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Os escaninhos
reservados à música brasileira nas lojas de disco do exterior guardam mesmo surpresas.
Nas de Paris, aportou sabe-se lá como ou por que um curioso CD, com jeitão de coletânea
barata, intitulado "Sonho de um carnaval". Assinado: Chico Buarque & Ennio
Morricone. Para aumentar o estranhamento, a foto da capa é de um Chico adolescente, quase
o "larápio rastaqüera cuja foto não era para capa", que o bom observador vai
logo notar tratar-se da foto de seu primeiro LP, de 1965. Ao fundo, numa montagem mal
feita, céu azul e palmeiras tropicais mais para o Taiti do que para as praias do Brasil.
E um carimbo dando a grife de uma coleção chamada "Latin Music - Brasil
Original". O repertório, nada demais, tudo conhecido, basicamente canções de Chico
de 1969 e algumas anteriores. Abre-se o disco, põe-se na vitrola e surpresa: sim, não
há dúvida, é a voz de Chico, as canções são aquelas mas os arranjos - grandes,
orquestrais, muito diferentes dos originais famosos - só podem mesmo ser de Morricone, o
mestre das trilhas sonoras.
Desfeito o mistério: a falsa coletânea é na verdade o disco
"Sambas do Brasil", lançado na Itália em 1970, versão em português de
"Por un pugno di samba", o disco que Chico gravou em seu exílio italiano com
arranjos de Ennio Morricone - o título italiano, aliás, é uma brincadeira com o
western-spaghetti "Por um punhado de dólares", sucesso de Morricone na época.
Fracasso absoluto de público mesmo na Itália, onde Morricone tinha um cartaz danado e
já era um dos grandes compositores do cinema italiano, o disco ficara esquecido, é
raridade mesmo entre o pesquisadores, nunca foi lançado no Brasil, e mesmo Chico se
esquecera dele.
- Que coincidência! - exclama o compositor ao GLOBO, pelo telefone, do
Leblon. - Estava há poucos dias na Itália e perdi uma aposta por causa desse disco, não
me lembrava dessas gravações. Um executivo da BMG italiana apostou um jantar comigo e
com o Sérgio Bardotti (produtor do disco e versionista das canções para o italiano) que
eu tinha gravado aquelas músicas com o Morricone em português. Eu não me lembrava mais
disso e ele me botou para ouvir. Tive que pagar o jantar.
Chico lembra bem, contudo, de como ele, um exilado brasileiro ainda pouco
conhecido em Roma ("Naquele tempo a música brasileira não tinha o sucesso de
hoje", diz), gravou o disco com Morricone.
- "A banda" tinha feito sucesso, mas era só. O Toquinho foi
para lá e nós fazíamos uns shows, mas era difícil. Chegamos a abrir os shows de uma
excursão da Josephine Baker - lembra Chico que, na época, auge da ditadura,
imediatamente pós-AI-5, não podia voltar ao Brasil por problemas políticos e, ausente,
não interessava mais à sua gravadora até então, a RGE. - Eu freqüentava muito, nessa
época, um condomínio fora de Roma, onde moravam amigos meus italianos, o Sergio
Bardotti, o Sergio Endrigo, o Bacalov. Nesse condomínio, morava também o Morricone. Ele
era o rico do condomínio (risos). Aí me lembro que a idéia desse disco foi uma espécie
de ação entre amigos para me ajudar.
Acabou não ajudando na prática, pois o disco foi um fracasso (na versão
em italiano e na versão em português que Chico ainda não sabe por que gravou). O cantor
acabaria gravando logo depois o seu "Volume 4" pela Phillips (hoje Universal),
registrando a voz em Roma e as bases e a orquestra no Rio, por Cesar Camargo Mariano - foi
esse trabalho que o manteve vivo artisticamente no Brasil e com algum dinheiro para se
sustentar em Roma até sua volta, em 1971. Mas, é impossível negar à audição do disco
italiano, a ação entre amigos resultou num capítulo importante para a obra de Chico.
A base do repertório são as canções de "Chico Buarque volume
4": "Samba e amor", "Não fala de Maria", "Mulher vou dizer
quanto eu te amo", "Nicanor", "Tema de Os inconfidentes"
(no CD omite-se a informação de que a música é sobre o "Romanceiro da
inconfidência", de Cecília Meireles) e o hino daqueles anos de sufoco político em
Roma, "Agora falando sério". Mais sucessos do período anterior da música de
Chico, "Roda viva", "Ela desatinou", "Quem te viu, quem te
vê"; a pioneira "Sonho de um carnaval"; a pouco conhecida "Umas e
outras" (lançada no Brasil apenas em compacto, em 1968) e o "Funeral de um
lavrador", da música de Chico sobre o poema de João Cabral de Melo Neto "Morte
e vida severina", no CD atribuído a um tal de Neto Cabral de Melo.
Chico não ouve essas gravações desde aquela época. Mas lembra ter
gostado dos arranjos de Morricone. De algumas idéias como a de uma cantora fazendo um
vocal meio desatinado em "Ela desatinou" ou do órgão que acompanha "Umas
e outras", acentuando a contradição e ao mesmo tempo aproximando a religiosa e a
prostituta de que fala a letra. (Hugo Sukman Correspondente PARIS, OG) |