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A luta continua
Sem muito estardalhaço, Dario Fo e Franca
Rame colocam no ar, no início do mês, os seus respectivos sites na internet. Depois de
um longo trabalho de catalogação, amantes do teatro e pesquisadores terão, através dos
endereços http://www.dariofo.it e
http://www.francarame.it, acesso a toda obra do prêmio Nobel de literatura e da sua
mulher, também atriz, diretora e dramaturga. E que obra! Isso porque, para abrigar toda a
produção de uma vida da dupla, foram criadas mais de 998 mil arquivos, uma verdadeira
esbórnia cultural.
Além das milhares de fotos, no tesouro de Fo e Rame,
encontram-se 120 espetáculos, 60 dos quais inéditos. Mas não é só isso: acompanhando
os textos, existem todos os detalhes que os envolvem, como figurinos, cenas,
ambientações, processos de criação, montagens críticas etc. Resolvemos oferecer um
cardápio completo do nosso trabalho , diz Franca Rame com uma ponta de orgulho.
Assim, do A de Amarti è il mio destino, ao Z de Zitti
stiamo precipitando , os navegantes conhecerão a obra dos dois contestadores. Algo muito
importante, levando-se em conta que Dario Fo, no Brasil, por exemplo, quase não foi
traduzido. Um dos seus poucos livros em circulação é Manual Mínimo do Ator , publicado
pela editora Senac.
Organizado por Marco Scordo, uma mago da informática
italiana, nos dois sites é possível encontrar tudo aquilo que foi escrito a respeito de
Fo e Rame no mundo. Além do mais, uma infinidade de documentos retrata um pouco o que foi
a vida da dupla, que, durante anos, participou do partido Luta continua . Considerados
subversivos, eles foram perseguidos pela direita italiana, além de darem muita dor de
cabeça ao Vaticano.
ESTADO DE MINAS Da política à internet, quantas mudanças depois
do prêmio Nobel, não é mesmo?
Dario Fo Olhe, esse é um trabalho de Franca. Tudo que se fez, todo
o trabalho de pôr a sua obra e a minha na internet aconteceu por um esforço dela. No
final, achei muito bom, pois agora muita gente pode consultar de qualquer parte do mundo o
nosso trabalho. Isso é muito bom.
EM O senhor mantém alguma relação com o computador?
Dario Fo Não. Mas escrevo à máquina. Não sei sequer fazer
funcionar um computador.
EM Seria impossível negar que a sua vida não mudou após o prêmio
Nobel.
Dario Fo Sim, mudou muito. Antes, tínhamos uma certa dificuldade
para mostrar o nosso trabalho, até porque, aqui na Itália, muitos pensavam que nós
comêssemos criancinhas. Viajamos muito depois do Nobel, como continuamos a viajar. É
importante porque passamos a atuar em todos os segmentos da sociedade. As nossas
conferências e apresentações, por exemplo, são repletas de donas de casa. Quem, em sã
consciência, poderia imaginar que Dario Fo um dia falaria para as donas de casa?
EM O que o senhor fez com o milhão de dólares que ganhou com o
prêmio Nobel?
Dario Fo Ah, todos me fazem essa pergunta. Gastamos, gastamos e
gastamos. Porém, gastamos ajudando pessoas e instituições, dando força a tantos que
precisavam.
EM Fala-se que Dario Fo nunca trabalhou tanto. É verdade?
Dario Fo O prêmio ajudou a nossa luta. Também não nego que as
portas se abriram. Trabalhamos muito, talvez ainda mais do que antes do prêmio, algo que,
apesar do esforço, nos proporciona uma satisfação enorme.
EM Como o senhor vê o cenário cultural italiano?
Dario Fo A Itália é um país que tornou-se prisioneiro da
televisão. É um cenário inquietante, pois fico imaginando o que podem pensar as
gerações que têm como único ponto de referência aquilo que exibem na televisão.
EM Até que ponto o senhor se sente estimulado para lidar e lutar
com essa realidade?
Dario Fo A batalha é mais dura que antes, pois apesar de menos
ideologizado no sentido político, o mundo se tornou muito mais perverso. Apesar de tudo,
ainda consigo lutar. Caso viesse a perder o estímulo, daria um tiro na cabeça.
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