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O
encontro estava marcado para 1 da tarde. Já era 1h20 e nenhum sinal dele. Será que
estávamos no lugar errado? Será que havíamos nos confundido com o horário? Não, não
havia engano nenhum. Rocco tinha sido claríssimo: 1 da tarde, no segundo trevo da estrada
que liga Reggio Calabria a Gioiosa Jonica. Era exatamente onde eu e Humberto estávamos. O
relógio digital do nosso Fiat Bravo alugado marca 1h25 e nenhum sinal de Rocco. Já nem
sei mais se quero que ele apareça. Agora percebo que foi uma estupidez marcar um encontro
com um mafioso numa estrada deserta da Calábria, no sul da Itália.
O homem que esperamos, na verdade, são dois. Para os carabinieri da DIA
(Direzione Investigativa Antimafia), Rocco Carrozza é, oficialmente, filiado ao clã dos
Morabito, uma das famílias mais importantes da Ndrangheta, a máfia calabresa. Para os
amigos, entretanto, ele é apenas um pequeno empresário do ramo de construção civil, um
homem trabalhador e honesto, injustamente perseguido pela polícia, pelo Ministério
Público e pela Justiça da Itália por ser um marido devoto e pai exemplar de quatro
filhos que têm o azar de ter o sobrenome Morabito.
A oportunidade de falar com Rocco surgiu num lance de sorte. Eu estava em
Roma, em março de 1997, investigando, para a Folha de S. Paulo, os tentáculos da
organização dos Morabito no Brasil quando soube, num jantar, que o patriarca do clã
o velho Giuseppe Morabito tinha um genro falastrão que chegara a conceder
duas entrevistas à imprensa italiana. O falastrão era Rocco, e o repórter responsável
pela façanha de entrevistá-lo estava presente à mesa. Não custava nada tentar.
O jornalista prontificou-se a fazer um contato com Rocco em meu nome. No dia
seguinte, recebi o recado de que o mafioso estava disposto a falar, desde que o encontro
fosse na Calábria. Antes de passar o número do telefone de Rocco, o jornalista fez um
alerta:
Não diga logo da saída que você está investigando uma história da máfia. Ele
nega ser um mafioso e desmente até mesmo a existência da máfia calabresa. Invente
qualquer coisa, diga que você está fazendo uma reportagem sobre a pobreza na Calábria e
que quer ouvi-lo. Só mencione a palavra máfia se sentir, depois de algum tempo de
conversa, que ele foi com a sua cara.
No dia seguinte, eu e o jornalista Humberto
Saccomandi, também da Folha, ligamos para Rocco e pedimos uma entrevista, com o trololó
sobre a reportagem da pobreza na Calábria.
Tudo bem, mas é melhor falarmos pessoalmente disse Rocco, marcando em
seguida o encontro na estrada.
Uma e 32 da tarde. Eu e Humberto estamos a ponto de desistir do encontro
quando aparece um Alfa Romeo 164 azul na estrada, no sentido oposto ao nosso, piscando os
faróis. É Rocco. Ele emparelha o carro com o nosso, abre o vidro e nos fita, em
silêncio, durante alguns intermináveis segundos, com um olhar profundo. Depois dá um
sorriso e diz:
Vocês devem ser os jornalistas brasileiros. Venham atrás de mim.
Dentro do carro, eu e Humberto estamos congelados de medo. Esperávamos um mafioso light,
mas Rocco um homem de mãos grossas e pequenas, que vestia um terno xadrez em tons
de marrom e uma ridícula calça verde se parecia (e agia!) como o mafioso
estereotipado de Hollywood.
S eguimos o Alfa Romeo de Rocco até Gioiosa
Jonica, uma cidade pobre e empoeirada, de menos de 10000 habitantes. Ele pára o carro e
desce; fazemos o mesmo. Somos conduzidos por Rocco até um café de quinta categoria onde
nos sentamos a uma mesa no fundo do estabelecimento, completamente vazio.
O que vocês querem saber sobre a pobreza na Calábria?
questiona, sem nenhum sinal de cordialidade na voz.
Começamos a fazer perguntas sobre o falso tema que nos levara até a
Calábria e ele responde com frases curtíssimas, sempre emendadas por um "o que mais
querem saber?" Em 10 minutos, não nos restava mais nenhuma pergunta sobre a pobreza
na Calábria e, pelo comportamento de Rocco, pouco adiantaria se ainda nos restasse. Por
algum motivo que não entendíamos, ele sabia que nosso interesse era outro. Tomamos
coragem (pouca, é verdade) e perguntamos por que a Calábria era apontada como um dos
berços da máfia italiana.
Ah, então querem conversar sobre máfia... A máfia não existe, é
uma invenção do governo para justificar gastos enormes com a burocracia e as forças
antimáfia e também para distrair a opinião pública da corrupção. Não sou mafioso,
entenderam?
Os berros deixavam claro que ele esperava um sim como resposta. Tentamos voltar ao tema da
pobreza para desanuviar o ambiente, mas Rocco não queria ouvir mais nada.
Vou mostrar a vocês a pobreza na Calábria. E vocês também poderão
ver com seus próprios olhos que aqui não existe máfia. Saímos do café seguindo os
passos apressados de Rocco.
Vamos para Locri. É onde moro e, segundo alguns, é também a
capital da Ndrangheta disse, com uma risada repleta de sarcasmo.
Quando eu enfiava a mão no bolso para pegar a chave do carro, o mafioso
deu uma sugestão que me pareceu mais uma ordem:
Vamos no meu carro.
De Gioiosa Jonica até Locri são pouco mais de 10 quilômetros numa estrada
estreita e reta. Rocco acelerou, acelerou mais e continuou a fazê-lo até o ponteiro do
velocímetro apontar 175 quilômetros por hora.
Gosta do meu jeito esportivo de dirigir? perguntou o mafioso
a Humberto, olhando-o fixamente.
Humberto esforçava-se para aparentar calma, balançando a cabeça em sinal
afirmativo e sorrindo de volta, mas suas duas mãos coladas no vidro dianteiro do carro
denunciavam o pavor que estava sentindo. Em Locri (cidade também muito pobre, onde boa
parte dos cerca de 5000 habitantes vive em casas mal-acabadas de tijolo aparente), Rocco
nos levou a mais um café. Dessa vez chegou chamando a atenção dos presentes, batendo
palmas e falando em voz alta:
Estou aqui com dois jornalistas brasileiros que vieram conhecer a
Calábria. Digam vocês: aqui existe máfia? A resposta foi um vigoroso não, quase em
uníssono.
Tomamos café encostados no balcão, enquanto Rocco nos contava que a
perseguição contra sua família tinha feito uma vítima recentemente, seu cunhado
Domenico Morabito, filho mais novo de don Giuseppe, morto a tiros pelos carabinieri numa
blitz de trânsito havia menos de seis meses. Como fizera no café onde havíamos estado,
Rocco não pagou a conta nem deixou que pagássemos. Simplesmente saiu sem ser cobrado.
Depois o mafioso nos levou até sua casa, uma construção de dois andares nada luxuosa,
perfeitamente comum se não fosse por um detalhe: quatro câmeras de circuito interno
instaladas dentro e fora da casa.
Francesca, a mulher de Rocco, uma italiana
gorducha de 42 anos, nos recebeu com uma cólera ruidosa quando soube, pelo marido, que
estávamos em Locri para saber coisas da máfia. Ela nos xingou (a mim, a Humberto e a
Rocco), praguejou contra as autoridades que perseguiam seu velho pai e contra os policiais
que tinham matado seu irmão.
Escrevam no jornal de vocês que a máfia não existe. Vivemos numa
região pobre, de gente perseguida. Essa é a verdade disse, em meio a um choro sem
lágrimas.
Francesca, vou levá-los à delegacia onde trabalham os carabinieri
que assassinaram seu irmão! anunciou Rocco.
Quero que eles perguntem diretamente ao capitão se somos mafiosos!
F omos todos para a delegacia menos
Francesca, que preferiu ficar em casa. Rocco entrou no humilde prédio dos carabinieri da
mesma forma como fizera nos bares, batendo palmas e falando alto para chamar a atenção.
Os policiais presentes pareciam encabulados com a sua presença. Alguns o cumprimentaram.
Um jovem carabiniere apareceu e foi logo tirando satisfação de Rocco por causa da
quizumba. O mafioso não se abalou.
Senhor tenente, estou aqui com esses dois jornalistas brasileiros que
vieram fazer uma reportagem sobre a Calábria e quero ver o capitão.
O capitão não está e aqui não é lugar de
confusão respondeu o enérgico carabiniere.
Rocco dirigiu ao tenente o mesmo sorriso sarcástico e o olhar petrificante aos quais eu e
Humberto já começávamos a nos habituar.
Por que você está me olhando dessa maneira?
questionou o tenente de modo severo.
Por nada... Os olhos foram feitos para olhar.
Os olhos não matam... disse Rocco.
Depende respondeu o carabiniere,
encarando o mafioso.
O.k., a cena era perfeita para um filme B, mas eu e
Humberto preferíamos não ver o final do duelo entre aqueles dois bravos calabreses e
pedimos encarecidamente a Rocco para irmos embora. Ele concordou, mas disse que voltaria
à delegacia mais tarde para falar com o capitão (de fato, retornamos ao local outras
duas vezes, mas o oficial nunca apareceu). A noite caiu e continuamos acompanhando Rocco.
Em Africo município colado a Locri entramos em mais um café.
Eu e Rocco fumávamos sem parar. Ele por vício; eu de
nervoso. Só Humberto não fumava. O mafioso perguntou ao meu colega se ele não gostava
de tabaco e Humberto respondeu que apreciava charutos. Rocco então pediu ao balconista
uma carteira de cigarrilhas e a presenteou a Humberto.
Antes de irmos embora, Rocco aproximou-se de um
carabiniere que tomava café no balcão e sussurrou algo no ouvido dele. O policial
dirigiu-se imediatamente ao caixa, pagou a conta e foi embora. Rocco virou-se para nós e,
com ironia grosseira, comentou:
Vejam que coisa, o policial fez questão de pagar as cigarrilhas do
Humberto. Agora vocês imaginem: se eu fosse mafioso, ele faria isso?
Ainda atordoados, fomos levados por Rocco de volta a Gioiosa Jonica, ao local
onde havíamos deixado o carro.
Voltem amanhã. Vocês vão almoçar na minha casa.
Retornamos ao nosso hotel e, no dia seguinte, no horário marcado, estávamos
de volta à casa de Rocco. O mafioso nos recebeu de modo caloroso no portão, com os
braços abertos e abraços exagerados. Francesca preparara um banquete calabrês, com
três tipos de massa e um vinho tinto. Rocco brincou todo o tempo, riu muito das próprias
piadas e contou que um dia queria conhecer o Brasil.
Ao contrário do dia anterior, eu e Humberto não sentíamos mais medo, mas
simpatia por aquele casal (agora bonachão) que nos propocionava uma tarde deliciosa de
boa charla e ótima comida. Terminado o almoço, Rocco disse:
Agora sim. Liguem o gravador e perguntem o que quiserem.
Entrevistamos Rocco e Francesca durante pouco mais de 1 hora e também
tiramos foto do casal na sala vigiada pelas câmeras de circuito interno. Ambos disseram
somente o óbvio. Negaram ser mafiosos e amaldiçoaram as autoridades italianas pela
perseguição aos Morabito e a outras famílias calabresas, como os Mazzaferro, os Ierino
e os Pesce, cujos representantes foram apresentados a mim e a Humberto durante nosso
périplo com Rocco pela Calábria.
As respostas de Rocco e Francesca não ajudaram em nada na investigação
sobre a organização do tráfico de drogas no eixo Colômbia-Brasil-Itália. Quando o
gravador foi desligado, estávamos no mesmo ponto da apuração em que nos encontrávamos
antes. Após a entrevista, Rocco fez questão de nos guiar até o ponto da estrada onde
havia nos encontrado no dia anterior. Despedimo-nos e ficamos observando o mafioso fazer
meia volta e tomar o rumo de Locri cantando os pneus de seu Alfa.
Eu e Humberto voltamos para Reggio Calabria, de onde pegaríamos um avião
para Roma, fascinados. A entrevista que tanto queríamos ficara chatíssima. Mas, durante
dois dias, havíamos tido o privilégio de estar no berço da Ndrangheta, sendo
apresentados a ela por um dos seus exponentes mais poderosos. Uma história surrealista.
Um roteiro canastrão de um filme sobre a máfia. (Lucas Figueiredo, Playboy)
Aos 50 anos, Rocco Carrozza é um dos
mafiosos mais respeitados da Ndrangheta, a máfia calabresa. Não pelo currículo, mas por
parentesco. Ele é genro de um dos chefes da organização, Giuseppe Morabito, que aos 65
anos está na lista dos dez mafiosos mais procurados pela DIA (Direzione Investigativa
Antimafia). O sogro de Rocco é um dos cabeças de uma poderosa organização
internacional de narcotráfico que, em 1994, "importara" do Cartel de Cali 5
toneladas e meia de cocaína.
Ao casar-se, na década de 80, com Francesca Morabito (filha mais velha de
Giuseppe), Rocco tornara-se um uomo donore (homem de honra) da máfia. Fora preso
várias vezes e respondera a processos por tráfico de drogas, extorsão, associação
mafiosa e seqüestro, se livrando de todas as acusações. Mas a disputa entre Rocco e o
Estado italiano continua pela posse de seus bens.
Em 1993, a Justiça decretou pela terceira vez o seqüestro das
propriedades e do dinheiro depositado em bancos italianos no nome de Rocco, sob o
argumento de que tudo pertencia ao sogro Giuseppe. A decisão está sendo contestada pelos
advogados de moral ilibada e notório saber da máfia calabresa e a Justiça ainda não
tem posição definitiva. |
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