Retornar ao índice ItaliaOggi

 

Notizie d'Italia

 

Dario Fo: Teatro da política

26/12/2000

 

 

MILÃO (Itália) Depois do Nobel de Literatura, em 1997, a vida do dramaturgo, ator e diretor Dario Fo nunca mais foi a mesma. Além de ter engordado a sua conta bancária em US$ 1 milhão, o saltimbanco italiano conheceu, já na velhice, o gosto da fama. Para se ter uma idéia, ele já foi condecorado dezenas de vezes com títulos acadêmicos em meio mundo, sem falar dos muitos convites que recebe mensalmente para fazer conferências e apresentações.

   Abusado e cada vez mais disposto, apesar de setentão, Fo não nega fogo. Tanto que, só no ano passado, além das muitas viagens ao exterior, percorreu uma infinidade de cidades italianas, onde, com a sua veia satírica, destilou veneno contra as instituições, principalmente o Vaticano, de quem é inimigo jurado e vice-versa.

   O que ninguém imaginava, porém, é que ele ousasse disputar a prefeitura de Milão. A sua decisão, como não poderia deixar de ser, repercutiu nos quatro cantos do planeta. Só que, depois de freqüentar por quase um mês as páginas de política dos jornais italianos, a sua candidatura dançou. Em Milão, o ESTADO DE MINAS, entre outras coisas, conversou com Dario Fo a respeito da sua curta aventura como possível candidato à prefeitura de Milão.

ESTADO DE MINAS A sua expressão é de quem parece aliviado por não ter virado candidato à prefeitura de Milão, não?

Dario Fo É? (Risos). Olhe, no momento eu sou uma pessoa feliz, mesmo descobrindo que, pelo menos na política, não existe uma verdade, mas apenas meias verdades. Eu, se fosse possível e se me dessem condições, seria candidato à prefeitura de Milão, sim.

EM Que tipo de prefeito seria Dario Fo?

Dario Fo Seria um prefeito que tentaria devolver a Milão um aspecto de cidade, pois tudo que se faz hoje por aqui está voltado para a especulação. Só se pensa em expandir a cidade, em se construir grandes estruturas nas suas imediações. Precisamos melhorar o centro e as periferias.

EM Discurso de candidato, mas o senhor meteu medo na esquerda, apesar da sua eterna luta com a direita.

Dario Fo (Interrompendo) A esquerda de Milão é incompetente. Eles queriam que eu aceitasse um programa exclusivamente deles. Na verdade, me colocariam numa posição de marionete. Que esquerda é essa que não consegue enfrentar Albertini? (prefeito de Milão)

EM O senhor não aparecia bem nas pesquisas. Isso acabou contribuindo para o boicote da esquerda?

Dario Fo Eu era um espécie de Dom Quixote. Toda vez que andava no meu cavalo, alguém tentava cortar suas pernas (risos).

EM A sua companheira (Franca Rame) parece feliz com a sua não candidatura.

Dario Fo Ela sempre achou que a minha vida viraria um inferno. Acho que ela tinha razão. Nomalmente Franca sempre tem razão. (Raul Moreira/Especial para o EM)

A luta continua

   Sem muito estardalhaço, Dario Fo e Franca Rame colocam no ar, no início do mês, os seus respectivos sites na internet. Depois de um longo trabalho de catalogação, amantes do teatro e pesquisadores terão, através dos endereços http://www.dariofo.it e http://www.francarame.it, acesso a toda obra do prêmio Nobel de literatura e da sua mulher, também atriz, diretora e dramaturga. E que obra! Isso porque, para abrigar toda a produção de uma vida da dupla, foram criadas mais de 998 mil arquivos, uma verdadeira esbórnia cultural.

   Além das milhares de fotos, no tesouro de Fo e Rame, encontram-se 120 espetáculos, 60 dos quais inéditos. Mas não é só isso: acompanhando os textos, existem todos os detalhes que os envolvem, como figurinos, cenas, ambientações, processos de criação, montagens críticas etc. Resolvemos oferecer um cardápio completo do nosso trabalho , diz Franca Rame com uma ponta de orgulho.

  Assim, do A de Amarti è il mio destino, ao Z de Zitti stiamo precipitando , os navegantes conhecerão a obra dos dois contestadores. Algo muito importante, levando-se em conta que Dario Fo, no Brasil, por exemplo, quase não foi traduzido. Um dos seus poucos livros em circulação é Manual Mínimo do Ator , publicado pela editora Senac.

  Organizado por Marco Scordo, uma mago da informática italiana, nos dois sites é possível encontrar tudo aquilo que foi escrito a respeito de Fo e Rame no mundo. Além do mais, uma infinidade de documentos retrata um pouco o que foi a vida da dupla, que, durante anos, participou do partido Luta continua . Considerados subversivos, eles foram perseguidos pela direita italiana, além de darem muita dor de cabeça ao Vaticano.  

ESTADO DE MINAS Da política à internet, quantas mudanças depois do prêmio Nobel, não é mesmo?

Dario Fo Olhe, esse é um trabalho de Franca. Tudo que se fez, todo o trabalho de pôr a sua obra e a minha na internet aconteceu por um esforço dela. No final, achei muito bom, pois agora muita gente pode consultar de qualquer parte do mundo o nosso trabalho. Isso é muito bom.

EM O senhor mantém alguma relação com o computador?

Dario Fo Não. Mas escrevo à máquina. Não sei sequer fazer funcionar um computador.

EM Seria impossível negar que a sua vida não mudou após o prêmio Nobel.

Dario Fo Sim, mudou muito. Antes, tínhamos uma certa dificuldade para mostrar o nosso trabalho, até porque, aqui na Itália, muitos pensavam que nós comêssemos criancinhas. Viajamos muito depois do Nobel, como continuamos a viajar. É importante porque passamos a atuar em todos os segmentos da sociedade. As nossas conferências e apresentações, por exemplo, são repletas de donas de casa. Quem, em sã consciência, poderia imaginar que Dario Fo um dia falaria para as donas de casa?

EM O que o senhor fez com o milhão de dólares que ganhou com o prêmio Nobel?

Dario Fo Ah, todos me fazem essa pergunta. Gastamos, gastamos e gastamos. Porém, gastamos ajudando pessoas e instituições, dando força a tantos que precisavam.

EM Fala-se que Dario Fo nunca trabalhou tanto. É verdade?

Dario Fo O prêmio ajudou a nossa luta. Também não nego que as portas se abriram. Trabalhamos muito, talvez ainda mais do que antes do prêmio, algo que, apesar do esforço, nos proporciona uma satisfação enorme.

EM Como o senhor vê o cenário cultural italiano?

Dario Fo A Itália é um país que tornou-se prisioneiro da televisão. É um cenário inquietante, pois fico imaginando o que podem pensar as gerações que têm como único ponto de referência aquilo que exibem na televisão.

EM Até que ponto o senhor se sente estimulado para lidar e lutar com essa realidade?

Dario Fo A batalha é mais dura que antes, pois apesar de menos ideologizado no sentido político, o mundo se tornou muito mais perverso. Apesar de tudo, ainda consigo lutar. Caso viesse a perder o estímulo, daria um tiro na cabeça.

 

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi