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Festa Polêmica no Vaticano

 

 

ROMA - Tímidos aplausos, de um lado, e de outro ovações das cem mil pessoas presentes na manhã de ontem na Praça São Pedro às cerimônias das beatificações de Pio IX, último Papa-Rei de Roma, e João XXIII, o Papa Buono, tornaram mais evidentes as reações contrastantes dos católicos à decisão de João Paulo II de conferir a estes dois antecessores as honras dos altares.

Quatro calorosas ovações interromperam a leitura feita pelo cardeal Camillo Ruini do perfil de Angelo Giuseppe Roncali, antes e depois de se tornar João XXIII. Os aplausos tímidos e muito parciais (dados por uma pequena representação da velha nobreza papalina) serviram apenas para quebrar o silêncio com que a multidão ouvia a leitura dos méritos que Giovanni Maria Mastai-Ferretti, Pio IX, teria tido para ser venerado como novo beato da Igreja Católica. Leitura que foi feita com notavel moderação por monsenhor Brunero Gherardini, postulador da causa de beatificação de Pio IX.

Contraste - Mas foi o próprio João Paulo II a reconhecer o contraste que distingue dois homens que exprimiram estilos diferentes: o temporal e centralista que se impôs no longo pontificado (1846-78) de Pio IX e o espiritual e ecumênico que constituiu a grande novidade do pontificado de João XXIII (1958-62).

No discurso em que confirmou as beatificações dos dois papas e de três outros religiosos (Tommaso Reggio, arcebispo de Gênova; Giuseppe Chaminade, sacerdote francês; e Columba Marmion, monge beneditino irlandês), João Paulo II reconheceu e explicou: "Trata-se de dois papas que viveram em contextos históricos muito diferentes, mas ligados, apesar das aparências, por não poucas semelhanças, tanto no plano humano como no espiritual. Pio IX foi um papa muito amado, mas também odiado e caluniado. Em meio de eventos turbulentos, ele foi exemplo de adesão incondicionada ao depósito imutável das verdades reveladas. (...) O seu longuíssimo pontificado realmente não foi fácil e teve que sofrer não pouco no cumprimento da sua missão a serviço do Evangelho", disse o papa.

João Paulo II tentou oferecer uma explicação para sua decisão de beatificar Pio IX, ao dizer: "A Igreja, quando proclama um beato, não celebra particulares opções históricas, apenas o indica como exemplo a ser imitado e venerado por suas virtudes, e louva a graça divina que nele resplandece."

Não faltou quem interpretasse a explicação como um sutil pedido de desculpas do papa polonês que, com esta decisão, voltou a decepcionar e irritar os judeus, protestantes e até importantes teólogos católicos. O esforço que o rabino-chefe de Roma, Elio Toaf, fez para não radicalizar o protesto da comunidade hebraica, que não pode esquecer as perseguições que sofreu no pontificado de Pio IX (que quase obrigava os judeus a viverem confinados no velho gueto romano e se identificou como mandante do seqüestro de menino hebreu bolonhês Edgardo Mortara, para batizá-lo e fazê-lo sacerdote católico), não impediu que políticos e intelectuais judeus considerassem publicamente a beatificação de Pio IX como um ato de hostilidade da Santa Sé.

Tristeza - O argumento de que, beatificando Pio IX, limitou-se a indicá-lo com modelo virtuoso foi contestado imediatamente pelo teólogo alemão Johannes Metz. "Admiro-me que um anti-semita como Pio IX possa ser proclamado beato por João Paulo II, que foi recentemente a Israel, exprimindo sentimentos de reconciliação. É um ato incompreensível que me entristece muito."

O maior contraste entre os dois papas que desde ontem subiram aos altares foi assim destacado por João Paulo II: "Do papa João XXIII permanece na recordação de todos a imagem de um rosto sorridente e dois braços abertos para um abraço ao mundo inteiro", referência que mereceu a maior das ovações. (Araújo Netto, AJB)


João Paulo II beatifica papa acusado de anti-semitismo

CIDADE DO VATICANO - O papa João Paulo II tentou no domingo justificar a beatificação de Pio IX, um papa conservador do século 19 que tem sido acusado de anti-semitismo. João Paulo II disse que até os santos têm limitações humanas e estão condicionados pela história.

O papa, de 80 anos, beatificou dois de seus antecessores e outros três religiosos que viveram nos séculos 18, 19 e 20. A cerimônia foi celebrada com a presença de umas 100.000 pessoas reunidas na Praça de São Pedro, em Roma.

Os cinco beatificados foram os papas Pio IX (1792-1878) e João XXIII (1881-1963), o bispo italiano Tommaso Reggio (1818-1901), o sacerdote francês Gillaume-Joseph Chaminade (1761-1850) e a religiosa irlandesa Columba Marmion (1858-1923). A beatificação é a penúltima etapa antes da canonização, quando se nomeia santo.

A maioria dos presentes à cerimônia foi homenagear o papa João XXIII. Pio IX, o mais polêmico dos beatificados, teve o pontificado mais longo (1846-1878), um período que coincidiu com a perda temporária do poder do papado e a cessão de enormes extensões de terras da Igreja Católica durante o processo de unificação da Itália.

O papa Pio IX, que se opôs duramente à tolerância religiosa, em uma ocasião se referiu aos judeus chamando-os de "cachorros"e aprovou o sequestro do menino judeu Edgardo Montara.

A comunidade judaica pediu ao Vaticano que não beatificara Pio IX, considerando o caso Mortara.(BOL/Reuters)

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