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"Parque genético" revelará origem de doenças

29/12/2000

 

 

NÁPOLES, Itália. Terra de montanhas e vilarejos, a região de Cilento, no Sul da Itália, nunca teve muitos atrativos. Pouco visitada, permaneceu praticamente ignorada por séculos. Mas agora a área caiu nas graças do Governo italiano que, através do Instituto de Geneticistas e Biofísicos de Nápoles, estuda as características genéticas dos habitantes da região. Nove dos vilarejos de Cilento foram transformados num parque genético - local onde cientistas em breve colherão o sangue da população e avaliarão suas fichas médicas como parte de um projeto ambicioso: traçar as raízes genéticas de diversas doenças.

   Segundo os cientistas napolitanos, a população de Cilento é um raro exemplo de uma sociedade pouco miscigenada, num mundo altamente mestiço. Por enquanto, o projeto é custeado exclusivamente pelo Governo, mas parcerias com empresas privadas já estão sendo estudadas.

   - Essas pessoas estão praticamente isoladas aqui há séculos, não se misturam com o resto do mundo. Elas podem nos ajudar a identificar genes ligados a doenças comuns, como hipertensão, pedras nos rins e diabetes, que são muito complexas justamente por estarem associadas a diversos genes - explica Graziella Persico, que coordena a pesquisa.

   A especialista afirma que Cilento, que fica a duas horas de carro de Nápoles, não foi palco - como várias regiões próximas a ela - de ondas migratórias significativas no decorrer da História. Praticamente toda a sua população descende do mesmo pequeno número de habitantes originários da Grécia. Alguns vilarejos chegam, até hoje, a ter o grego como língua oficial. É essa definida e estreita ancestralidade que intriga cientistas de várias partes do mundo.

   Os pesquisadores partem do princípio de que comparar o código genético de pessoas com características semelhantes simplifica o trabalho de localizar genes relacionados a doenças.

   - Aqui, grupos de 20 pessoas possuem DNAs com estruturas muito semelhantes. Em Londres ou em Nápoles, seria preciso estudar mais de duas mil pessoas para se obter o mesmo tipo de informação - garante Persico.

   Os estudiosos ainda contam com uma ajuda extra: as igrejas locais mantêm registros de nascimentos, casamentos e mortes que datam de mais de cinco séculos. Os padres usam os registros para terem a certeza de que parentes não muito próximos se casarão - risco recorrente em se tratando de comunidades pouco povoadas. O estudo irá cruzar dados dos registros com as pesquisas científicas, com o objetivo de traçar uma espécie de árvore genealógica das doenças.

   Projetos como esse, no entanto, não estão livres de serem condenados pela opinião pública. Uma pesquisa semelhante, realizada na Islândia e coordenada pela empresa americana deCODE, enfrentou uma série de protestos, pois muitas pessoas acreditavam que teriam sua privacidade médica invadida.

   Os cientistas italianos preferiram se precaver e passaram meses detalhando a experiência à população de Cilento. Nenhuma amostra de sangue será colhida até o ano que vem e todos terão acesso às informações levantadas pela equipe. Até agora, a reação foi positiva. Muitas pessoas acreditam que o "parque genético" movimentará a região.

   - Além da importância das pesquisas, acho que o estudo pode trazer benefícios econômicos e sociais para Cilento, criando empregos e incrementando o turismo - diz Andrea Salati, prefeito do vilarejo de Gioi, um dos que fazem parte do "parque genético". (OG)

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