Retornar ao índice ItaliaOggi

 

Notizie d'Italia

 

Samba-espaguete: Chico Buarque & Ennio Morricone

23/12/2000

 

 

Os escaninhos reservados à música brasileira nas lojas de disco do exterior guardam mesmo surpresas. Nas de Paris, aportou sabe-se lá como ou por que um curioso CD, com jeitão de coletânea barata, intitulado "Sonho de um carnaval". Assinado: Chico Buarque & Ennio Morricone. Para aumentar o estranhamento, a foto da capa é de um Chico adolescente, quase o "larápio rastaqüera cuja foto não era para capa", que o bom observador vai logo notar tratar-se da foto de seu primeiro LP, de 1965. Ao fundo, numa montagem mal feita, céu azul e palmeiras tropicais mais para o Taiti do que para as praias do Brasil. E um carimbo dando a grife de uma coleção chamada "Latin Music - Brasil Original". O repertório, nada demais, tudo conhecido, basicamente canções de Chico de 1969 e algumas anteriores. Abre-se o disco, põe-se na vitrola e surpresa: sim, não há dúvida, é a voz de Chico, as canções são aquelas mas os arranjos - grandes, orquestrais, muito diferentes dos originais famosos - só podem mesmo ser de Morricone, o mestre das trilhas sonoras.

   Desfeito o mistério: a falsa coletânea é na verdade o disco "Sambas do Brasil", lançado na Itália em 1970, versão em português de "Por un pugno di samba", o disco que Chico gravou em seu exílio italiano com arranjos de Ennio Morricone - o título italiano, aliás, é uma brincadeira com o western-spaghetti "Por um punhado de dólares", sucesso de Morricone na época. Fracasso absoluto de público mesmo na Itália, onde Morricone tinha um cartaz danado e já era um dos grandes compositores do cinema italiano, o disco ficara esquecido, é raridade mesmo entre o pesquisadores, nunca foi lançado no Brasil, e mesmo Chico se esquecera dele.

   - Que coincidência! - exclama o compositor ao GLOBO, pelo telefone, do Leblon. - Estava há poucos dias na Itália e perdi uma aposta por causa desse disco, não me lembrava dessas gravações. Um executivo da BMG italiana apostou um jantar comigo e com o Sérgio Bardotti (produtor do disco e versionista das canções para o italiano) que eu tinha gravado aquelas músicas com o Morricone em português. Eu não me lembrava mais disso e ele me botou para ouvir. Tive que pagar o jantar.

   Chico lembra bem, contudo, de como ele, um exilado brasileiro ainda pouco conhecido em Roma ("Naquele tempo a música brasileira não tinha o sucesso de hoje", diz), gravou o disco com Morricone.

   - "A banda" tinha feito sucesso, mas era só. O Toquinho foi para lá e nós fazíamos uns shows, mas era difícil. Chegamos a abrir os shows de uma excursão da Josephine Baker - lembra Chico que, na época, auge da ditadura, imediatamente pós-AI-5, não podia voltar ao Brasil por problemas políticos e, ausente, não interessava mais à sua gravadora até então, a RGE. - Eu freqüentava muito, nessa época, um condomínio fora de Roma, onde moravam amigos meus italianos, o Sergio Bardotti, o Sergio Endrigo, o Bacalov. Nesse condomínio, morava também o Morricone. Ele era o rico do condomínio (risos). Aí me lembro que a idéia desse disco foi uma espécie de ação entre amigos para me ajudar.

   Acabou não ajudando na prática, pois o disco foi um fracasso (na versão em italiano e na versão em português que Chico ainda não sabe por que gravou). O cantor acabaria gravando logo depois o seu "Volume 4" pela Phillips (hoje Universal), registrando a voz em Roma e as bases e a orquestra no Rio, por Cesar Camargo Mariano - foi esse trabalho que o manteve vivo artisticamente no Brasil e com algum dinheiro para se sustentar em Roma até sua volta, em 1971. Mas, é impossível negar à audição do disco italiano, a ação entre amigos resultou num capítulo importante para a obra de Chico.

   A base do repertório são as canções de "Chico Buarque volume 4": "Samba e amor", "Não fala de Maria", "Mulher vou dizer quanto eu te amo", "Nicanor", "Tema de ‘Os inconfidentes’" (no CD omite-se a informação de que a música é sobre o "Romanceiro da inconfidência", de Cecília Meireles) e o hino daqueles anos de sufoco político em Roma, "Agora falando sério". Mais sucessos do período anterior da música de Chico, "Roda viva", "Ela desatinou", "Quem te viu, quem te vê"; a pioneira "Sonho de um carnaval"; a pouco conhecida "Umas e outras" (lançada no Brasil apenas em compacto, em 1968) e o "Funeral de um lavrador", da música de Chico sobre o poema de João Cabral de Melo Neto "Morte e vida severina", no CD atribuído a um tal de Neto Cabral de Melo.

   Chico não ouve essas gravações desde aquela época. Mas lembra ter gostado dos arranjos de Morricone. De algumas idéias como a de uma cantora fazendo um vocal meio desatinado em "Ela desatinou" ou do órgão que acompanha "Umas e outras", acentuando a contradição e ao mesmo tempo aproximando a religiosa e a prostituta de que fala a letra. (Hugo Sukman Correspondente PARIS, OG)

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi