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O filósofo Antonio Negri cumpre pena na Itália

29/01/2002

Antonio Negri, cientista político italiano, é co-autor de 'Império'   AFP  Paris, 27/6/1997

 

   O livro Império é a consolidação de um diálogo, que, nos anos 90, ocupou boa parte do tempo de Michael Hardt e do filósofo italiano Antonio Negri. Lançado no ano passado em vários países, entre eles o Brasil, recebeu aplausos - nos EUA - dos grupos de esquerda e despertou a ira da imprensa de direita, que tentou desqualificar a participação de Hardt (''É claramente um livro de Negri com seu escudeiro útil'', disse o semanário Weekly standard). Hardt foi aluno de Negri. Tornou-se um pensador associado, mas independente. Ele tem dedicado boa parte de seu tempo a associar o pensamento marxista ao do filósofo francês Gilles Deleuze (é autor de Gilles Deleuze, um aprendizado em filosofia). O conceito de império, aliás, como os dois propõem no livro, é claramente filho da teoria da ''sociedade de controle'' de Deleuze.

   Negri tem uma história peculiar. Um dos grandes nomes do pensamento socialista atual, não pode dar palestras fora da Itália. Está preso. Em 1979, quando era professor da Universidade de Pádua, foi acusado de liderar as Brigadas Vermelhas, grupo terrorista que havia assassinado o então ex-primeiro-ministro italiano Aldo Moro. Foi preso, absolvido, mas condenado de novo. Ficou quatro anos no cárcere e saiu para cumprir mandato de deputado em 1983. Teve a imunidade cassada e foi condenado a 30 anos de prisão. Exilou-se em Paris por 14 anos, mas em 1997 entregou-se à Justiça italiana. Hoje, cumpre a pena em casa, de onde só não pode sair durante a noite.

   O livro dos dois é um estudo sobre a derrocada do modelo imperialista, com a consolidação do modelo imperial. O primeiro é aquele que esteve presente ao longo dos séculos 19 e 20 e que, para os autores, tem seus últimos suspiros na Guerra do Vietnã: é o expansionismo das superpotências, a ação do Estado armado sobre outros países. O segundo é produto da derrocada do Estado-Nação e produziu a hegemonia dos EUA, uma rede complexa que leva para o poder à escala global. O livro critica a globalização sem descartar o que há de positivo nela e trafega com desenvoltura entre a bibliografia de Marx e a biografia de São Francisco de Assis. (© JB Online)

O velho mundo novo

Autor do livro 'Império', o filósofo Michael Hardt diz que EUA mudam de tática para manter sua hegemonia

ALEXANDRE WERNECK

   Pouca coisa mudou. Essa é a opinião do filósofo americano Michael Hardt, quase cinco meses depois dos atentados terroristas de 11 de setembro nos Estados Unidos. Para ele, o mundo continua praticamente o mesmo. ''Ficou muito fácil as pessoas dizerem que mudou tudo'', alerta. Professor de literatura da Duke University, na Carolina do Norte, Hardt é o autor, ao lado do filósofo e cientista político italiano Antonio Negri, de um dos livros mais importantes de 2001, Império. A obra é um retrato da globalização como um fenômeno que, se, por um lado, sepultou o antigo imperialismo dos séculos passados, por outro, criou o que os autores chamam de sistema imperial, uma rede de poder global mais forte que a ação dos Estados e seus exércitos. Hardt está no Brasil para participar, a partir de quinta-feira, do Fórum Social Mundial de Porto Alegre, o encontro internacional que reunirá integrantes de movimentos antiglobalização e membros da intelligentsia da esquerda mundial. Hoje, no Rio, ele é aguardado no debate de encerramento do ciclo Vozes do milênio - Para pensar a globalização, promovido pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Museu da República. O encontro acontece às 15h, no auditório do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Aos 43 anos, Hardt está preocupado com a criação de uma democracia ''dos velhos tempos'', com igualdade e participação coletiva e diz que a esquerda precisa ser mais utópica. A seguir, sua entrevista.

- Como o senhor explica que um livro sobre a globalização, com uma leitura tão claramente marxista como Império, tenha se tornado um sucesso editorial?

- Não sei exatamente, mas acho que isso pode ter acontecido porque o livro é utópico. Não digo utópico no sentido de algo que não pode ser, mas no sentido de que acreditamos que o mundo pode ser melhor. Acho que na esquerda de hoje há uma falta de pensamento com utopia.

- E as pessoas sentem falta dessa utopia?

- E isso é compreensível. Mas não acho que o processo esteja sendo entendido em toda a sua complexidade. A mídia americana teve dificuldade de entender o livro. As pessoas me perguntavam se a globalização é boa ou má. A resposta é: nenhum dos dois e ambos. E isso é difícil de as pessoas entenderem. A maior parte das pessoas que gostou do livro é contrária ao neoliberalismo. Mas não há apenas a opção entre o neoliberalismo e o modelo que havia antes dele. Muitos dos aspectos da globalização, o econômico, o cultural ou o político são ruins, são formas de exploração. Mas ao mesmo tempo, o mesmo processo carrega um potencial intenso para a liberação.

- O que se pode dizer hoje, algum tempo depois dos atentados de 11 de setembro de 2001?

- Acho que há muito exagero a respeito do quanto as coisas mudaram depois daquele dia. Sem dúvida algo mudou, é inegável, mas ficou muito fácil as pessoas dizerem que mudou tudo, que o mundo agora é outro. Essas mesmas pessoas, no entanto, dizem as mesmas coisas que diziam antes de 11 de setembro.

- O que mudou, então?

- Depois do que aconteceu, parece que os Estados Unidos voltaram a agir num estilo imperialista à velha moda, como os poderes imperialistas europeus agiam cem anos atrás. Isso é verdade, mas não é o principal. O mais importante não mudou. Nos últimos dez anos, a ideologia militar e diplomática dos Estados Unidos tem tido duas dimensões. Uma delas é esse movimento imperialista, com ações militares no Golfo, na Bósnia etc. Mas a outra é ideológica e imperial. Ou seja, age por interesses globais, com uma nova lógica de poder que não é aquela do Estado-Nação.

- E como ela funciona?

- Quando falamos no debate sobre direitos humanos em Kosovo, alguns dizem que o discurso do exército americano de promover o interesse humanitário universal é uma mistificação ideológica e que, na verdade, eles são apenas um poder imperialista. Eu acho que há ambivalência, até contradição, na ideologia do exército e da diplomacia americanos: os dois princípios estão atuando ao mesmo tempo. No que se refere aos episódios de 11 de setembro, a dimensão imperialista está mais aparente porque os Estados Unidos estão falando mais grosso, com a voz do Estado-Nação protegendo o próprio território. Mas eu e Antonio Negri achamos que, a longo prazo, a lógica imperial será mais efetiva e a lógica imperialista não terá mais sucesso. O cenário do antigo imperialismo é inócuo para lutar contra este novo inimigo que ficou evidente nos atentados. É por isso que os americanos estão tão perplexos. Há muita discussão nas forças armadas americanas sobre o que é um inimigo que opera em rede e como atacá-lo. A Al Qaeda e outros grupos terroristas são redes. A velha forma de controle militar e político não é capaz de atacar uma estrutura como essa. A forma imperial é mais eficiente.

- Mas o Estado americano não é cada vez mais forte diante dos outros Estados?

- É verdade. Mas quando dizemos que os Estados-Nação, mesmo os mais poderosos como os Estados Unidos, estão declinando, não significa que eles não são mais importantes. Significa que o tipo de dominação que eles exerciam está se desfazendo. Este poder está assumindo novas formas. A socióloga holandesa Saskia Sassen diz que os ministros da economia exercem funções locais, mas ligadas a uma visão global. Ela usa Davos (cidade suíça onde se dá um encontro anual de lideranças capitalistas) como exemplo de uma espécie de campo de treinamento, onde esses ministros encontram outros economistas e depois voltam para casa para dar continuidade às velhas funções relacionadas a seus próprios países. Mas eles não fazem isso em um cenário nacional. Os funcionários do governo americano estão na verdade administrando um capital global.

- O senhor acha que depois de 11 de setembro a esquerda passou a ser vítima de revanchismo contra o que é antiamericano?

- Logo depois daquilo, a imprensa de direita nos EUA começou a dizer que os movimentos antiglobalização eram tão ruins quanto o terrorismo. Quatro artigos de revistas semanais de direita disseram que eu, Antonio Negri e nosso livro Império éramos responsáveis pelo 11 de setembro.

- Com que argumentos?

- Primeiro foi a National Review, depois a New Republic, a New Criterium e a Weekly Standard. Esta última, aliás, não fala só de nós, mas diz que o filósofo alemão Martin Heidegger é o mentor intelectual da esquerda (nos artigos The imperial left - Why american academics love Hardt and Negris ''Empire'' e Postmodern jihad - What Osama bin Laden learned from the left). Claro que Heidegger nunca foi um intelectual de esquerda. Tudo isso foi fruto de uma compreensão fraca do que escrevemos e é ideológico no pior sentido. A direita ideológica viu uma oportunidade de usar aquele patriotismo todo para atacar os seus inimigos. Mas acho que já ultrapassamos esse problema.

- A esquerda é criticada por dizer que o mundo precisa mudar, mas não dizer como. O que pode ser feito de concreto para alterar esse contexto de dominação do império?

- Há vários grupos na luta antiglobalização com fins importantes, mas movimentos como o de Seattle e o de Gênova têm limitações. A primeira delas é que eles são essencialmente do Atlântico Norte. A outra é que eles são prioritariamente de protesto e não de proposição de alternativas. São úteis, mas acho que todo movimento de protesto tem que originar um movimento de proposição de alternativas.

- Eventos como o de Porto Alegre servem para isso?

- Em vários sentidos sim. Porto Alegre é certamente livre da primeira limitação de que falei e sem dúvida permite atuar sobre a segunda, uma vez que lá trocam-se idéias visando a projetos mais ativos. Não devemos ficar frustrados porque não podemos formular ainda alternativas para criar uma globalização democrática. Mas temos que ficar juntos. A verdade é que nenhum de nós sabe o que fazer.

- Será seu tema no Rio e em Porto Alegre?

- Nas palestras vou falar basicamente sobre globalização e democracia. Mas meu tema formal será a guerra. Em Império, descrevemos uma nova forma de guerra que definiu uma outra relação entre guerra e política e tornou a democracia impossível. Tenho tentado entender como a democracia foi excluída do sistema global atual. Não estou falando que não tenhamos eleições livres ou sistemas representativos. Falo da democracia à antiga. Não sabemos o que ela significa em um mundo globalizado. A democracia é algo que temos que criar. Por democracia entendo igualdade absoluta e liberdade, mas com participação coletiva.

- Nosso maior problema é o da coletividade?

- É um grande problema. Mas talvez o maior seja o da igualdade. Não temos nenhuma igualdade.  (© JB Online)

 

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