Retornar ao índice ItaliaOggi

   

Notizie d'Italia

   

 

Contra estresse, Itália lança Cittaslow

13.08.2000
 

 

Movimento quer preservar tradição de tranquilidade e de qualidade gastronômica nas pequenas cidades

Preocupadas com os "perigos" da globalização sobre a qualidade de vida, 32 cidades italianas se juntaram num movimento destinado a preservar o modo de vida tranquilo de seus cidadãos.

Trata-se do movimento Cittaslow (uma mistura de italiano e inglês que poderia ser traduzida por "cidade lenta"), que pretende proteger as características que fazem das pequenas cidades do país lugares atrativos a quem busca calma e tranquilidade, além de hospitalidade e comida de ótima qualidade.

Os inimigos do grupo são os vícios trazidos pela vida moderna, presentes nas grandes cidades de todo o mundo: poluição do ar e sonora, trânsito, falta de áreas verdes, padronização das ofertas de alimentação e, principalmente, muita pressa.

"O fenômeno da globalização permite, entre outras coisas, a troca e a difusão de informações, mas tende a eliminar as diferenças e esconder as características peculiares de realidades distintas. Em resumo, propõe modelos medianos que não pertencem a ninguém e inevitavelmente geram mediocridade", diz a carta de fundação do movimento.

"O padrão urbano americano está invadindo nossas cidades e fazendo-as parecer todas iguais. O que queremos é preservar nossa identidade", explica Paolo Saturnini, idealizador e coordenador do movimento Cittaslow e prefeito da pequena cidade toscana de Greve in Chianti, na região central da Itália.

Segundo ele, para uma cidade ser aceita no movimento, deve seguir uma série de requisitos, que vão desde a preocupação ambiental, com ações como a construção de parques, ciclovias e calçadões e a reciclagem do lixo, até políticas de proteção ao pequeno comércio e a restaurantes tradicionais.

As 34 cidades que fazem parte do movimento (além das 32 iniciais, outra cidade italiana e uma croata se juntaram ao grupo) são analisadas por uma comissão, que verifica se os "mandamentos" do grupo estão sendo cumpridos, e recebem um certificado e a permissão para usar o logotipo do Cittaslow.

O símbolo do movimento é um providencial escargô, que, como lembram os seus idealizadores, além de um símbolo da lerdeza é também um refinado item da culinária mediterrânea.

A cada ano, uma das "cittaslow" abrigará a reunião anual do movimento, para discutir questões relacionadas à melhoria da qualidade de vida nas cidades e estabelecer suas prioridades para o ano seguinte.

A cidade de Orvieto, na região da Umbria, abrigou a primeira reunião, de fundação do movimento.

Orgulho gastronômico

A questão da qualidade da alimentação é uma das principais preocupações do Cittaslow. O próprio movimento nasceu como um apêndice de outro, criado em 1986 e destinado a combater o avanço das cadeias de fast-food e a padronização culinária.

O movimento original, batizado de Slow Food, se espalhou rapidamente e hoje já tem mais de 60 mil estabelecimentos associados em 35 países. Os ideais do Slow Food são também ideais do movimento Cittaslow.

Lanchonetes do McDonald's, nem pensar. "Queremos lutar contra a invasão das grandes redes de distribuição e de franquias, principalmente no setor de alimentação", afirma Saturnini.

"Não podemos impedir as grandes cadeias de alimentação de se estabelecerem na cidade, mas esperamos que as pessoas que vêm à cidade não queiram comer aqui o mesmo hambúrguer que podem comer em Londres, Paris ou Melbourne", diz.

Novas tecnologias

À primeira vista, as regras do movimento Cittaslow podem ser vistas como uma tentativa de manter suas afiliadas paradas no tempo. Mas Saturnini afirma que a intenção é exatamente a oposta.

"Não queremos atrasar o relógio da história. O que queremos é simplesmente preservar o que temos de bom e agradável do nosso passado", diz ele. "Não somos contra a tecnologia. Os novos sistemas de comunicação, como a Internet, podem ser uma ferramenta para preservar ou melhorar nossa qualidade de vida."

Até agora, o movimento é quase exclusivamente italiano, mas seus membros pretendem expandi-lo para outros países. "Nossa intenção é promover e desenvolver o movimento em outros países, começando pela Europa", afirma Saturnini.(Rogério Waasermann, AF)


"Queremos melhorar a vida dos cidadãos"


Paolo Saturnini, 50, criador do movimento Cittaslow, diz que seu objetivo não é deixar as cidades paradas no tempo, mas preservar as características físicas, culturais e gastronômicas que fazem delas lugares agradáveis e com boa qualidade de vida.

Prefeito desde 1990 da pequena Greve in Chianti, cidade de 12,7 mil habitantes na região produtora de vinhos na Toscana, Saturnini deu a seguinte entrevista à Folha, por fax: (RW)


Folha - Qual a origem do movimento Cittaslow?
Paolo Saturnini -
Na Itália e em outros países já havia associações preocupadas com a preservação do meio ambiente, da cultura ou das tradições gastronômicas. Mas acho muito difícil para essas associações combaterem sozinhas a devastação provocada pela globalização nas nossas formas de vida. Acho que as instituições têm de tomar parte nessa luta. Foi por essa razão que criei esse movimento, composto de prefeituras e prefeitos próximos à população.

Folha - Quais são os objetivos do movimento?
Saturnini -
Melhorar a vida dos cidadãos, melhorar a qualidade da hospitalidade turística e preservar o meio ambiente, a paisagem e os produtos típicos das cidades e das regiões.

Folha - Quais as características principais de uma "cittaslow"?
Saturnini -
A cidade deve estar engajada numa política ambiental concreta. Tem de fazer parques, calçadões e ciclovias e manter uma política de proteção à fauna e à flora. Além disso, precisa dar proteção ao comércio tradicional e a restaurantes e lutar contra a invasão das grandes distribuidoras e franquias, principalmente do setor de alimentação. O movimento vai controlar se as cidades estão seguindo essa filosofia.

Folha - E o que não pode ser uma "cittaslow"?
Saturnini -
A oposição à "cittaslow" é uma cidade na qual o ritmo de vida e trabalho é impossível, porque há muito barulho, tráfego e poluição e não há áreas verdes. Onde há muitos supermercados e onde as pequenas lojas e restaurantes estão desaparecendo. A comida e o modo de vida são iguais em todas essas cidades.

Folha - O movimento é exclusivamente italiano?
Saturnini -
Temos hoje 34 cidades no movimento, todas italianas exceto Verteneglio, na Croácia. O número de cidades italianas vai crescer, mas também é nossa intenção promover e desenvolver o movimento em outros países, começando pela Europa.

Folha - Como o movimento Cittaslow afeta a vida das pessoas?
Saturnini -
Nossa intenção é melhorar a qualidade de vida das pessoas. Nosso movimento não é "new age" nem pretendemos colocar um freio na evolução da história. Queremos preservar o que temos de bom do nosso passado. Não somos contra a tecnologia. Os novos sistemas de comunicação, como a Internet, podem ser uma ferramenta para melhorar nossa qualidade de vida.


Orvieto resiste à pressa da vida moderna


São 9h30 da manhã, mas os relógios do poste em frente à estação de trem marcam 10h45, 11h15 e 2h20. Em Orvieto, cidade medieval no centro da Itália, ninguém parece muito preocupado com o horário.

Orvieto é uma das cidades do movimento Cittaslow, que tenta preservar velhos hábitos e resistir à pressa e aos costumes padronizados da vida moderna.

Até agora, pelo menos, Orvieto está ganhando a parada.

É preciso ter paciência para se chegar lá. Orvieto fica no alto de um penhasco, e é necessário pegar um bonde para subir o morro. Um cartaz avisa: "Se quer velocidade, vá de ônibus".

Depois de descer do bonde, é preciso andar dez minutos até o centro da cidade velha. Ao ver o lugar, porém, o visitante entende porque os seus cerca de 7.000 moradores são tão apegados ao passado.

A história de Orvieto começa com o povo etrusco, sete séculos antes de Cristo, atravessa o Império Romano, mas parece ter se mantido intocada desde a Idade Média.

Em becos estreitos, calçados com pedras, vêem-se casas baixas e irregulares, com sacadas decoradas com flores, e igrejas góticas, construídas no século 14.

Os aposentados se reúnem todas as manhãs para conversar na praça central, as crianças sentam no chão, num canto da rua principal, e as mulheres saem juntas para passear, empurrando carrinhos com bebês. As pessoas falam sem parar, em grupos, na porta das lojas ou usando celulares.

"A vida aqui parou no tempo. As pessoas têm televisão, videogame, computador, mas preferem ficar na rua, conversando com os amigos e com os vizinhos", diz Laura Cardi, funcionária da prefeitura.

Porta aberta

Segurança não é problema. Muitas pessoas saem de casa e deixam a porta aberta. De duas em duas semanas, a polícia registra algum furto.

Os policias não se lembram de ter investigado um assassinato, e o último suicídio ocorreu há seis anos. "Nossa maior preocupação é com a falta de estacionamento", diz o chefe da polícia, Beco Lucio.

A tranquilidade de Orvieto fica evidente na hora do almoço. Em poucos minutos, o barulho das pessoas conversando na rua e do movimento dos carros e das lambretas dá lugar ao silêncio. As lojas fecham, as ruas ficam vazias, todos vão para casa, comer e dormir.

Só os restaurantes ficam abertos, mas o turista acostumado com a agilidade das lanchonetes fast-food precisa se adaptar ao ritmo da cidade.

Algumas osterias, spaghetterias e pizzarias nem sequer servem Coca-Cola. Cada refeição conta com entrada, primeiro prato, prato principal, sobremesa, vinho e café expresso.

"Aqui tudo é feito na região. Nossa cozinha e nossos vinhos são famosos em todos os lugares. Porque vamos querer o McDonald's?", pergunta Chiaroti Luciano, de 63 anos, sentado no banco em frente à sua loja de vinhos, enquanto espera algum freguês.

Os moradores de Orvieto resistem às mudanças e querem preservar suas tradições, mas, assim como nos filmes do cineasta italiano Federico Fellini, muitas vezes a vida é doce apenas na aparência.

"Que vida?", pergunta a entediada Elvisa Maietto, 58, com a cabeça recostada no balcão de sua mercearia. "De casa para o trabalho e do trabalho para casa, que vida é essa?" (Ricardo Grinbaum, AF)

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi