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A revista
norte-americana "Wine Spectator", uma das mais importantes publicações do
mundo do vinho, traz na sua mais recente edição a lista dos cem melhores vinhos
degustados pelos seus editores em 2000.
Para selecioná-los, os jurados levaram em consideração itens como a
pontuação obtida nas provas -apenas os que ganharam 90 pontos ou mais foram
considerados, o equivalente a 1.550 vinhos do total de 11 mil experimentados-, o seu
preço ou a sua disponibilidade no mercado americano.
Para o topo da lista, fazendo jus ao diploma de vinho do ano, a revista
guindou, pela primeira vez na sua história, um vinho italiano (normalmente franceses e
americanos têm se alternado na conquista do prêmio máximo): o Solaia, da antiga e
renomada firma italiana Antinori.
A casa da Toscana, na região central da bota, chega ao título (e emplaca
outros dois vinhos seus na relação, o Badia a Passignano Riserva 97 e o Guado al Tasso
97) comandada por Piero Antinori, descendente da família que é proprietária da
vinícola há mais de 600 anos e um dos grandes renovadores da vitivinicultura da Itália.
Ele foi o criador, no início da década de 70, do primeiro supertinto
italiano, o Tignanello, um Sangiovese temperado com cabernet e, pouco depois, do Solaia,
outro rubro muito bom, modelado principalmente com cepas francesas (o 97 é um corte de
75% de cabernet sauvignon, 5% de cabernet franc e 20% de sangiovese) e amaciado em
barricas de carvalho ao estilo bordalés.
Antinori tem se destacado também com produtos de preço mais em conta, como
os chiantis. O seu Reserva Tenuta Marchese e o Riserva, por exemplo, são sempre boas
pedidas para quem curte um bom tinto italiano, e o Santa Cristina, um sangiovese-merlot, a
US$ 13,50, é quase sempre uma das melhores opções custo-benefício nascidas na bota.
Escoltaram o Solaia no pódio dois cabernet americanos: o Viader 97, oriundo
de uma pequena vinícola (produz cerca de 4.000 caixas por ano) com vinhedos em Howell
Mountain, e o Whitehall Lane 97, outro cabernet californiano de Napa Valley. Na centena de
goles de ponta, acabaram predominando três países (Estados Unidos, com 35 vinhos,
França, com 22, e Itália, com 19) embalados pela entrada no mercado estadunidense dos
goles nascidos em duas safras consideradas excepcionais, a de 97 (na Califórnia e na
Península Itálica) e a de 98 (especialmente no Rhône).
A Austrália, com dez exemplares, foi a quarta colocada, seguida pela Espanha
(quatro exemplares), Nova Zelândia, Alemanha e Portugal (cada um com três) e África do
Sul, com um.
Para quem quiser se presentear nestas festas com alguns dos vinhos da
seleção, boas notícias: há vários deles disponíveis no país. Adiciono outros que
não constam dela, mas que brilharam por aqui neste ano (vários deles já publicados na
coluna "Mundo de Baco") e que podem ampliar a lista de candidatos a regar as
comemorações do fim do século.
Na ala dos brancos, destaque absoluto para Chuck Wagner, o enólogo da
Caymus, e o seu Mer & Soleil 96, um chardonnay californiano, rico, de aroma intenso,
equilibrado e sabor longo e delicioso, capaz de derrubar um bom montrachet. Bem mais em
conta, porém também perfumado e delicioso, menção muito especial para a edição 2000
do sauvignon blanc da vinícola chilena Villard, que mostrou mais uma vez que os brancos
dessa cepa são uma verdadeira especialidade do país (e têm em geral preços
imbatíveis).
No departamento dos tintos, vale a pena lembrar outros dois chilenos, o
delicioso Cabernet Sauvignon 97 Terrunyo, novo rótulo da Concha y Toro, e o Malbec
Resérve Premium 97 da Valdivieso, uma casa que estreou este ano no Brasil apresentando
belos goles rubros. Outra excelente estréia foi a do Reserva Viña Hormigas 99 da adega
argentina Altos de Medrano, também malbec, um tinto viscoso, com taninos firmes, muito
concentrado, cheio de fruta deliciosa, já integrante do time dos melhores exemplares
platinos.
Brilhou também nas provas de 2000 o Silver Oak Alexander Valley 95, um
clássico cabernet californiano, elegante, complexo, com fruta intensa, certo verniz
delicado de madeira e um longo final. Para encerrar, um italiano da Toscana, também da
badaladíssima safra 97: o Siepi, um tinto corte de uvas sangiovese e merlot.
O supertinto da Fonterutoli, outra renomada adega italiana, com seu aroma
potente e seu paladar redondo, com bela textura, que combina frutas vermelhas, notas de
baunilha e especiaria, superou semanas atrás numa degustação às cegas, realizada em
São Paulo, vários tintos toscanos de ponta, incluindo, até, o próprio Solaia 97, top
de 2000 da "Wine Spectator". Não percam. (JORGE CARRARA, colunista da FSP) |