos e narrações que escolhe e que entrelaça remetendo-os a sua própria experiência e à vida de nossos dias - como a boa literatura é diversão, maneira arrebatadora de engrandecedora de passar o tempo, como as boas histórias dos livros podem estimular o ânimo, nem mais nem menos que um concerto de rock ou uma partida de futebol.

   A última das invenções de Alessandro Baricco em seu inexorável combate em favor da literatura é uma livraria. Tinha sido inaugurada apenas há seis dias quando a visitei. Encontra-se no centro de Turim, numa esquina da Piazza Bodoni, e é pequena, de apenas 100 metros quadrados. Uma frase de Nora Joyce a seu célebre marido recebe os visitantes: "Por que não escrever livros que as pessoas entendam?".

   A livraria de Baricco foi concebida de tal modo que todos os livros que nela se vendem fiquem acessíveis aos compradores, porque cada um é acompanhado por um padrinho (ou madrinha) que o descreve, explica e promove durante três minutos com algumas gravações que os potenciais compradores podem escutar nos fones de ouvido, como nas lojas de discos. Para que isso seja possível (que cada livro receba esse tratamento deferente e especial que o recomenda ao comprador) fixou-se um máximo de livros postos à venda: 28, nem um mais.

   Esse número é inflexível, mas os títulos não: todos os meses se renovam dez, que são do mesmo modo escolhidos, descritos e promovidos por uma pessoa. Os que escolhem se renovam também, naturalmente. São tradutores, escritores, críticos, mas a idéia não é que essas 28 pessoas saiam exclusivamente do âmbito intelectual. Serão pessoas procedentes de diferentes meios e atividades, afeiçoadas à leitura, com certo gosto e capazes de explicar de viva voz em três minutos razões claras e persuasivas pelas quais o livro recomendado deve ser lido.

   Não há nenhuma limitação (nem de gênero, nem de época, nem de língua) na seleção dos 28 afortunados volumes acolhidos na livraria concebida por Baricco. Alguns exemplos dessa primeira seleção dão uma idéia da variedade da oferta: As Confissões, de Jean Jacques Rousseau, contos de Charles Bukowski e romances de Alberto Savinio, Philip Roth, Jorge Ibargüengoitia, William Vollmann, Virginia Woolf, Georges Simenon, Serena Vitale, João Guimarães Rosa, Antonio Moresco, Sebastian Junquer e Antonia S. Byatt, entre outros.

   Minha insistência em verificar se essa original livraria minimalista estaria em condições de sobreviver economicamente provocou entre os amigos embarcados na aventura da Piazza Bodoni muitos sorrisos e alguns bocejos: sim, sobreviviria. Em todo caso, o êxito econômico não era seu objetivo primordial. Mais do que isso, era estabelecer um exemplo digno de ser imitado. Em seus primeiros dias de existência, a livraria tinha vendido uma média de meia centena de volumes diários: seria um mau começo?

   Amor - É preciso desejar-lhe sucesso, que sua vida se prolongue por muito tempo. O projeto é original e revela um amor profundo e pessoal pelo livro. Não pelo livro em geral, entidade abstrata; por este, esse e aquele, e cada um dos que passaram a ocupar um lugar nas estantes aristocráticas dessa loja que tem algo de santuário ou âmbito cerimonial.

   Pois cada um deles chegou até aqui não por efeito de um mecanismo impessoal (as forças do mercado, a oferta e a demanda) mas como um ato de amor, de reconhecimento, de gratidão, de um leitor que, graças àquelas páginas, viveu horas ou dias de ilusão, de sonho e de felicidade e quer, desse modo, assumindo o seu apadrinhamento, que outros vivam uma experiência igualmente gratificante. Isto não é renunciar ao mercado, sem dúvida. É atuar de maneira que o mercado do livro, além de produzir benefícios para editores e livreiros, dinamize sua cultura literária, difundindo o produto valioso, o mais criativo, e vá ganhando leitores e educando-os, ao mesmo tempo que os serve.

   Se, como presume Baricco, essa pequena livraria tiver êxito, muitas outras nascerão à sua imagem e semelhança em Turim e no resto da Itália, e isto servirá, também, para estimular os bons editores, aqueles que querem publicar livros de qualidade e não se atrevem por falta de circuitos de distribuição para chegar aos leitores. E talvez sirva, além disso, para diminuir a pletora asfixiante de publicações em que se sacrifica a qualidade. (Mario Vargas LLosa, OESP)

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