|
Há três anos, em setembro, o mundo da ópera parou para lembrar os 20 anos da morte
da soprano Maria Callas. Na ocasião, os fãs ganharam a oportunidade de entrar em contato
com grande parte de seu legado de gravações por meio de um pacote de 20 CDs lançado
pela EMI Classics, gravadora que detém o melhor e maior acervo da cantora. Agora é a vez
da Movieplay do Brasil, com pouca tradição no universo da música erudita, lançar um
pacote com três CDs com recitais feitos na década de 50 pela soprano (The Callas
Edition, R$ 11,90 cada disco).
Os discos contêm, na verdade, a trilha sonora de vídeos com diferentes momentos da
carreira da cantora. Tratados em estúdio, no entanto, os sons aparecem com maior
resolução e qualidade. Os encartes é que deixam um pouco a desejar, informando apenas o
repertório e a data de gravação. Algumas outras falhas também aparecem, como no CD que
reproduz o recital feito por Callas em Hamburgo, no ano de 1959: o leitor procura em vão
a entrevista anunciada na capa do disco.
O primeiro disco reproduz gravações de ensaios de Callas em Dallas, nos Estados
Unidos, em 1957. Acompanhada pela Dallas Symphony Orchestra, regida por Nicola Rescigno,
ela inicia os ensaios com Tutte Le Torture, da ópera Il Ratto del Serraglio, de Mozart.
Em seguida, canta, da ópera I Puritani de Bellini, O Rendetemi la Speme - Qui la Voce -
Vien, Diletto.
De Verdi, Callas interpreta Nel Di Della Vittoria - Vieni! T'affretta!, de Macbeth, e
É Strano - Ah! Fors'è Lui - Sempre Libera, da Traviata. É, aliás, nesta área que o
maestro faz uma das poucas intervenções, lembrando o ouvinte de que se trata de um
ensaio.
Encerra o primeiro disco Piangete Voi? - Al Dolce Guidami - Coppia Iniqua, ária de
Anna Bolena, ópera de Gaetano Donizetti, um dos compositores com os quais Callas
encontrou maior identificação.
O segundo CD, gravado em 19 de dezembro de 1958, na Ópera de Paris, tem como maestro
Georges Sebastian à frente da orquestra do teatro. Ela canta, da Norma, de Bellini,
Sediziose Voci, Casta Diva, Fine al Rito e Ah! Bello a Me Ritorna.
Na seqüência, estão, de Il Trovatore, de Verdi, as árias Vanne...Lasciami, D'Amor
Sull'ali Rosee e o Miserere. De Rossini, canta, então, Una Voce Poco Fa, de O Barbeiro de
Sevilha.
Tosca em francês - O destaque no disco, no entanto, é a segunda parte do
recital, em que a soprano interpreta o segundo ato da Tosca, de Puccini, ao lado do
barítono italiano Titto Gobbi, como o vilão Scarpia, e do tenor franco-canadense Albert
Lance, no papel do pintor Mario Cavaradossi. Uma das maiores intérpretes da personagem,
Callas aparece aqui com um dos principais Scarpias do século (Gobbi), com quem ela
intepretou a ópera diversas vezes (a gravação dos dois, ao lado de Giuseppe di Stefano
e do maestro Victor de Sabata, entrou para a história como referência). Aos ouvintes
interessados em passagens curiosas, a gravação reserva um fato no mínimo curioso: em
determinado momento, quando o ajudante de Scarpia anuncia a vitória das tropas de
Napoleão Bonaparte e Cavaradossi irrompe com um grito de comemoração, Lance canta em
francês, deixando o original em italiano de lado, não se sabe ser por engano ou por uma
tentativa de agradar ao público local.
O último CD, que traz um concerto realizado em 15 de maio de 1959, mostra Callas
interpretando árias do compositor Gasparo Spontini (Tu Che Invoco, da ópera La Vestale),
de Verdi (Nel Di Della Vitoria, de Macbeth) e Bellini (cena final de Il Pirata).
Um dos pontos altos da coletânea é a interpretação da ária Tu Che Le Vanita, da
ópera Don Carlo, de Verdi. Acompanhada mais uma vez por Nicola Rescigno, agora regendo a
Orquestra Sinfônica da NDR, ela empresta com maestria sua dramaticidade ao papel de
Elizabeth, rainha da Espanha, que pede a uma imagem de Carlos V, antigo imperador, que
leve suas lágrimas para perto de Deus. (João Luiz Sampaio, AE)
|