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A Itália quer privatizar seu acervo artístico

08/12/2001

O Coliseu seria uma das poucas relíquias históricas em situação financeira lucrativa  - Mabel Feres/AE


Parlamento deverá aprovar projeto de lei que terceiriza a administração de 3 mil instituições italianas; governo continuaria com a posse dos imóveis e a responsabilidade pela preservação dos tesouros

MELINDA HENNEBERGER
The New York Times

   ROMA - Uma lei para privatizar parcialmente os museus da Itália deverá ser facilmente aprovada no Parlamento em Roma, onde a coalizão de centro-direita - favorável ao mercado - do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que também é o homem mais rico do país, ganha praticamente todas as votações. "Agora, é um acordo concluído", disse na semana passada Daniel Berger, consultor do Ministério da Cultura da Itália, depois que o projeto de lei foi emendado de forma a satisfazer até mesmo a oposição.

   A proposta faz parte do projeto de lei orçamentária anual da Itália que deve ser formalmente aprovado ainda este mês. O governo disse que planeja receber ofertas públicas para a administração de seus cerca de 3 mil museus. Mas manterá a posse legal das propriedades e continuará sendo responsável pela preservação do extraordinário acervo italiano de tesouros de arte mundial.

   Contudo, o ministro da Cultura, Giuliano Urbani, não apresentou esse papel constante do Estado como uma salvaguarda propriamente dita, ao explicar que o motivo que justifica plenamente esse projeto de lei é que o governo italiano simplesmente não tem condiçõess de arcar com a tarefa de administrar sua esmagadora herança artística.

   "Neste exato momento, 30% de nossa herança artística está armazenada em depósitos, e depósitos meio duvidosos", disse Urbani, professor de ciência política e durante muito tempo assessor de Berlusconi, numa recente entrevista em seu escritório. "Temos arte demais e por isso não podemos dar-nos ao luxo de tirá-la dos porões."

   Pânico - A idéia de entregar Caravaggio e Bernini ao setor privado, especialmente sob o governo Berlusconi (cujo império televisivo tem como marca distintiva a apresentação de shows de perguntas e respostas, com mulheres seminuas), provocou certo pânico no mundo artístico internacional. Diretores de 27 museus estrangeiros assinaram uma carta pedindo que a Itália reconsiderasse seu projeto.

   "Existe a sensação de que motivos de lucro poderiam eliminar o estudo e o trabalho dos estudiosos", disse o representante de uma importante instituição norte-americana, que exigiu o anonimato, alegando que nenhum museu queria fazer críticas muito abertas por receio de que a Itália possa parar de lhe emprestar seus tesouros de arte.

   Inicialmente, a idéia foi amplamente condenada também na Itália. "Eles são ideológicos, com um enfoque orientado para o mercado", disse Giovanna Melandri, ex-ministra da Cultura, referindo-se aos membros do atual governo.

   "Isso não vai funcionar, porque existe apenas um punhado de propriedades - o Coliseu e a Galleria Degli Uffizi e nada mais - que não perde dinheiro."

   Contudo, o plano nunca esteve realmente em perigo porque os críticos não possuem votos para poderem impedir a aprovação do projeto de lei no Parlamento. E a oposição parece ter-se evaporado depois que o texto da lei foi ligeiramente modificado.

   Com a emenda apresentada pela Comissão de Cultura da Câmara Baixa do Parlamento, o projeto de lei diz que os museus podem ser administrados por interesses "não-governamentais", não por interesses "privados" - uma distinção que, mesmo na opinião de representantes do Ministério da Cultura, não significa nenhuma diferença real.

   A lei diz também agora que os contratos de administração de museus não serão outorgados exclusivamente através de licitação, mas outras qualificações deverão ser também levadas em conta.

   Na prática, o funcionamento dessa lei dependerá em grande parte da série de regras suplementares, ou seja, da regulamentação a ser elaborada nos próximos seis meses ou mais pelo Ministério da Cultura.

   "Tudo dependerá da regulamentação, por isso não estou muito alarmada. Estou apenas aguardando", disse Caterina Bon Valsassina, diretora da Comissão de Belas-Artes de Milão, que supervisiona a Pinacoteca di Brera, um dos mais importantes museus da Itália. "É inteiramete inútil gritar enquanto nada está acontecendo", disse Caterina. "Se eles quiserem colocar uma pessoa nua em meu museu como um evento especial, então eu vou gritar."

   A salvaguarda mais significativa, disse ela, é que, com ou sem lei, ninguém jamais ficou rico administrando um museu. "Somos muito caros: calefação, iluminação, salários, limpeza", disse ela. "E, desde um ponto de vista prático, não se encontra nenhum indivíduo ou instituição privada que nos queira."

   Imagem versus lucro - Urbani, um homem despretensioso, trajando um terno cinza, disse na entrevista que existem outras razões para que companhias privadas, fundações e outros grupos possam querer assumir essa tarefa. "As pessoas receiam que eles virão apenas por motivo de lucro", afirmou, "Mas eles virão por causa da imagem."

   Urbani tem certeza de que eles farão um trabalho muito melhor de marketing e de arrecadação de fundos. Urbani acrescentou que grande parte das críticas feitas por diretores de museus realmente está relacionada com o receio de que os "empréstimos fáceis" de tesouros de arte feitos pela Itália a museus estrangeiros possam diminuir um pouco sob a nova administração privada.

   "Eles também têm motivos para ficar preocupados', disse Urbani. "Haverá empréstimos, mas estes serão feitos com um cuidado ainda maior em relação a 'onde' e 'para quem' estão indo as obras de arte".

   Indagado sobre quais poderão ser as novas e mais rigorosas orientações, Urbani respondeu apenas: "Se a arte vai para o Yankee Stadium, eu digo não."

   Refutou também outra queixa, segundo a qual a nova lei viria permitir a comercialização de reproduções de má qualidade de tesouros de arte italiana, dizendo que as reproduções já não são muito legais, mas também já estão por toda a parte. A possibilidade de os preços dos ingressos dispararem, por força do sistema de mercado livre, seria controlada pelas críticas internacionais, disse ele.

   Berger, ex-encarregado do 'merchandising' do Museu Metropolitano de Arte de Nova York, foi contratado como consultor em Roma em 1993 para introduzir modernas técnicas de marketing na Itália. Berger observou que neste ano, quando foi aprovada pela primeira vez na Itália uma lei que permitia concessões de todo tipo nos museus italianos, houve um clamor muito maior do que agora, por ocasião desta última proposta.

   Na sua opinião, a privatização parcial não constitui uma ameça à arte italiana: "Não é apenas a GM que é uma instituição privada. Os museus norte-americanos são privados, mas já não o são por causa de lucros. Na Inglaterra, existe uma mistura de privado e público e, na França, a arte é administrada pelo Estado. Esta maneira italiana ajudará a aliviar um peso que o Estado não pode mais carregar nas costas."

   Normalmente, Urbani - que não tem antecedentes artísticos em sua vida - mantém uma posição mais reservada do que o subsecretário da Cultura, muito mais brilhante, Vittorio Sgabi, que marca encontros com modelos e é muito conhecido por sua perícia em explicar e popularizar a arte, uma espécie de Irmã Wendy da Itália. Mas Urbani se projetou agora, pela primeira vez, ao primeiro plano, para desfazer grande parte das críticas contra a lei.

   Embora afável na entrevista, ele se recusou a fazer um rápido giro artístico pela sala para explicar as pinturas expostas nas paredes de seu escritório no Ministério da Cultura. "Nada de especial", disse ele, lançando um olhar em redor e dando a impressão de que não havia necessariamente notado os quadros anteriormente.

   Segurança - Urbani tem outras preocupações além da questão da privatização. Desde o dia 11 de setembro, ele tem tido muito trabalho para intensificar a segurança nos lugares históricos e está também se esforçando para encontrar uma forma de revitalizar a indústria cinematográfica italiana. "Não temos mais uma verdadeira indústria de filmes", disse ele com ar de tristeza. "Precisamos de uma infusão de dinheiro." Mas, embora dizendo isso, Urbani deixou claro que não é inteiramente favorável ao patrocínio empresarial.

   Quando um de seus assessores fez um aparte nesse ponto, observando que a Philip Morris estava ajudando a Itália a restaurar alguns filmes clássicos do período pós-Guerra, Urbani lançou um olhar carrancudo e interrompeu-o rapidamente dizendo: "Mas há também outros que estão ajudando." Apesar disso, ele insitiu que não existem motivos para supor que os novos administradores do setor privado serão menos puros em seu respeito pela grande arte do que o foram os curadores de arte do Estado. "Infelizmente, nunca está eliminado o risco de vulgaridade", disse ele. "Lembrem-se de que o Estado também comete erros e faz restaurações horríveis." (Tradução de José dos Santos) (© O Estado de S. Paulo)

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