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Euro: nova moeda européia estréia em 2002

28/12/2001

Francês exibe o "pão euro"  France Presse - 3.ago.01


ALCINO LEITE NETO

DE PARIS

   À 0h deste primeiro de janeiro, 304 milhões de europeus começam a dar adeus a suas antigas moedas e passam a adotar uma nova, o euro, que será a divisa comum de 12 países -Portugal, Espanha, França, Luxemburgo, Bélgica, Holanda, Irlanda, Finlândia, Alemanha, Áustria, Itália e Grécia.

   A partir desse instante, os caixas eletrônicos dos países vão estar disponíveis para saques em euro e os comerciantes deverão obrigatoriamente dar o troco nessa moeda, iniciando o processo de circulação do novo dinheiro.

   Trata-se de um momento de grande importância histórica, pois representa o principal passo da unificação européia e a consolidação do segundo pólo monetário do mundo, depois dos EUA.
A chegada do euro será festejada no dia 1º em todos os países. No dia 2, porém, quando terminar o feriado, a festa pode se transformar em pesadelo, sobretudo na França, onde está prevista uma greve do setor bancário.

   Um apelo à paralisação foi feito por vários sindicatos a mais de 400 mil funcionários de bancos privados e 40 mil do setor estatal. Até a última sexta-feira, apenas um acordo, com o banco BNP Paribas, havia sido alcançado.

   Os sindicatos reivindicam aumento de salários e melhores condições de trabalho e segurança. O ministro francês da Economia, Laurent Fabius, exortou os bancários a terem "responsabilidade" e a "não estragar essa mudança histórica". Os bancos evocaram o "patriotismo europeu" dos funcionários.

   A greve é a principal inquietação das autoridades francesas. Mas não é a única. Há o risco de os caixas eletrônicos, que serão de início os principais fornecedores da nova moeda, não funcionarem direito ou terem menos dinheiro que a demanda.

   Teme-se também que os comerciantes não disponham de troco suficiente em euro para os primeiros dias. Na França, calcula-se que 7% dos supermercados não poderão devolver o troco na moeda no começo de janeiro.

   As preocupações são compartilhadas por outros países. Na Itália, o fornecimento de notas em euro para as grandes lojas foi feita no último momento. Na Alemanha, o marco deixa de ter validade já no dia 1º, o que pode complicar as transações. Nos demais países, as moedas antigas serão aceitas até o fim de fevereiro, conforme datas variadas.

   Prevê-se uma movimentação bancária sem paralelo nos países, nos primeiros dias, o que aumenta a apreensão com a segurança. A utilização de cartões eletrônicos para pagamento também deverá ser muito superior ao comum e pode causar congestionamento nos sistemas tecnológicos.

   Há ainda a confusão social gerada pela lentidão e as filas nos caixas, que deverão fazer conversões da moeda antiga para a nova. O aumento dos preços, sobretudo na forma de arredondamento dos valores, gerando inflação, é outro dos problemas que podem advir da passagem para o euro.

   A nova unidade monetária foi decidida em 1999 por 12 dos 15 países que compõem a União Européia (UE). Reino Unido, Suécia e Dinamarca preferiram permanecer com suas moedas próprias.

   Na última sexta-feira, os sindicatos britânicos e os liberais-democratas (terceira formação política da Grã-Bretanha) fizeram um apelo para que o governo organize um referendo sobre a adesão do país ao euro. Em seu discurso de Ano Novo, o primeiro-ministro da Inglaterra, Tony Blair, afirmou que "é do nosso interesse que o euro tenha sucesso".

   Blair já se manifestou por uma maior integração com o continente europeu. Os britânicos decidiram que só vão aderir se a moeda passar por um "teste" que inclui, entre outros pontos, verificar se ela é boa para o emprego e para o investimento estrangeiro. (© Folha de S. Paulo)

ANTECEDENTE HISTÓRICO

Pela primeira vez desde o século 5, Europa tem sistema monetário único; denário não sobreviveu ao fim do império

Euro remete história da moeda a Roma

OSCAR PILAGALLO
DA REPORTAGEM LOCAL

   A entrada em circulação do euro, neste primeiro de janeiro, cria uma situação que só encontra paralelo no Império Romano. Pela primeira vez desde o século 5, a Europa -ou pelo menos grande parte dela- volta a ter uma moeda única.

   Roma escreve a história da moeda desde os seus capítulos iniciais. A primeira cunhagem de que se tem notícia em Roma -ainda no tempo da República- data de 268 a.C..

   A moeda, que se chamava denário, teve tanta importância que acabou determinando a etimologia da palavra "dinheiro" e suas variações latinas.

   Os romanos deram uma outra contribuição importante para o léxico: o termo "monetário", que vem de Juno Moneta, a deusa padroeira de Roma, em cujo templo se fabricavam denários.

Dinheiro e democracia

   Não foram os romanos, porém, que inventaram a moeda. Eles apenas assimilaram, com algum atraso, uma prática comum na Grécia Antiga, que tinha desde 575 a.C. sua própria moeda -a primeira versão do dracma que começa a desaparecer amanhã e sai de circulação em 28 de fevereiro. A monetização de Roma, aliás, fez parte do intenso processo de helenização daquela civilização.

   A introdução da moeda no mundo grego coincide com as grandes reformas de Sólon, que atenuaram o domínio absoluto da aristocracia em Atenas, a cidade-Estado mais importante da Grécia. A partir daí, o direito de ocupar cargos públicos foi estendido também aos cidadãos ricos.

   Seria inadequado atribuir o surgimento da democracia ao advento da economia monetizada. Mas é inegável a contribuição da moeda ao sistema político nascente. Ao gerar e espalhar a riqueza, a circulação de dinheiro ajudou a emergir uma classe que se beneficiou da mobilidade social, passando a pressionar por uma representação política que refletisse a nova realidade econômica.

   Os gregos deram um grande impulso à história da moeda, com seus dracmas identificáveis pela efígie da coruja, ave associada a Atena, a deusa protetora da cidade. Mas também não foram eles que inventaram a moeda.

Invenção da moeda

   A moeda moderna, com as características básicas das atuais, nasceu no extinto reino da Lídia, onde hoje fica a Turquia. Lá, entre os anos de 640 a.C. e 630 a.C. -há imprecisão nos registros históricos- foi cunhada a primeira moeda, a partir de uma liga natural de ouro e prata (o electro), abundante nos rios da região.

   A moeda lídia, chamada stater, gerou muita riqueza para o reino. Creso, o último rei da Lídia, herdou um trono rico e multiplicou a fortuna, ampliando a atividade de cunhagem de moeda.

   Não era o ouro ou a prata, no entanto, que proporcionavam a riqueza. Esta tinha origem no comércio que a moeda irrigava. A Lídia foi a primeira sociedade a manter um comércio varejista em bases permanentes. Era um verdadeiro reino de lojistas.

   Creso poderia comprar o que quisesse. Ambicioso, resolveu comprar um exército mercenário para invadir a poderosa Pérsia. Em meados do século 6 antes de Cristo -um século depois da invenção da moeda- seu reino foi varrido do mapa. A idéia da moeda, no entanto, permaneceu, tendo sido adotada logo pelos gregos e depois pelos romanos.

   Sociedade complexa, a civilização romana enfrentou problemas com o dinheiro que, a partir de então, se mostrariam recorrentes.

   Um deles era a inflação. Tudo começou em 240 a.C., pouco tempo depois da emissão da primeira moeda, quando a República romana se envolveu nas Guerras Púnicas com Cartago, do outro lado do mar Mediterrâneo, onde hoje fica a Tunísia. Para financiar a campanha militar, os romanos descuidaram do denário e provocaram o que, hoje em dia, é chamado de inflação.

   Não foi, entretanto, uma ação deliberada. Tratava-se apenas da consequência de uma despesa excessiva, para a qual não havia moeda suficiente.

   A inflação como política de governo surgiria muito depois, nos primeiros tempos do Império Romano. A partir do ano 64 da era cristã, o imperador Nero deu início à sistemática desvalorização do denário, subtraindo da moeda parte do teor de metal precioso.

   A iniciativa de Nero não era mais sofisticada do que parece à primeira vista. Usando menos metal para fabricar cada moeda, cunhava mais moedas com a mesma quantidade de metal -um artifício, cuja contrapartida era a alta dos preços.

   O denário perdeu gradualmente o valor. Até que, no início do século 4, o imperador Diocleciano resolveu inovar: baixou um decreto congelando preços e salários. Foi a primeira tentativa heterodoxa de resolver o problema inflacionário -e não deu certo.

   Quando a parte ocidental do Império Romano chegou ao fim, cerca de dois séculos depois, a Europa deixou de ter uma moeda única. O denário foi substituído por moedas de reinos medievais, com circulação apenas regional. Mas, nessa altura, o dinheiro não tinha mais a mesma importância. Como os feudos eram auto-suficientes, as relações de troca retrocederam ao escambo.

Um novo denário

   Guardadas as proporções e desconsiderado o contexto diferente, o euro retoma agora a experiência do denário, como moeda única de 12 países europeus.

   A construção do euro é um trabalho de quase meio século. Sua história remonta ao Tratado de Roma, de 1957, quando foi criada a Comunidade Econômica Européia, embrião da União Européia.

   A idéia do euro foi definida somente em 1992, no Tratado de Maastricht. Nessa cidade holandesa, líderes europeus anunciaram a criação da moeda única.

   Para tanto, concordaram em homogeneizar políticas fiscais e monetárias. Acertaram também a observação de um teto para o déficit público equivalente a 3% do PIB (Produto Interno Bruto).

   Com essa promessa de austeridade, os signatários esperam manter afastada a ameaça da inflação, que destruiu o denário.

   Os europeus são especialmente sensíveis ao risco inflacionário, desde que, nos anos 20, a Alemanha viveu uma hiperinflação devastadora. O dinheiro alemão se desintegrou em consequência das imposições dos vitoriosos da Primeira Guerra Mundial. Em 1918, no final da guerra, um dólar comprava 4 marcos. Em 1923, valia 4,2 trilhões de marcos.

   A lição foi aprendida. Depois de perder mais uma guerra mundial, a Alemanha reergueu sua economia -desta vez com a ajuda dos vitoriosos- e hoje tem a moeda dominante da Eurolândia.

Montanha de cédulas

   Uma comparação de almanaque, citada na revista britânica "The Economist", indica a ordem de grandeza do euro.

   Se fundidas, os mais de 50 bilhões de moedas que entram em circulação seriam suficientes para construir 24 torres Eiffel. Quanto aos mais de 4 bilhões de cédulas destinadas à Alemanha, se empilhadas, seriam equivalentes a 50 vezes o monte Everest.

   Apesar do ceticismo inicial, o euro vem à luz para garantir seu lugar na história.(© Folha de S. Paulo)

OSCAR PILAGALLO é autor de "A Aventura do Dinheiro - Uma Crônica da História Milenar da Moeda" (Publifolha, 2000).


Com a nova moeda única, cultura deixará de circular na Eurolândia

JOÃO BATISTA NATALI
DA REPORTAGEM LOCAL

   Os 12 países europeus que adotaram o euro acordarão culturalmente mais pobres neste primeiro de janeiro.

   A Bélgica deixa de evocar nos bilhetes de 100 francos o pintor surrealista René Magritte (1898-1967). A Espanha abandona com a nota de 5.000 pesetas a efígie do navegador Cristóvão Colombo (1451-1506). A Irlanda, por sua vez, perde com a cédula de 10 libras a imagem do escritor James Joyce (1822-1941), que revolucionou o idioma inglês e o romance como gênero ao publicar em 1922 o seu "Ulysses".

   São alguns dos exemplos de personagens que evocam, na memória coletiva, valores debaixo dos quais esses países fabricaram o sentimento de nacionalidade.

   Entre as moedas que desaparecem, uma única não sofrerá esse prejuízo. É o florim holandês. Em 1989 uma reforma gráfica suprimiu das notas os retratos, como o do pintor barroco Frans Hals (1582-1666), que circulou nas cédulas dos anos 70. A Holanda adotou então para seu dinheiro um design de figuras abstratas.

   O euro, divisa que passa a substituir todas as outras, é de um referencial histórico bem frio para poder contentar a todos. Traz impressos em seus bilhetes exemplos de estilos arquitetônicos -clássico, gótico ou barroco- que são um dos poucos pontos de contato cultural entre os 12 países que o adotaram como moeda.

   A Grécia é o país que deixa ao relento os personagens mais antigos de sua tradição. A nota de 100 dracmas trazia a deusa Atenas, a de 1.000 trazia Zeus e a partir de 1987 quem a ocupava era Apolo, um deus menos poderoso mas hoje bem mais conhecido.

   A França é talvez a que abandone personagens de existência mais recente. A cédula de 50 francos tinha o rosto de Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), aviador e mais conhecido como o autor de "O Pequeno Príncipe".

   A de 100 francos trazia o pintor impressionista Paul Cézanne (1839-1906), a de 200 o engenheiro Gustave Eiffel (1832-1923), autor do projeto da torre metálica parisiense que leva o seu nome. A de 500, o físico Pierre Curie (1859-1906) e sua mulher, a também cientista Marie Curie.

Freud e Mozart

   O xelim austríaco trazia em geral personagens menos conhecidos fora da história local. Mas as duas celebridades estampadas são de imenso peso na cultura mundial: Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, na nota de 50, e o compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), na nota de 5.000.

   O marco alemão tinha um mérito. Das seis cédulas de circulação corrente, a metade (três) trazia efígies de mulheres. São elas a escritora Bettina von Amim (1785-1859), na nota de 5, a poeta Annette Droste-Hülshoff, na nota de 20, e poeta e naturalista Maria Sibylla Merian (1647-1717), na de 500.

   A nota de 1.000 marcos que está saindo de circulação traz os irmãos Wilhelm (1786-1859) e Jacob Grimm (1785-1863), os irmãos Grimm, compiladores de contos populares e de histórias infantis. O marco alemão não trazia nenhum herói nacional com tradição na vida militar.

   O escudo português teve lá seus pendores literários. Na nota de 100 o personagem estampado era o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805), e na de 5.000, o também poeta Antero de Quental (1842-1891).

   Na Espanha, as pesetas que deixam de circular não traziam estampado o rosto de Miguel de Cervantes. Mas tinham, na nota de 500, a imagem da escritora Rosalía de Castro (1837-1885), criadora do romance moderno em idioma galego.

   Por fim, uma curiosidade. A cédula de 200 francos belgas trazia a imagem de Adolphe Sax (1814-1894), um fabricante de instrumentos de sopro que passou para a história da música como o inventor do saxofone. (© Folha de S. Paulo)

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