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NÁPOLES, Itália. Terra de
montanhas e vilarejos, a região de Cilento, no Sul da Itália, nunca teve muitos
atrativos. Pouco visitada, permaneceu praticamente ignorada por séculos. Mas agora a
área caiu nas graças do Governo italiano que, através do Instituto de Geneticistas e
Biofísicos de Nápoles, estuda as características genéticas dos habitantes da região.
Nove dos vilarejos de Cilento foram transformados num parque genético - local onde
cientistas em breve colherão o sangue da população e avaliarão suas fichas médicas
como parte de um projeto ambicioso: traçar as raízes genéticas de diversas doenças.
Segundo os cientistas napolitanos, a população de Cilento é um raro
exemplo de uma sociedade pouco miscigenada, num mundo altamente mestiço. Por enquanto, o
projeto é custeado exclusivamente pelo Governo, mas parcerias com empresas privadas já
estão sendo estudadas.
- Essas pessoas estão praticamente isoladas aqui há séculos, não se
misturam com o resto do mundo. Elas podem nos ajudar a identificar genes ligados a
doenças comuns, como hipertensão, pedras nos rins e diabetes, que são muito complexas
justamente por estarem associadas a diversos genes - explica Graziella Persico, que
coordena a pesquisa.
A especialista afirma que Cilento, que fica a duas horas de carro de
Nápoles, não foi palco - como várias regiões próximas a ela - de ondas migratórias
significativas no decorrer da História. Praticamente toda a sua população descende do
mesmo pequeno número de habitantes originários da Grécia. Alguns vilarejos chegam, até
hoje, a ter o grego como língua oficial. É essa definida e estreita ancestralidade que
intriga cientistas de várias partes do mundo.
Os pesquisadores partem do princípio de que comparar o código genético
de pessoas com características semelhantes simplifica o trabalho de localizar genes
relacionados a doenças.
- Aqui, grupos de 20 pessoas possuem DNAs com estruturas muito
semelhantes. Em Londres ou em Nápoles, seria preciso estudar mais de duas mil pessoas
para se obter o mesmo tipo de informação - garante Persico.
Os estudiosos ainda contam com uma ajuda extra: as igrejas locais mantêm
registros de nascimentos, casamentos e mortes que datam de mais de cinco séculos. Os
padres usam os registros para terem a certeza de que parentes não muito próximos se
casarão - risco recorrente em se tratando de comunidades pouco povoadas. O estudo irá
cruzar dados dos registros com as pesquisas científicas, com o objetivo de traçar uma
espécie de árvore genealógica das doenças.
Projetos como esse, no entanto, não estão livres de serem condenados
pela opinião pública. Uma pesquisa semelhante, realizada na Islândia e coordenada pela
empresa americana deCODE, enfrentou uma série de protestos, pois muitas pessoas
acreditavam que teriam sua privacidade médica invadida.
Os cientistas italianos preferiram se precaver e passaram meses detalhando
a experiência à população de Cilento. Nenhuma amostra de sangue será colhida até o
ano que vem e todos terão acesso às informações levantadas pela equipe. Até agora, a
reação foi positiva. Muitas pessoas acreditam que o "parque genético"
movimentará a região.
- Além da importância das pesquisas, acho que o estudo pode trazer
benefícios econômicos e sociais para Cilento, criando empregos e incrementando o turismo
- diz Andrea Salati, prefeito do vilarejo de Gioi, um dos que fazem parte do "parque
genético". (OG) |