"Isto pode se tornar o mais sério confronto
entre um governo e a magistratura na história de nossa República", escreveu o
jornal La Stampa em um editorial de primeira página. Berlusconi, um bilionário
empresário da mídia que enfrenta várias investigações de corrupção envolvendo seus
negócios, assumiu o cargo em junho. Problemas com o judiciário sempre pareceram algo
provável.
Depois de vários meses, a questão veio à tona esta semana depois da
renúncia do sub-secretário do ministério do Interior, que havia provocado polêmica ao
sugerir que alguns juizes de Milão deveriam ser presos por interferência política. O
governo aceitou a demissão, mas o ministro da Justiça, Roberto Castelli, disse ao
Parlamento que alguns magistrados tinham inclinação política e apresentou uma reforma
abrangente de 12 pontos para o sistema legal do país.
O fato irritou um grande número de juizes do país e os nove membros do
executivo da Associação Nacional de Magistrados (ANM) demitiram-se ontem. Fundada em
1909, a organização não-política protege os interesses dos cerca de oito mil
magistrados e juizes da Itália.
"Tenho 59 anos, trabalho na área há mais de 30 anos. Nunca imaginei
que teria que enfrentar uma fase tão triste e séria", disse o presidente da ANM,
Giuseppe Gennaro. O promotor público de Milão, Gerardo D'Ambrosio, teria dito que as
propostas do governo eram semelhantes às leis impostas pelo ditador Benito Mussolini
durante o regime fascista.
Duas das propostas do governo causaram bastante alarme. Uma dizia que o
Parlamento deveria estabelecer prioridades para os magistrados, indicando em quais crimes
deveriam focalizar. Outra dizia que deveria haver uma junção na formação da carreira
de promotores e juizes. A ANM teme que com isso os promotores se tornariam investigadores
policiais controlados pelo Ministério do Interior, e não pelo Ministério da Justiça.