Jaime Biaggio Na década passada, freqüentadores de cinema do Brasil aprenderam a
soletrar nomes esquisitos como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Wong Kar-Wai,
acostumaram os ouvidos a idiomas crípticos, e, para usar uma expressão típica de ratos
de cinemateca, ampliaram os seus horizontes estéticos. Agora, para ouvir uma
mísera palavra falada/cantada em italiano, geralmente só depois do cinema, na hora de
vasculhar o cardápio da pizzaria. O Roberto Benigni berrando buongiorno,
Principessa! e o Massimo Troisi tomando conhecimento da palavra metáfora e
lançando mão dela a torto e a direito, respectivamente, em A vida é bela e
O carteiro e o poeta, foram casos de exceção alavancados pela grife
americana do Oscar. De resto, filmes italianos raramente registraram presença nos cinemas
do Brasil na década de 90, no que representou a interrupção forçada de um
relacionamento feliz de mais de meio século.
Projeto trará ao Brasil filme do irmão de Bertolucci
Agora, o Grupo Estação, a ANICA (Associazione Nazionale Industrie
Cinematografiche Audiovisive Multimediali) e o Instituto Italiano de Cultura-RJ unem
esforços para reverter esta situação através do projeto Noites italianas no
Rio, cuja abertura oficial ocorreu com a exibição do filme Come te nessuno
mai, um passeio cativante pelo universo adolescente dirigido por um trintão,
Gabriele Muccino. O projeto consiste na importação de oito filmes italianos, que serão
exibidos à base de dois por semestre, em sessões especiais (abertas ao público, mas
fora de circuito). Para a primeira edição, além deste filme, os parceiros trouxeram
Lamore probabilimente, de Giuseppe Bertolucci, irmão mais novo de
Bernardo (La luna, O último imperador, O assédio).
Nas próximas edições, produtores, diretores e atores de cada filme
deverão vir ao Rio prestigiar as exibições, além de um representante de vendas e do
presidente da ANICA, que oferecerá gratuitamente, como estímulo ao distribuidor
brasileiro interessado nos títulos, quatro cópias de cada filme previamente legendadas
em português.
Os filmes italianos sempre tiveram grande público no Brasil. Entravam
em grandes circuitos lembra o pesquisador Alberto Shatovsky, consultor especial do
Grupo Estação. O público também era mais aberto a todo tipo de cinema. Essa
fase ruim começou com a morte dos grandes diretores e a mudança de foco da produção
audiovisual italiana para a televisão.
O cinema italiano fez parte do repertório cinematográfico de várias
gerações. Nos anos 40, com os dramas sociais do neo-realismo como Roma, cidade
aberta e Ladrões de bicicleta. Nos anos 50, com comédias escrachadas
como as protagonizadas por Totò. Nos anos 60, com as comédias de costumes na linha
Matrimônio à italiana, o ciclo do western-spaghetti de Sergio Leone
e seus seguidores e a consagração internacional da geração de Antonioni, Fellini e
Visconti. Nos anos 70, com Bertolucci, Ettore Scola, os irmãos Taviani e o cinema B de
gênero (filmes de terror sanguinolento como os de Dario Argento, a série
Trinity).
O público brasileiro só parou de ligar para o cinema italiano quando
ele se descaracterizou observa o crítico Ely Azeredo. O cinema italiano
influenciou muito o cinema brasileiro, pode-se verificar isto em Roberto Santos, Nelson
Pereira. Central do Brasil tem resquícios do caldo humanista do neo-realismo.
Mas hoje o clima político-cultural da Itália é muito triste. Até as estrelas italianas
de hoje são enxutas, malhadas, secas, no padrão internacional, sem a exuberância de
carne de Silvana Mangano, Sophia Loren, que perturbavam o sono da moçada.
Uma tarde num Fusca com Claudia Cardinale
Lembro-me de quando eu levei Claudia Cardinale ao Corcovado
recorda Shatovsky. Eu trabalhava na Manchete e íamos fazer uma
reportagem lá em cima. Fui pegá-la no hotel no meu Fusca. Lembro-me que ela exalava um
perfume especial. Perguntei a respeito e ela disse que era fabricado só para ela.
Bem, quem assistiu ao Malena, de Giuseppe Tornatore, sabe que
hoje existe ao menos Monica Bellucci, que já começa a fazer carreira internacional. Não
é nada, não é nada, é um símbolo em potencial para uma possível virada do cinema
italiano, tanto em termos de prestígio artístico, como se verificou recentemente com a
Palma de Ouro conquistada por Nanni Moretti em Cannes com O quarto do filho,
como no sentido do reencontro com o público, vide a boa recepção internacional (Brasil,
inclusive) de um filme despretensioso como Pão e tulipas.
O problema dos últimos anos foi que os filmes populares italianos
adquiriram características muito regionais identifica Ugo Sorrentino, dono da Art
Films, cadeia exibidora que começou a atuar, em 1931, como importadora de filmes
italianos. A comédia italiana, por exemplo, tinha características universais no
seu auge e hoje fala de temas essencialmente italianos. Um filme como Il
ciclone, grande sucesso na Itália em 1996, tem tantas possibilidades comerciais
aqui quanto Renato Aragão na Europa.
Período de seca de filmes italianos pode estar no fim
Segundo Sorrentino, que chegou a estudar no Centro Experimental de
Cinematografia de Roma e a trabalhar como faz-tudo no set de Oito e meio, de
Fellini, e fazer pontas em filmes de gladiador, há fortes possibilidades de que o
período de seca de filmes italianos esteja no fim.
Está havendo agora uma maior consciência dos vendedores italianos de
que estavam cobrando preços fora da realidade e oferecendo produtos de interesse
restrito. (© O Globo)
Crítica
Come te nessuno mai: Um filminho que cheira a espírito adolescente
Atenção, distribuidores: está aqui um filminho pequeno, sendo
comercializado a preço camarada, com chances razoáveis (idioma à parte) de levar
adolescentes, as galinhas dos ovos de ouro do mercado cinematográfico atual, às salas de
exibição. Come te nessuno mai não é uma tentativa de imitar o formato teen-movie
à americana. Muito pelo contrário, é um cativante exercício de compreensão do
universo adolescente, que parece ter sido mesmo dirigido por alguém de 15 anos.
Ambientado num colégio romano ocupado por estudantes secundaristas que
protestam contra alguma coisa que não está bem clara (ou, mais provavelmente, apenas
decidem dar vazão a uma necessidade de se afirmarem) e nas casas de alguns desses
estudantes, o filme, à primeira vista, é uma grande bobagem. À segunda, também, para
quem já passou dos 18 anos e meio: as angústias existenciais apresentadas na tela são
todas na linha os meus pais não me entendem, esses professores do colégio são uns
tapados e, muito pior do que isso, eu ainda não levei nenhuma das garotas da minha sala
pra cama.
Diretor já está trabalhando no cinema americano
O grande segredo, contudo, é a sinceridade, uma sinceridade que desarma
qualquer resistência. Pode ter a ver com o fato de nenhum daqueles garotos ser ator: todo
mundo ali foi recrutado em portas de escolas pelo diretor Gabriele Muccino, uma
revelação já cooptada pelo cinema americano (está dirigindo um remake em
inglês da comédia francesa O gato sumiu). Mas não é só isso: o filme
incorpora a maneira de pensar de um adolescente não apenas em diálogos, mas também no
formato narrativo. O tratamento melodramático quase babão empregado em certos momentos,
que seria um defeito grave num filme adulto, aqui ganha outra dimensão. Por que não
tratar uma bobagem qualquer como uma das grandes questões da humanidade se é exatamente
assim que os personagens a estão enxergando?
Bom, pode até ser que alguém fique indiferente. Pode ser também que aquele
povinho cabeça de faculdade de cinema odeie. Mas não perca o seu tempo com eles:
pergunte, isso sim, aos irmãos mais novos deles, que ainda estão ali pela 7 ou 8 série,
o que eles acharam. (© O Globo) |
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