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Foragido, Cacciola aponta esquema no BC

17/12/2001

 


Em livro, ex-banqueiro aponta vazamento de informações privilegiadas e denuncia venda de decisões no TJ do Rio

PLÍNIO FRAGA
DA REPORTAGEM LOCAL

   Salvatore Alberto Cacciola, -em janeiro de 1999, um banqueiro com um patrimônio de US$ 100 milhões - foi levado pelo turbilhão da desvalorização cambial. Quebrou, perdeu o banco Marka, enfrentou uma CPI, foi acusado de corrupção passiva, peculato e gestão fraudulenta na na Justiça. Amargou 37 dias na cadeia, armou uma fuga espetacular do Brasil e encontrou abrigo na Itália, país onde nasceu.

   O saldo dessa história, além dos US$ 4 milhões que o ex-banqueiro admite terem lhe restado e que permitem que viva hoje confortavelmente em Roma, chega às livrarias nesta semana: "Eu, Alberto Cacciola, Confesso - O escândalo do Banco Marka" (Record).

   Confissões, poucas há nas 436 páginas do livro. As acusações é que são muitas. Cacciola, 57, diz ter certeza da existência de um esquema de venda de informações privilegiadas no Banco Central na época da desvalorização, mas nega que tenha feito parte dele.

   Afirma ser o "bode expiatório" do governo federal para esconder bancos que ganharam muito dinheiro na segunda semana de janeiro de 1999, quando o BC trocou a política de desvalorização controlada pela livre flutuação.

   O governo (não diz quem) protegeria Francisco Lopes, presidente do BC durante a desvalorização, para que calasse sobre os verdadeiros beneficiários daqueles dias de janeiro. Cacciola diz acreditar que haja de fato grampos clandestinos que mostrariam banqueiros recebendo informações privilegiadas que tinham origem em Francisco Lopes. No passado, havia dito que duvidava de tais fitas. Hoje afirma que um banqueiro carioca as detém e usou a imprensa para chantagear seus sócios com elas. A Folha não localizou Francisco Lopes para que comentasse a declaração.

   Cacciola acusa um advogado do Rio de ter tentado achacá-lo e aponta um suposto esquema de venda de decisões na Justiça desse Estado. Batiza ficticiamente o advogado de dr. Lucas o tal advogado, que teria lhe cobrado US$ 600 mil para obter uma decisão favorável no Tribunal de Justiça do Rio: "Você lá, sabendo que está sendo vítima de abusos dos procuradores, de maluquices da imprensa, das decisões incompreensíveis dos juízes (...) Aí aparecem os sanguessugas oferecendo solução para tudo. Claro que a troco de dinheiro, muito dinheiro", escreve, ou melhor, conta Cacciola.

   Na realidade, o livro foi escrito pelo jornalista Eric Nepomuceno, tradutor das obras de Gabriel García Marquez. Foram 40 horas de conversas em Roma. Em três meses, Nepomuceno escreveu o livro, consultando Cacciola sobre detalhes, operações e pessoas.

   A tese da operação de salvamento do Marka é a mesma que ele apresentou na CPI. Por acreditar que o governo manteria a política de desvalorização lenta, o banco, na contramão do mercado, comprou contratos em dólar com vencimento futuro. O fim do controle do câmbio impossibilitou que cumprisse os valores lá firmados. Estava quebrado.

   Cacciola conta com detalhes como foram os 37 dias que passou na prisão, na Polícia Federal do Rio. Diz que sua mulher, Adriana, dormiu quase todos os dias em sua cela, o que era proibido. Narra como fazia almoços espetaculares para os presos e enumera reformas que comandou na sede da PF. Um dos acessos do prédio teria sido até batizado de "entrada Cacciola", por ter sido ele o idealizador e financiador do projeto.

   A fuga do Brasil é a parte mais espetacular do livro. Beneficiado por um habeas corpus concedido pelo ministro do STF Marco Aurélio, Cacciola nem pisou em casa. Driblou a imprensa, usou carro, helicóptero e avião para sair do país. Quatro dias depois, o habeas corpus foi cassado e Cacciola tornou-se um foragido. Já era tarde. Estava em em Roma, com a certeza de que jamais seria extraditado por ter nacionalidade italiana. (© Folha de S. Paulo)

Banqueiro revela como é sua vida na Itália

DA REPORTAGEM LOCAL

   Salvatore Cacciola perdeu seu helicóptero porque não pagou as prestações. Deve oito meses de condomínio da cobertura em que vivia na Barra da Tijuca, no Rio. Acha que será executado e perderá o apartamento. Diz levar uma vida simples, apesar dos US$ 4 milhões em caixa: "A casa que aluguei em Roma é mais barata que o condomínio da Barra."

Folha - Por que um livro?
Salvatore Cacciola -
Fiquei numa situação angustiante porque não podia fazer nada, já que, com o pedido de extradição, poderia ter que voltar ao Brasil a qualquer momento. Não podia fazer nada. Trabalho desde os 12 anos. Estava enlouquecendo aqui, só cuidando da casa e dos empregados. Um amigo me disse: faz um livro.

Folha - Quanto recebeu pelo livro?
Cacciola -
Meu contrato com a editora foi excelente. Briguei o máximo para ter um bom contrato. Mas minha parte será doada a instituições de caridade que vou informando por escrito à editora. Não vou ficar com um centavo.

Folha - De que o sr. vive?
Cacciola -
Desde 13 de agosto, quando a Itália negou a extradição, comecei a trabalhar. Não é aquilo que gostaria de fazer, mas na Itália o mercado financeiro é 50 mil vezes mais complicado que no Brasil. Nunca poderia pensar em trabalhar no mercado na Itália. Estou com uma atividade que não vou dizer porque quero preservar minha vida privada. Acho que em poucos meses consigo me sustentar com meu trabalho.

Folha - O sr. pensa em voltar?
Cacciola -
Não tenho dúvidas de que quero voltar e enfrentar meu julgamento no Brasil. Acontece que enfrentar meu julgamento com esta Justiça do Rio é loucura.

Folha - O sr. doou R$ 50 mil à campanha de FHC em 98. Faria isso em favor de alguém em 2002?
Cacciola -
Fiz isso porque achava que tínhamos pela primeira vez um presidente estadista. No segundo mandato dele, me arrependi. Foi um desastre em todos os sentidos. Nunca se viu tanta corrupção, tanto escândalo.
(© Folha de S. Paulo)


Processo deve acabar em 2002

DA SUCURSAL DO RIO

   O processo que corre na 6ª Vara Federal do Rio, acusando os principais envolvidos no caso Marka/ FonteCindam de supostos crimes que incluem desvio de dinheiro público, corrupção, e gestão fraudulenta de instituições financeiras, deverá ter seu desfecho no primeiro semestre de 2002.

   No final de janeiro deve acabar o prazo dado pela juíza Ana Paula Vieira de Carvalho para que sejam concluídas diligências e para que seja ouvida uma testemunha residente nos Estados Unidos.

   Essa testemunha, cujo nome não é divulgado, é um economista cuja tomada de depoimento foi pedida pela defesa do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, um dos acusados.
No final de janeiro será aberto prazo para as alegações finais, vindo em seguida a sentença da juíza. O processo foi aberto em 7 de junho de 2000, quando o juiz Abel Ferreira Gomes, substituto da 6ª Vara Federal, concordou em processar 11 acusados, entre os quais Francisco Lopes, Salvatore Alberto Cacciola e Tereza Grossi (diretora do Banco Central).
(© Folha de S. Paulo)

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