ROMA - Uma lei para
privatizar parcialmente os museus da Itália deverá ser facilmente aprovada no Parlamento
em Roma, onde a coalizão de centro-direita - favorável ao mercado - do primeiro-ministro
Silvio Berlusconi, que também é o homem mais rico do país, ganha praticamente todas as
votações. "Agora, é um acordo concluído", disse na semana passada Daniel
Berger, consultor do Ministério da Cultura da Itália, depois que o projeto de lei foi
emendado de forma a satisfazer até mesmo a oposição.
A proposta faz parte do projeto de lei orçamentária
anual da Itália que deve ser formalmente aprovado ainda este mês. O governo disse que
planeja receber ofertas públicas para a administração de seus cerca de 3 mil museus.
Mas manterá a posse legal das propriedades e continuará sendo responsável pela
preservação do extraordinário acervo italiano de tesouros de arte mundial.
Contudo, o ministro da Cultura, Giuliano Urbani, não
apresentou esse papel constante do Estado como uma salvaguarda propriamente dita, ao
explicar que o motivo que justifica plenamente esse projeto de lei é que o governo
italiano simplesmente não tem condiçõess de arcar com a tarefa de administrar sua
esmagadora herança artística.
"Neste exato momento, 30% de nossa herança
artística está armazenada em depósitos, e depósitos meio duvidosos", disse
Urbani, professor de ciência política e durante muito tempo assessor de Berlusconi, numa
recente entrevista em seu escritório. "Temos arte demais e por isso não podemos
dar-nos ao luxo de tirá-la dos porões."
Pânico - A idéia de entregar Caravaggio e
Bernini ao setor privado, especialmente sob o governo Berlusconi (cujo império televisivo
tem como marca distintiva a apresentação de shows de perguntas e respostas, com mulheres
seminuas), provocou certo pânico no mundo artístico internacional. Diretores de 27
museus estrangeiros assinaram uma carta pedindo que a Itália reconsiderasse seu projeto.
"Existe a sensação de que motivos de lucro
poderiam eliminar o estudo e o trabalho dos estudiosos", disse o representante de uma
importante instituição norte-americana, que exigiu o anonimato, alegando que nenhum
museu queria fazer críticas muito abertas por receio de que a Itália possa parar de lhe
emprestar seus tesouros de arte.
Inicialmente, a idéia foi amplamente condenada também
na Itália. "Eles são ideológicos, com um enfoque orientado para o mercado",
disse Giovanna Melandri, ex-ministra da Cultura, referindo-se aos membros do atual
governo.
"Isso não vai funcionar, porque existe apenas um
punhado de propriedades - o Coliseu e a Galleria Degli Uffizi e nada mais - que não perde
dinheiro."
Contudo, o plano nunca esteve realmente em perigo
porque os críticos não possuem votos para poderem impedir a aprovação do projeto de
lei no Parlamento. E a oposição parece ter-se evaporado depois que o texto da lei foi
ligeiramente modificado.
Com a emenda apresentada pela Comissão de Cultura da
Câmara Baixa do Parlamento, o projeto de lei diz que os museus podem ser administrados
por interesses "não-governamentais", não por interesses "privados" -
uma distinção que, mesmo na opinião de representantes do Ministério da Cultura, não
significa nenhuma diferença real.
A lei diz também agora que os contratos de
administração de museus não serão outorgados exclusivamente através de licitação,
mas outras qualificações deverão ser também levadas em conta.
Na prática, o funcionamento dessa lei dependerá em
grande parte da série de regras suplementares, ou seja, da regulamentação a ser
elaborada nos próximos seis meses ou mais pelo Ministério da Cultura.
"Tudo dependerá da regulamentação, por isso
não estou muito alarmada. Estou apenas aguardando", disse Caterina Bon Valsassina,
diretora da Comissão de Belas-Artes de Milão, que supervisiona a Pinacoteca di Brera, um
dos mais importantes museus da Itália. "É inteiramete inútil gritar enquanto nada
está acontecendo", disse Caterina. "Se eles quiserem colocar uma pessoa nua em
meu museu como um evento especial, então eu vou gritar."
A salvaguarda mais significativa, disse ela, é que,
com ou sem lei, ninguém jamais ficou rico administrando um museu. "Somos muito
caros: calefação, iluminação, salários, limpeza", disse ela. "E, desde um
ponto de vista prático, não se encontra nenhum indivíduo ou instituição privada que
nos queira."
Imagem versus lucro - Urbani, um homem
despretensioso, trajando um terno cinza, disse na entrevista que existem outras razões
para que companhias privadas, fundações e outros grupos possam querer assumir essa
tarefa. "As pessoas receiam que eles virão apenas por motivo de lucro",
afirmou, "Mas eles virão por causa da imagem."
Urbani tem certeza de que eles farão um trabalho muito
melhor de marketing e de arrecadação de fundos. Urbani acrescentou que grande parte das
críticas feitas por diretores de museus realmente está relacionada com o receio de que
os "empréstimos fáceis" de tesouros de arte feitos pela Itália a museus
estrangeiros possam diminuir um pouco sob a nova administração privada.
"Eles também têm motivos para ficar
preocupados', disse Urbani. "Haverá empréstimos, mas estes serão feitos com um
cuidado ainda maior em relação a 'onde' e 'para quem' estão indo as obras de
arte".
Indagado sobre quais poderão ser as novas e mais
rigorosas orientações, Urbani respondeu apenas: "Se a arte vai para o Yankee
Stadium, eu digo não."
Refutou também outra queixa, segundo a qual a nova lei
viria permitir a comercialização de reproduções de má qualidade de tesouros de arte
italiana, dizendo que as reproduções já não são muito legais, mas também já estão
por toda a parte. A possibilidade de os preços dos ingressos dispararem, por força do
sistema de mercado livre, seria controlada pelas críticas internacionais, disse ele.
Berger, ex-encarregado do 'merchandising' do Museu
Metropolitano de Arte de Nova York, foi contratado como consultor em Roma em 1993 para
introduzir modernas técnicas de marketing na Itália. Berger observou que neste ano,
quando foi aprovada pela primeira vez na Itália uma lei que permitia concessões de todo
tipo nos museus italianos, houve um clamor muito maior do que agora, por ocasião desta
última proposta.
Na sua opinião, a privatização parcial não
constitui uma ameça à arte italiana: "Não é apenas a GM que é uma instituição
privada. Os museus norte-americanos são privados, mas já não o são por causa de
lucros. Na Inglaterra, existe uma mistura de privado e público e, na França, a arte é
administrada pelo Estado. Esta maneira italiana ajudará a aliviar um peso que o Estado
não pode mais carregar nas costas."
Normalmente, Urbani - que não tem antecedentes
artísticos em sua vida - mantém uma posição mais reservada do que o subsecretário da
Cultura, muito mais brilhante, Vittorio Sgabi, que marca encontros com modelos e é muito
conhecido por sua perícia em explicar e popularizar a arte, uma espécie de Irmã Wendy
da Itália. Mas Urbani se projetou agora, pela primeira vez, ao primeiro plano, para
desfazer grande parte das críticas contra a lei.
Embora afável na entrevista, ele se recusou a fazer um
rápido giro artístico pela sala para explicar as pinturas expostas nas paredes de seu
escritório no Ministério da Cultura. "Nada de especial", disse ele, lançando
um olhar em redor e dando a impressão de que não havia necessariamente notado os quadros
anteriormente.
Segurança - Urbani tem outras preocupações
além da questão da privatização. Desde o dia 11 de setembro, ele tem tido muito
trabalho para intensificar a segurança nos lugares históricos e está também se
esforçando para encontrar uma forma de revitalizar a indústria cinematográfica
italiana. "Não temos mais uma verdadeira indústria de filmes", disse ele com
ar de tristeza. "Precisamos de uma infusão de dinheiro." Mas, embora dizendo
isso, Urbani deixou claro que não é inteiramente favorável ao patrocínio empresarial.
Quando um de seus assessores fez um aparte nesse ponto,
observando que a Philip Morris estava ajudando a Itália a restaurar alguns filmes
clássicos do período pós-Guerra, Urbani lançou um olhar carrancudo e interrompeu-o
rapidamente dizendo: "Mas há também outros que estão ajudando." Apesar disso,
ele insitiu que não existem motivos para supor que os novos administradores do setor
privado serão menos puros em seu respeito pela grande arte do que o foram os curadores de
arte do Estado. "Infelizmente, nunca está eliminado o risco de vulgaridade",
disse ele. "Lembrem-se de que o Estado também comete erros e faz restaurações
horríveis." (Tradução de José dos Santos) (© O Estado de S. Paulo)