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Depois de
500 anos, o Brasil, o maior país católico do mundo, vai ter a sua primeira santa. Na
manhã de ontem, peritos-médicos da Congregação para as Causas dos Santos reconheceram
como milagrosa a cura da acreana Iza Bruna Vieira de Souza, de 8 anos. Com a decisão, a
causa de canonização da madre Paulina do Coração Agonizante de Jesus teve o segundo
milagre reconhecido oficialmente pelos peritos-médicos do Vaticano.
Era o passo mais aguardado para que madre Paulina passe a ser reconhecida
como santa, depois de um longo processo burocrático analisado pela Igreja durante 35
anos. Falta agora apenas o aval de teólogos e cardeais para que o papa João Paulo II
promulgue o decreto que ratifica as conclusões dos peritos e marque a data para a
cerimônia de canonização. "O reconhecimento do milagre pelos médicos era a etapa
mais delicada do processo", disse ao Estado, de Roma, a postuladora da causa de madre
Paulina, irmã Célia Cadorin. "Se não acontecerem imprevistos, a cerimônia de
canonização pode ocorrer em julho, caso o papa confirme sua vinda ao Brasil."
Os milagres - Para que um candidato à canonização vire santo, é
necessário o reconhecimento de dois milagres. O primeiro foi em 1989. Eluiza Rosa de
Souza foi curada quando já estava desenganada pelos médicos. Na sétima gravidez,
ocorreu a morte intra-uterina do feto. A retirada do feto, que ficou retido por alguns
meses no útero, causou fortes hemorragias e um choque irreversível. Eluiza foi salva
após rezar para madre Paulina. O primeiro reconhecimento transformou-a em beata, durante
cerimônia realizada pelo papa, em Florianópolis.
O segundo milagre foi reconhecido ontem. Bruna foi curada de um tumor em
1992 quando era ainda recém-nascida. A mãe da criança, Francisca Mabel, disse que a
família pediu ajuda à madre Paulina durante a gravidez e depois que a filha apresentou
os primeiros problemas. O tumor era do tamanho de uma laranja, segundo relatou na época o
pediatra José Medeiros Furtado. Bruna passou por uma operação de quatro horas e teve
convulsões pós-operatórias.
Foi batizada para que não morresse em "pecado original",
segundo contou a mãe. Depois do batismo, melhorou rapidamente.
Antes de reconhecer o milagre de Bruna, o Vaticano esperou que a criança
crescesse, para que não pairassem dúvidas de que os problemas médicos não voltariam.
Para ser reconhecida como milagrosa, o Vaticano exige que a cura seja instantânea,
perfeita e duradoura. Conforme define a Igreja, o milagre não é feito pelo santo, mas
por Deus. Um santo milagreiro seria aquele que consegue interceder com mais freqüência
junto a Deus, em benefício de seus devotos. Ou seja, o milagre não é do santo, mas
feito por intermédio dele.
A vida - Madre Paulina é a fundadora da Congregação das
Irmãzinhas da Imaculada Conceição (CIIC), criada em 25 de agosto de 1895. Na sede da
congregação, em São Paulo, no bairro do Ipiranga, as irmãs receberam ontem a notícia
do reconhecimento do milagre da causa de madre Paulina por meio de um telefonema da irmã
Célia. Elas rezaram a noite inteira por uma decisão positiva do Vaticano.
A primeira santa do Brasil nasceu em Vígolo Vattaro, Trento, na Itália,
em 16 de dezembro de 1865. Morreu em São Paulo, em 1942. Seu nome de batismo é Amabile
Lucia Visintainer. Passou a ser conhecida como madre Paulina depois de fazer seus votos
religiosos.
Com quase 10 anos, em 1875, emigrou com seus pais e irmãos para a
província de Santa Catarina, onde acompanhou o nascimento das novas vilas que surgiam.
Madre Paulina era a segunda entre 14 irmãos, sendo que 9 deles são
brasileiros.
Ela viveu a maior parte da vida em São Paulo, no Ipiranga. Em Nova
Trento, Santa Catarina, local onde a congregação foi fundada, um santuário, com
capacidade para 6.500 pessoas, está sendo construído. Atualmente, a cidade recebe, nos
fins de semana, em média, a visita de cerca de 3 mil fiéis. (Bruno Paes Manso, OESP) |