ANTECEDENTE HISTÓRICO
Pela primeira vez desde o século 5, Europa tem sistema monetário único; denário
não sobreviveu ao fim do império
Euro remete história da moeda a Roma OSCAR PILAGALLO
DA REPORTAGEM LOCAL
A entrada em circulação do euro, neste primeiro de janeiro, cria uma
situação que só encontra paralelo no Império Romano. Pela primeira vez desde o século
5, a Europa -ou pelo menos grande parte dela- volta a ter uma moeda única.
Roma escreve a história da moeda desde os seus
capítulos iniciais. A primeira cunhagem de que se tem notícia em Roma -ainda no tempo da
República- data de 268 a.C..
A moeda, que se chamava denário, teve tanta
importância que acabou determinando a etimologia da palavra "dinheiro" e suas
variações latinas.
Os romanos deram uma outra contribuição importante
para o léxico: o termo "monetário", que vem de Juno Moneta, a deusa padroeira
de Roma, em cujo templo se fabricavam denários.
Dinheiro e democracia
Não foram os romanos, porém, que inventaram a moeda.
Eles apenas assimilaram, com algum atraso, uma prática comum na Grécia Antiga, que tinha
desde 575 a.C. sua própria moeda -a primeira versão do dracma que começa a desaparecer
amanhã e sai de circulação em 28 de fevereiro. A monetização de Roma, aliás, fez
parte do intenso processo de helenização daquela civilização.
A introdução da moeda no mundo grego coincide com as
grandes reformas de Sólon, que atenuaram o domínio absoluto da aristocracia em Atenas, a
cidade-Estado mais importante da Grécia. A partir daí, o direito de ocupar cargos
públicos foi estendido também aos cidadãos ricos.
Seria inadequado atribuir o surgimento da democracia ao
advento da economia monetizada. Mas é inegável a contribuição da moeda ao sistema
político nascente. Ao gerar e espalhar a riqueza, a circulação de dinheiro ajudou a
emergir uma classe que se beneficiou da mobilidade social, passando a pressionar por uma
representação política que refletisse a nova realidade econômica.
Os gregos deram um grande impulso à história da
moeda, com seus dracmas identificáveis pela efígie da coruja, ave associada a Atena, a
deusa protetora da cidade. Mas também não foram eles que inventaram a moeda.
Invenção da moeda
A moeda moderna, com as características básicas das
atuais, nasceu no extinto reino da Lídia, onde hoje fica a Turquia. Lá, entre os anos de
640 a.C. e 630 a.C. -há imprecisão nos registros históricos- foi cunhada a primeira
moeda, a partir de uma liga natural de ouro e prata (o electro), abundante nos rios da
região.
A moeda lídia, chamada stater, gerou muita riqueza
para o reino. Creso, o último rei da Lídia, herdou um trono rico e multiplicou a
fortuna, ampliando a atividade de cunhagem de moeda.
Não era o ouro ou a prata, no entanto, que
proporcionavam a riqueza. Esta tinha origem no comércio que a moeda irrigava. A Lídia
foi a primeira sociedade a manter um comércio varejista em bases permanentes. Era um
verdadeiro reino de lojistas.
Creso poderia comprar o que quisesse. Ambicioso,
resolveu comprar um exército mercenário para invadir a poderosa Pérsia. Em meados do
século 6 antes de Cristo -um século depois da invenção da moeda- seu reino foi varrido
do mapa. A idéia da moeda, no entanto, permaneceu, tendo sido adotada logo pelos gregos e
depois pelos romanos.
Sociedade complexa, a civilização romana enfrentou
problemas com o dinheiro que, a partir de então, se mostrariam recorrentes.
Um deles era a inflação. Tudo começou em 240 a.C.,
pouco tempo depois da emissão da primeira moeda, quando a República romana se envolveu
nas Guerras Púnicas com Cartago, do outro lado do mar Mediterrâneo, onde hoje fica a
Tunísia. Para financiar a campanha militar, os romanos descuidaram do denário e
provocaram o que, hoje em dia, é chamado de inflação.
Não foi, entretanto, uma ação deliberada. Tratava-se
apenas da consequência de uma despesa excessiva, para a qual não havia moeda suficiente.
A inflação como política de governo surgiria muito
depois, nos primeiros tempos do Império Romano. A partir do ano 64 da era cristã, o
imperador Nero deu início à sistemática desvalorização do denário, subtraindo da
moeda parte do teor de metal precioso.
A iniciativa de Nero não era mais sofisticada do que
parece à primeira vista. Usando menos metal para fabricar cada moeda, cunhava mais moedas
com a mesma quantidade de metal -um artifício, cuja contrapartida era a alta dos preços.
O denário perdeu gradualmente o valor. Até que, no
início do século 4, o imperador Diocleciano resolveu inovar: baixou um decreto
congelando preços e salários. Foi a primeira tentativa heterodoxa de resolver o problema
inflacionário -e não deu certo.
Quando a parte ocidental do Império Romano chegou ao
fim, cerca de dois séculos depois, a Europa deixou de ter uma moeda única. O denário
foi substituído por moedas de reinos medievais, com circulação apenas regional. Mas,
nessa altura, o dinheiro não tinha mais a mesma importância. Como os feudos eram
auto-suficientes, as relações de troca retrocederam ao escambo.
Um novo denário
Guardadas as proporções e desconsiderado o contexto
diferente, o euro retoma agora a experiência do denário, como moeda única de 12 países
europeus.
A construção do euro é um trabalho de quase meio
século. Sua história remonta ao Tratado de Roma, de 1957, quando foi criada a Comunidade
Econômica Européia, embrião da União Européia.
A idéia do euro foi definida somente em 1992, no
Tratado de Maastricht. Nessa cidade holandesa, líderes europeus anunciaram a criação da
moeda única.
Para tanto, concordaram em homogeneizar políticas
fiscais e monetárias. Acertaram também a observação de um teto para o déficit
público equivalente a 3% do PIB (Produto Interno Bruto).
Com essa promessa de austeridade, os signatários
esperam manter afastada a ameaça da inflação, que destruiu o denário.
Os europeus são especialmente sensíveis ao risco
inflacionário, desde que, nos anos 20, a Alemanha viveu uma hiperinflação devastadora.
O dinheiro alemão se desintegrou em consequência das imposições dos vitoriosos da
Primeira Guerra Mundial. Em 1918, no final da guerra, um dólar comprava 4 marcos. Em
1923, valia 4,2 trilhões de marcos.
A lição foi aprendida. Depois de perder mais uma
guerra mundial, a Alemanha reergueu sua economia -desta vez com a ajuda dos vitoriosos- e
hoje tem a moeda dominante da Eurolândia.
Montanha de cédulas
Uma comparação de almanaque, citada na revista
britânica "The Economist", indica a ordem de grandeza do euro.
Se fundidas, os mais de 50 bilhões de moedas que
entram em circulação seriam suficientes para construir 24 torres Eiffel. Quanto aos mais
de 4 bilhões de cédulas destinadas à Alemanha, se empilhadas, seriam equivalentes a 50
vezes o monte Everest.
Apesar do ceticismo inicial, o euro vem à luz para
garantir seu lugar na história.(©
Folha de S. Paulo)
OSCAR PILAGALLO é autor de "A Aventura do
Dinheiro - Uma Crônica da História Milenar da Moeda" (Publifolha, 2000).
Com a nova moeda única,
cultura deixará de circular na Eurolândia
JOÃO BATISTA NATALI
DA REPORTAGEM LOCAL
Os 12 países europeus que adotaram o euro acordarão culturalmente mais
pobres neste primeiro de janeiro.
A Bélgica deixa de evocar nos bilhetes de 100 francos
o pintor surrealista René Magritte (1898-1967). A Espanha abandona com a nota de 5.000
pesetas a efígie do navegador Cristóvão Colombo (1451-1506). A Irlanda, por sua vez,
perde com a cédula de 10 libras a imagem do escritor James Joyce (1822-1941), que
revolucionou o idioma inglês e o romance como gênero ao publicar em 1922 o seu
"Ulysses".
São alguns dos exemplos de personagens que evocam, na
memória coletiva, valores debaixo dos quais esses países fabricaram o sentimento de
nacionalidade.
Entre as moedas que desaparecem, uma única não
sofrerá esse prejuízo. É o florim holandês. Em 1989 uma reforma gráfica suprimiu das
notas os retratos, como o do pintor barroco Frans Hals (1582-1666), que circulou nas
cédulas dos anos 70. A Holanda adotou então para seu dinheiro um design de figuras
abstratas.
O euro, divisa que passa a substituir todas as outras,
é de um referencial histórico bem frio para poder contentar a todos. Traz impressos em
seus bilhetes exemplos de estilos arquitetônicos -clássico, gótico ou barroco- que são
um dos poucos pontos de contato cultural entre os 12 países que o adotaram como moeda.
A Grécia é o país que deixa ao relento os
personagens mais antigos de sua tradição. A nota de 100 dracmas trazia a deusa Atenas, a
de 1.000 trazia Zeus e a partir de 1987 quem a ocupava era Apolo, um deus menos poderoso
mas hoje bem mais conhecido.
A França é talvez a que abandone personagens de
existência mais recente. A cédula de 50 francos tinha o rosto de Antoine de
Saint-Exupéry (1900-1944), aviador e mais conhecido como o autor de "O Pequeno
Príncipe".
A de 100 francos trazia o pintor impressionista Paul
Cézanne (1839-1906), a de 200 o engenheiro Gustave Eiffel (1832-1923), autor do projeto
da torre metálica parisiense que leva o seu nome. A de 500, o físico Pierre Curie
(1859-1906) e sua mulher, a também cientista Marie Curie.
Freud e Mozart
O xelim austríaco trazia em geral personagens menos
conhecidos fora da história local. Mas as duas celebridades estampadas são de imenso
peso na cultura mundial: Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, na nota de
50, e o compositor Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), na nota de 5.000.
O marco alemão tinha um mérito. Das seis cédulas de
circulação corrente, a metade (três) trazia efígies de mulheres. São elas a escritora
Bettina von Amim (1785-1859), na nota de 5, a poeta Annette Droste-Hülshoff, na nota de
20, e poeta e naturalista Maria Sibylla Merian (1647-1717), na de 500.
A nota de 1.000 marcos que está saindo de circulação
traz os irmãos Wilhelm (1786-1859) e Jacob Grimm (1785-1863), os irmãos Grimm,
compiladores de contos populares e de histórias infantis. O marco alemão não trazia
nenhum herói nacional com tradição na vida militar.
O escudo português teve lá seus pendores literários.
Na nota de 100 o personagem estampado era o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage
(1765-1805), e na de 5.000, o também poeta Antero de Quental (1842-1891).
Na Espanha, as pesetas que deixam de circular não
traziam estampado o rosto de Miguel de Cervantes. Mas tinham, na nota de 500, a imagem da
escritora Rosalía de Castro (1837-1885), criadora do romance moderno em idioma galego.
Por fim, uma curiosidade. A cédula de 200 francos
belgas trazia a imagem de Adolphe Sax (1814-1894), um fabricante de instrumentos de sopro
que passou para a história da música como o inventor do saxofone. (© Folha de S.
Paulo) |