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Cinema italiano de volta às telas, após o exílio nas pizzarias

08/12/2001

Cena do filme Come te nessuno mai


Jaime Biaggio

   Na década passada, freqüentadores de cinema do Brasil aprenderam a soletrar nomes esquisitos como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf e Wong Kar-Wai, acostumaram os ouvidos a idiomas crípticos, e, para usar uma expressão típica de ratos de cinemateca, “ampliaram os seus horizontes estéticos”. Agora, para ouvir uma mísera palavra falada/cantada em italiano, geralmente só depois do cinema, na hora de vasculhar o cardápio da pizzaria. O Roberto Benigni berrando “buongiorno, Principessa!” e o Massimo Troisi tomando conhecimento da palavra metáfora e lançando mão dela a torto e a direito, respectivamente, em “A vida é bela” e “O carteiro e o poeta”, foram casos de exceção alavancados pela grife americana do Oscar. De resto, filmes italianos raramente registraram presença nos cinemas do Brasil na década de 90, no que representou a interrupção forçada de um relacionamento feliz de mais de meio século.

Projeto trará ao Brasil filme do irmão de Bertolucci

   Agora, o Grupo Estação, a ANICA (Associazione Nazionale Industrie Cinematografiche Audiovisive Multimediali) e o Instituto Italiano de Cultura-RJ unem esforços para reverter esta situação através do projeto “Noites italianas no Rio”, cuja abertura oficial ocorreu com a exibição do filme “Come te nessuno mai”, um passeio cativante pelo universo adolescente dirigido por um trintão, Gabriele Muccino. O projeto consiste na importação de oito filmes italianos, que serão exibidos à base de dois por semestre, em sessões especiais (abertas ao público, mas fora de circuito). Para a primeira edição, além deste filme, os parceiros trouxeram “L’amore probabilimente”, de Giuseppe Bertolucci, irmão mais novo de Bernardo (“La luna”, “O último imperador”, “O assédio”).

   Nas próximas edições, produtores, diretores e atores de cada filme deverão vir ao Rio prestigiar as exibições, além de um representante de vendas e do presidente da ANICA, que oferecerá gratuitamente, como estímulo ao distribuidor brasileiro interessado nos títulos, quatro cópias de cada filme previamente legendadas em português.

   — Os filmes italianos sempre tiveram grande público no Brasil. Entravam em grandes circuitos — lembra o pesquisador Alberto Shatovsky, consultor especial do Grupo Estação. — O público também era mais aberto a todo tipo de cinema. Essa fase ruim começou com a morte dos grandes diretores e a mudança de foco da produção audiovisual italiana para a televisão.

   O cinema italiano fez parte do repertório cinematográfico de várias gerações. Nos anos 40, com os dramas sociais do neo-realismo como “Roma, cidade aberta” e “Ladrões de bicicleta”. Nos anos 50, com comédias escrachadas como as protagonizadas por Totò. Nos anos 60, com as comédias de costumes na linha “Matrimônio à italiana”, o ciclo do western-spaghetti de Sergio Leone e seus seguidores e a consagração internacional da geração de Antonioni, Fellini e Visconti. Nos anos 70, com Bertolucci, Ettore Scola, os irmãos Taviani e o cinema B de gênero (filmes de terror sanguinolento como os de Dario Argento, a série “Trinity”).

   — O público brasileiro só parou de ligar para o cinema italiano quando ele se descaracterizou — observa o crítico Ely Azeredo. — O cinema italiano influenciou muito o cinema brasileiro, pode-se verificar isto em Roberto Santos, Nelson Pereira. “Central do Brasil” tem resquícios do caldo humanista do neo-realismo. Mas hoje o clima político-cultural da Itália é muito triste. Até as estrelas italianas de hoje são enxutas, malhadas, secas, no padrão internacional, sem a exuberância de carne de Silvana Mangano, Sophia Loren, que perturbavam o sono da moçada.

Uma tarde num Fusca com Claudia Cardinale

   — Lembro-me de quando eu levei Claudia Cardinale ao Corcovado — recorda Shatovsky. — Eu trabalhava na “Manchete” e íamos fazer uma reportagem lá em cima. Fui pegá-la no hotel no meu Fusca. Lembro-me que ela exalava um perfume especial. Perguntei a respeito e ela disse que era fabricado só para ela.

   Bem, quem assistiu ao “Malena”, de Giuseppe Tornatore, sabe que hoje existe ao menos Monica Bellucci, que já começa a fazer carreira internacional. Não é nada, não é nada, é um símbolo em potencial para uma possível virada do cinema italiano, tanto em termos de prestígio artístico, como se verificou recentemente com a Palma de Ouro conquistada por Nanni Moretti em Cannes com “O quarto do filho”, como no sentido do reencontro com o público, vide a boa recepção internacional (Brasil, inclusive) de um filme despretensioso como “Pão e tulipas”.

   — O problema dos últimos anos foi que os filmes populares italianos adquiriram características muito regionais — identifica Ugo Sorrentino, dono da Art Films, cadeia exibidora que começou a atuar, em 1931, como importadora de filmes italianos. — A comédia italiana, por exemplo, tinha características universais no seu auge e hoje fala de temas essencialmente italianos. Um filme como “Il ciclone”, grande sucesso na Itália em 1996, tem tantas possibilidades comerciais aqui quanto Renato Aragão na Europa.

Período de seca de filmes italianos pode estar no fim

   Segundo Sorrentino, que chegou a estudar no Centro Experimental de Cinematografia de Roma e a trabalhar como faz-tudo no set de “Oito e meio”, de Fellini, e fazer pontas em filmes de gladiador, há fortes possibilidades de que o período de seca de filmes italianos esteja no fim.

   — Está havendo agora uma maior consciência dos vendedores italianos de que estavam cobrando preços fora da realidade e oferecendo produtos de interesse restrito. (© O Globo)

Crítica
Come te nessuno mai: Um filminho que cheira a espírito adolescente

   Atenção, distribuidores: está aqui um filminho pequeno, sendo comercializado a preço camarada, com chances razoáveis (idioma à parte) de levar adolescentes, as galinhas dos ovos de ouro do mercado cinematográfico atual, às salas de exibição. “Come te nessuno mai” não é uma tentativa de imitar o formato teen-movie à americana. Muito pelo contrário, é um cativante exercício de compreensão do universo adolescente, que parece ter sido mesmo dirigido por alguém de 15 anos.

   Ambientado num colégio romano ocupado por estudantes secundaristas que protestam contra alguma coisa que não está bem clara (ou, mais provavelmente, apenas decidem dar vazão a uma necessidade de se afirmarem) e nas casas de alguns desses estudantes, o filme, à primeira vista, é uma grande bobagem. À segunda, também, para quem já passou dos 18 anos e meio: as angústias existenciais apresentadas na tela são todas na linha “os meus pais não me entendem, esses professores do colégio são uns tapados e, muito pior do que isso, eu ainda não levei nenhuma das garotas da minha sala pra cama”.

Diretor já está trabalhando no cinema americano

   O grande segredo, contudo, é a sinceridade, uma sinceridade que desarma qualquer resistência. Pode ter a ver com o fato de nenhum daqueles garotos ser ator: todo mundo ali foi recrutado em portas de escolas pelo diretor Gabriele Muccino, uma revelação já cooptada pelo cinema americano (está dirigindo um remake em inglês da comédia francesa “O gato sumiu”). Mas não é só isso: o filme incorpora a maneira de pensar de um adolescente não apenas em diálogos, mas também no formato narrativo. O tratamento melodramático quase babão empregado em certos momentos, que seria um defeito grave num filme adulto, aqui ganha outra dimensão. Por que não tratar uma bobagem qualquer como uma das grandes questões da humanidade se é exatamente assim que os personagens a estão enxergando?

   Bom, pode até ser que alguém fique indiferente. Pode ser também que aquele povinho cabeça de faculdade de cinema odeie. Mas não perca o seu tempo com eles: pergunte, isso sim, aos irmãos mais novos deles, que ainda estão ali pela 7 ou 8 série, o que eles acharam.  (© O Globo)

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