|
Movimento quer preservar tradição de
tranquilidade e de qualidade gastronômica nas pequenas cidades
Preocupadas
com os "perigos" da globalização sobre a qualidade de vida, 32 cidades
italianas se juntaram num movimento destinado a preservar o modo de vida tranquilo de seus
cidadãos.
Trata-se do movimento Cittaslow (uma mistura de italiano e inglês que poderia ser
traduzida por "cidade lenta"), que pretende proteger as características que
fazem das pequenas cidades do país lugares atrativos a quem busca calma e tranquilidade,
além de hospitalidade e comida de ótima qualidade.
Os inimigos do grupo são os vícios trazidos pela vida moderna, presentes nas grandes
cidades de todo o mundo: poluição do ar e sonora, trânsito, falta de áreas verdes,
padronização das ofertas de alimentação e, principalmente, muita pressa.
"O fenômeno da globalização permite, entre outras coisas, a troca e a difusão de
informações, mas tende a eliminar as diferenças e esconder as características
peculiares de realidades distintas. Em resumo, propõe modelos medianos que não pertencem
a ninguém e inevitavelmente geram mediocridade", diz a carta de fundação do
movimento.
"O padrão urbano americano está invadindo nossas cidades e fazendo-as parecer todas
iguais. O que queremos é preservar nossa identidade", explica Paolo Saturnini,
idealizador e coordenador do movimento Cittaslow e prefeito da pequena cidade toscana de
Greve in Chianti, na região central da Itália.
Segundo ele, para uma cidade ser aceita no movimento, deve seguir uma série de
requisitos, que vão desde a preocupação ambiental, com ações como a construção de
parques, ciclovias e calçadões e a reciclagem do lixo, até políticas de proteção ao
pequeno comércio e a restaurantes tradicionais.
As 34 cidades que fazem parte do movimento (além das 32 iniciais, outra cidade italiana e
uma croata se juntaram ao grupo) são analisadas por uma comissão, que verifica se os
"mandamentos" do grupo estão sendo cumpridos, e recebem um certificado e a
permissão para usar o logotipo do Cittaslow.
O símbolo do movimento é um providencial escargô, que, como lembram os seus
idealizadores, além de um símbolo da lerdeza é também um refinado item da culinária
mediterrânea.
A cada ano, uma das "cittaslow" abrigará a reunião anual do movimento, para
discutir questões relacionadas à melhoria da qualidade de vida nas cidades e estabelecer
suas prioridades para o ano seguinte.
A cidade de Orvieto, na região da Umbria, abrigou a primeira reunião, de fundação do
movimento.
Orgulho gastronômico
A questão da qualidade da alimentação é uma das principais preocupações do
Cittaslow. O próprio movimento nasceu como um apêndice de outro, criado em 1986 e
destinado a combater o avanço das cadeias de fast-food e a padronização culinária.
O movimento original, batizado de Slow Food, se espalhou rapidamente e hoje já tem mais
de 60 mil estabelecimentos associados em 35 países. Os ideais do Slow Food são também
ideais do movimento Cittaslow.
Lanchonetes do McDonald's, nem pensar. "Queremos lutar contra a invasão das grandes
redes de distribuição e de franquias, principalmente no setor de alimentação",
afirma Saturnini.
"Não podemos impedir as grandes cadeias de alimentação de se estabelecerem na
cidade, mas esperamos que as pessoas que vêm à cidade não queiram comer aqui o mesmo
hambúrguer que podem comer em Londres, Paris ou Melbourne", diz.
Novas tecnologias
À primeira vista, as regras do movimento Cittaslow podem ser vistas como uma tentativa de
manter suas afiliadas paradas no tempo. Mas Saturnini afirma que a intenção é
exatamente a oposta.
"Não queremos atrasar o relógio da história. O que queremos é simplesmente
preservar o que temos de bom e agradável do nosso passado", diz ele. "Não
somos contra a tecnologia. Os novos sistemas de comunicação, como a Internet, podem ser
uma ferramenta para preservar ou melhorar nossa qualidade de vida."
Até agora, o movimento é quase exclusivamente italiano, mas seus membros pretendem
expandi-lo para outros países. "Nossa intenção é promover e desenvolver o
movimento em outros países, começando pela Europa", afirma Saturnini.(Rogério
Waasermann, AF)
"Queremos melhorar a vida dos
cidadãos"
Paolo Saturnini, 50, criador do movimento Cittaslow, diz que seu objetivo não é deixar
as cidades paradas no tempo, mas preservar as características físicas, culturais e
gastronômicas que fazem delas lugares agradáveis e com boa qualidade de vida.
Prefeito desde 1990 da pequena Greve in Chianti, cidade de 12,7 mil habitantes na região
produtora de vinhos na Toscana, Saturnini deu a seguinte entrevista à Folha, por fax: (RW)
Folha - Qual a origem do movimento Cittaslow?
Paolo Saturnini - Na Itália e em outros países já havia associações
preocupadas com a preservação do meio ambiente, da cultura ou das tradições
gastronômicas. Mas acho muito difícil para essas associações combaterem sozinhas a
devastação provocada pela globalização nas nossas formas de vida. Acho que as
instituições têm de tomar parte nessa luta. Foi por essa razão que criei esse
movimento, composto de prefeituras e prefeitos próximos à população.
Folha - Quais são os objetivos do movimento?
Saturnini - Melhorar a vida dos cidadãos, melhorar a qualidade da hospitalidade
turística e preservar o meio ambiente, a paisagem e os produtos típicos das cidades e
das regiões.
Folha - Quais as características principais de uma
"cittaslow"?
Saturnini - A cidade deve estar engajada numa política ambiental concreta. Tem de
fazer parques, calçadões e ciclovias e manter uma política de proteção à fauna e à
flora. Além disso, precisa dar proteção ao comércio tradicional e a restaurantes e
lutar contra a invasão das grandes distribuidoras e franquias, principalmente do setor de
alimentação. O movimento vai controlar se as cidades estão seguindo essa filosofia.
Folha - E o que não pode ser uma
"cittaslow"?
Saturnini - A oposição à "cittaslow" é uma cidade na qual o ritmo de
vida e trabalho é impossível, porque há muito barulho, tráfego e poluição e não há
áreas verdes. Onde há muitos supermercados e onde as pequenas lojas e restaurantes
estão desaparecendo. A comida e o modo de vida são iguais em todas essas cidades.
Folha - O movimento é exclusivamente italiano?
Saturnini - Temos hoje 34 cidades no movimento, todas italianas exceto
Verteneglio, na Croácia. O número de cidades italianas vai crescer, mas também é nossa
intenção promover e desenvolver o movimento em outros países, começando pela Europa.
Folha - Como o movimento Cittaslow afeta a vida das
pessoas?
Saturnini - Nossa intenção é melhorar a qualidade de vida das pessoas. Nosso
movimento não é "new age" nem pretendemos colocar um freio na evolução da
história. Queremos preservar o que temos de bom do nosso passado. Não somos contra a
tecnologia. Os novos sistemas de comunicação, como a Internet, podem ser uma ferramenta
para melhorar nossa qualidade de vida.
Orvieto resiste à pressa da vida
moderna
São 9h30 da manhã, mas os relógios do poste em frente à estação de trem marcam
10h45, 11h15 e 2h20. Em Orvieto, cidade medieval no centro da Itália, ninguém parece
muito preocupado com o horário.
Orvieto é uma das cidades do movimento Cittaslow, que tenta preservar velhos hábitos e
resistir à pressa e aos costumes padronizados da vida moderna.
Até agora, pelo menos, Orvieto está ganhando a parada.
É preciso ter paciência para se chegar lá. Orvieto fica no alto de um penhasco, e é
necessário pegar um bonde para subir o morro. Um cartaz avisa: "Se quer velocidade,
vá de ônibus". Depois de descer do bonde, é preciso andar dez minutos até o centro da cidade velha. Ao
ver o lugar, porém, o visitante entende porque os seus cerca de 7.000 moradores são tão
apegados ao passado. A história de Orvieto começa com o povo etrusco, sete séculos antes de Cristo,
atravessa o Império Romano, mas parece ter se mantido intocada desde a Idade Média.
Em becos estreitos, calçados com pedras, vêem-se casas baixas e irregulares, com sacadas
decoradas com flores, e igrejas góticas, construídas no século 14.
Os aposentados se reúnem todas as manhãs para conversar na praça central, as crianças
sentam no chão, num canto da rua principal, e as mulheres saem juntas para passear,
empurrando carrinhos com bebês. As pessoas falam sem parar, em grupos, na porta das lojas
ou usando celulares. "A vida aqui parou no tempo. As pessoas têm televisão, videogame, computador, mas
preferem ficar na rua, conversando com os amigos e com os vizinhos", diz Laura Cardi,
funcionária da prefeitura.
Porta aberta Segurança não é problema. Muitas pessoas saem de casa e deixam a porta aberta. De duas
em duas semanas, a polícia registra algum furto.
Os policias não se lembram de ter investigado um assassinato, e o último suicídio
ocorreu há seis anos. "Nossa maior preocupação é com a falta de
estacionamento", diz o chefe da polícia, Beco Lucio.
A tranquilidade de Orvieto fica evidente na hora do almoço. Em poucos minutos, o barulho
das pessoas conversando na rua e do movimento dos carros e das lambretas dá lugar ao
silêncio. As lojas fecham, as ruas ficam vazias, todos vão para casa, comer e dormir.
Só os restaurantes ficam abertos, mas o turista acostumado com a agilidade das
lanchonetes fast-food precisa se adaptar ao ritmo da cidade.
Algumas osterias, spaghetterias e pizzarias nem sequer servem Coca-Cola. Cada refeição
conta com entrada, primeiro prato, prato principal, sobremesa, vinho e café expresso.
"Aqui tudo é feito na região. Nossa cozinha e nossos vinhos são famosos em todos
os lugares. Porque vamos querer o McDonald's?", pergunta Chiaroti Luciano, de 63
anos, sentado no banco em frente à sua loja de vinhos, enquanto espera algum freguês.
Os moradores de Orvieto resistem às mudanças e querem preservar suas tradições, mas,
assim como nos filmes do cineasta italiano Federico Fellini, muitas vezes a vida é doce
apenas na aparência. "Que vida?", pergunta a entediada Elvisa Maietto, 58, com a cabeça recostada no
balcão de sua mercearia. "De casa para o trabalho e do trabalho para casa, que vida
é essa?" (Ricardo Grinbaum, AF)
|