...Uma cidade pode passar por
diversas catástrofes e medievos, ...ver pedra sobre pedra ser substituída, mas deve, no
momento certo, sob diversas formas, reencontrar seus deuses."
O reencontro não deve contemplar apenas os mestres da arquitetura e
urbanismo modernos brasileiros, que glorificaram nossa produção com exemplos primorosos
- Lúcio Costa e Affonso Reidy, no Rio de Janeiro, Vilanova Artigas ou Lina Bo Bardi, em
São Paulo, só para ficar em âmbito restrito, mas principalmente um autor da grandeza de
Giulio Carlo Argan, sem dúvida um dos maiores historiadores e críticos da arte de nosso
século, e que escreve "não se pode fazer a história da civilização sem fazer a
história da arte".
Giulio Carlo Argan, nascido em Turim em 1909 - chegou a ser prefeito de
Roma em 1976 e senador pelo ex-Partido Comunista Italiano em 1983 - distinguiu-se de seu
conterrâneo Roberto Longhi por estender suas análises à arquitetura, em especial ao
Renascimento e ao barroco - debruçando-se sobre Brunelleschi e Borromini -, e
principalmente à arquitetura moderna européia e americana da fase heróica do
entre-guerras. Ambos afastam-se dos pressupostos crocianos e alinham-se à uma
interpretação da obra de arte tendente à "pura visibilidade" de Erwin
Panofsky, método que investiga o significado da "mensagem" da obra de arte.
Filosoficamente, Argan aproxima-se da fenomenologia husserliana, para quem
a intencionalidade faz parte do conhecimento do fenômeno. Preocupado em destilar as
"intenções" e questões metodológicas de que se constitui a arquitetura
moderna, Projeto e Destino é composto de escritos realizados entre os anos 30 e 64,
formando um todo coerente com sua premissa da análise e interpretação dos conteúdos
conceituais da obra de arte, mas já consciente da profunda crise em que está imersa.
A trama histórica tecida por Argan identifica os principais pontos de
inflexão das intenções projetuais dos protagonistas europeus da arquitetura moderna.
Apóia-se sobre o debate entre artesanato e indústria, indagando se é possível a
existência da obra de arte produzida em um mundo tecnológico e artificial; investiga os
aspectos metodológicos adotados pelos artistas para adequar-se à produção industrial,
obrigando-os a abandonar o princípio da idéia, como sucedia no período do artesanato,
para adotar o da ação, como ocorre no nosso tempo tecnológico. Mas é uma ação
dirigida à transformação social, qualquer que seja o campo da produção artística,
mesmo tratando-se do desenho industrial desenvolvido na Bauhaus.
Argan identifica logo a principal implicação dessa nova maneira de
produzir sobre a sociedade de massa. "A máquina não produz objetos, mas
imagens", diz ele, ciente de que essa produção é comandada pela sedução ao
consumo. Assim, a concretude do objeto desaparece e, substituído pela imagem, mediante a
exacerbação do consumo, aniquila qualquer força transformadora da sociedade.
Busca as origens dessa crise no contraponto entre a produção artística
européia e a americana, iniciando com Frank Lloyd Wright na América. No primeiro
pós-guerra, influenciados por Wright, os neoplasticistas holandeses elaboram sua teoria,
na qual estabelecem o conceito de espaço a partir da construção de planos horizontais e
verticais. Argan identifica, já nos anos 20, no seio da Bauhaus, a polêmica entre o
neoplasticismo e o racionalismo metodológico de Walter Gropius. Wright, nos EUA,
"considera o homem diante da natureza, a arquitetura européia considera o homem na
coletividade humana".
Mais tarde, a ida dos mestres europeus aos EUA, por ocasião do fechamento
da Bauhaus com a ascensão do nazismo, fará com que a produção nesse novo ambiente
social afrouxe ainda mais suas intenções de transformação. A sociedade de Gropius e
Marcel Breuer naquele país e as obras produzidas durante os anos 40 comprovam essa
afirmação. Na Europa, essa distensão será evidente na Capela de Ronchamp, projeto de
Le Corbusier, segundo o autor, obra emblemática para a compreensão da crise da
arquitetura moderna, cuja "forma barroca e neoplástica" expressa a perda de
suas premissas políticas radicais.
A publicação do livro de Argan ocorre dez anos antes da popularização
do termo "pós-moderno", que não faz parte ainda de seu vocabulário. Mas
Projeto e Destino faz pensar se não foi Argan quem melhor identificou essa passagem do
"moderno" para o "pós-moderno", pois considera a aproximação da
América aos mestres europeus e vice-versa o início de uma profunda mudança nas
premissas radicais da arquitetura moderna.
A tradução cuidadosa de Marcos Bagno garante a densidade da linguagem
que o conjunto da obra possui. Faz-se uma ressalva à tradução dos termos técnicos,
presa aos significados do vocabulário, o que muitas vezes não condiz com os jargões
técnicos. Ocorrem, assim, algumas imprecisões na tradução quanto a determinados
elementos arquitetônicos. A distinção entre plano e volume é fundamental para a
arquitetura ou o desenho industrial, assim "terrazzi a sbalzo" são
"terraços em balanço", "pensiline" são "marquises", e
"trulli" e "roulotte" mereceriam uma nota explicativa pois não têm
correspondente em português. A primeira denomina determinadas construções em pedra, com
planta circular e teto cônico, típicas da aldeia de Alberobello, no sul da Itália.
A segunda corresponde ao reboque ou trailer.
Para aqueles que acreditam em uma história da arquitetura
"pura", talvez esse livro não tenha muita utilidade. Mas, para os que se
preocupam com os verdadeiros compromissos que a arquitetura e urbanismo possam ter em cada
momento histórico, servirá, no mínimo, para refletir sobre a vida e responder,
certamente com perplexidade, qual destino alcançaremos com o nosso projeto contemporâneo
e aí, quem sabe, re-desenhem esse projeto! (Ana Elena Salvi, JT)
Ana Elena Salvi é pós-graduanda da FAU, professora de Teoria
daArquitetura da FAUS, coordenadora e professora de Teoria e História doCurso de
Arquitetura e Urbanismo da UNIP,