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James Blitz - Financial Time (18.07.2000)
ROMA - Nos últimos anos, a Itália lançou diversas iniciativas com o objetivo de
promover sua herança cultural e artística. Mas poucas delas foram tão impressionantes
quando a apresentação, a partir da quarta-feira, de espetáculos ao vivo no Coliseu de
Roma, pela primeira vez em 1.500 anos.
O estádio acinzentado que fica no centro da capital italiana
é um dos monumentos mais famosos do mundo. Completado cerca de 2,5 mil anos atrás pelo
imperador Tito, ele dedicou seus primeiros 500 anos de existência à função de palco
para combates violentos entre gladiadores, e foi o local de martírio dos cristãos.
O estádio, que podia abrigar até 75 mil espectadores, caiu
em desuso no ano 532. Teodorico, rei dos ostrogodos, que haviam conquistado Roma, proibiu
o uso do Coliseu para combates que envolvessem humanos e animais.
Saqueadores gradualmente roubaram a maior parte dos
elaborados ornamentos do estádio, como o glorioso mármore travertino que recobria suas
paredes internas. Nenhuma atividade foi realizada no local desde então, excetuadas as
visitas incessantes de artistas, arqueólogos e turistas.
Mas nesta Quarta-feira (19) à noite, depois de um intervalo
de 15 séculos de duração, o perfeito formato ovalado do Coliseu uma vez mais se
transformará em palco -dessa vez para espetáculos musicais e teatrais ao vivo. Haverá,
no entanto, pouco que interesse aos fãs de "Gladiador", o recente filme de
Hollywood cujas cenas se passam numa versão recriada por computadores do Coliseu. A noite
da reabertura terá uma produção de "Édipo Rei", de Sófocles, sob a
responsabilidade do Teatro Nacional da Grécia.
E o número de espectadores não chegará sequer perto da
escala vista na Roma imperial. Dadas as restrições estruturais, o estádio pode
acomodar, no máximo, 700 pessoas por noite, pagando salgados ingressos de 100 mil liras
(cerca de R$ 90).
Mesmo assim, a estréia da quarta-feira não deveria ser
descartada como pouco importante. Os arquitetos e arqueólogos superaram desafios
técnicos consideráveis -o maior dos quais foi a construção de um "piso" para
o Coliseu pela primeira vez em séculos.
Até agora, os turistas que entravam na antiga arena viam,
das arquibancadas, as instalações subterrâneas, escavadas por arqueólogos, que no
passado ficavam sob o piso. "Sem um piso adequado para o estádio, os visitantes não
teriam como capturar sua aparência e sentir o que os espectadores ou gladiadores do
passado sentiam", diz Giangiacomo Martines, funcionário do Coliseu.
De pé no palco recém-construído ontem, sob o céu azul e o
feroz sol do meio-dia romano, a sensação talvez fosse semelhante à de um gladiador
encarando quatro anéis superpostos de plebeus gritando furiosamente.
O palco fico no extremo leste do estádio, e cobre um sexto
da superfície da arena. Ligada a ele há uma estreita ponte, lisa, que conduz ao extremo
oeste do Coliseu, pela qual os atores podem entrar e sair do cenário.
A construção do "piso" não foi nada fácil. Uma
visita às instalações subterrâneas do estádio mostrou o quanto as imensas fundações
do Coliseu são inseguras. Por sob as ruas, por exemplo, fluem pequenos riachos.
"Mas o palco tem a altura exata que deveria ter quando
Tito inaugurou o edifício", diz Martines. "Ele pode ser removido sem
dificuldade e não afeta de maneira alguma as estruturas originais".
Funcionários do Coliseu admitiram que estavam tentando
definir que espécie de espetáculo seria exibido no palco. Dada a história de martírio
de cristãos estão tendo de exercer o máximo de cautela para impedir a execução de
qualquer trabalho vulgar, e o programa de verão do Coliseu está ocupado por
apresentações da trilogia edipiana de Sófocles.
"Édipo Rei" não deixa de ter seus momentos
sangrentos -ainda que fora do palco-, mas com certeza os fãs de "Gladiador"
vão considerar a peça refinada demais.
Tradução: Eduardo Simiuni (UOL)
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