| O velho mundo novo Autor do livro 'Império', o filósofo
Michael Hardt diz que EUA mudam de tática para manter sua hegemonia
ALEXANDRE WERNECK
Pouca coisa mudou. Essa é a opinião do filósofo
americano Michael Hardt, quase cinco meses depois dos atentados terroristas de 11 de
setembro nos Estados Unidos. Para ele, o mundo continua praticamente o mesmo. ''Ficou
muito fácil as pessoas dizerem que mudou tudo'', alerta. Professor de literatura da Duke
University, na Carolina do Norte, Hardt é o autor, ao lado do filósofo e cientista
político italiano Antonio Negri, de um dos livros mais importantes de 2001, Império.
A obra é um retrato da globalização como um fenômeno que, se, por um lado, sepultou o
antigo imperialismo dos séculos passados, por outro, criou o que os autores chamam de
sistema imperial, uma rede de poder global mais forte que a ação dos Estados e seus
exércitos. Hardt está no Brasil para participar, a partir de quinta-feira, do Fórum
Social Mundial de Porto Alegre, o encontro internacional que reunirá integrantes de
movimentos antiglobalização e membros da intelligentsia da esquerda mundial.
Hoje, no Rio, ele é aguardado no debate de encerramento do ciclo Vozes do milênio -
Para pensar a globalização, promovido pela Escola de Comunicação da Universidade
Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pelo Museu da República. O encontro acontece às 15h,
no auditório do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. Aos 43 anos, Hardt está preocupado
com a criação de uma democracia ''dos velhos tempos'', com igualdade e participação
coletiva e diz que a esquerda precisa ser mais utópica. A seguir, sua entrevista.
- Como o senhor explica que um livro sobre a
globalização, com uma leitura tão claramente marxista como Império,
tenha se tornado um sucesso editorial?
- Não sei exatamente, mas acho que isso pode ter
acontecido porque o livro é utópico. Não digo utópico no sentido de algo que não pode
ser, mas no sentido de que acreditamos que o mundo pode ser melhor. Acho que na esquerda
de hoje há uma falta de pensamento com utopia.
- E as pessoas sentem falta dessa utopia?
- E isso é compreensível. Mas não acho que o
processo esteja sendo entendido em toda a sua complexidade. A mídia americana teve
dificuldade de entender o livro. As pessoas me perguntavam se a globalização é boa ou
má. A resposta é: nenhum dos dois e ambos. E isso é difícil de as pessoas entenderem.
A maior parte das pessoas que gostou do livro é contrária ao neoliberalismo. Mas não
há apenas a opção entre o neoliberalismo e o modelo que havia antes dele. Muitos dos
aspectos da globalização, o econômico, o cultural ou o político são ruins, são
formas de exploração. Mas ao mesmo tempo, o mesmo processo carrega um potencial intenso
para a liberação.
- O que se pode dizer hoje, algum tempo depois
dos atentados de 11 de setembro de 2001?
- Acho que há muito exagero a respeito do quanto as
coisas mudaram depois daquele dia. Sem dúvida algo mudou, é inegável, mas ficou muito
fácil as pessoas dizerem que mudou tudo, que o mundo agora é outro. Essas mesmas
pessoas, no entanto, dizem as mesmas coisas que diziam antes de 11 de setembro.
- O que mudou, então?
- Depois do que aconteceu, parece que os Estados
Unidos voltaram a agir num estilo imperialista à velha moda, como os poderes
imperialistas europeus agiam cem anos atrás. Isso é verdade, mas não é o principal. O
mais importante não mudou. Nos últimos dez anos, a ideologia militar e diplomática dos
Estados Unidos tem tido duas dimensões. Uma delas é esse movimento imperialista, com
ações militares no Golfo, na Bósnia etc. Mas a outra é ideológica e imperial. Ou
seja, age por interesses globais, com uma nova lógica de poder que não é aquela do
Estado-Nação.
- E como ela funciona?
- Quando falamos no debate sobre direitos humanos em
Kosovo, alguns dizem que o discurso do exército americano de promover o interesse
humanitário universal é uma mistificação ideológica e que, na verdade, eles são
apenas um poder imperialista. Eu acho que há ambivalência, até contradição, na
ideologia do exército e da diplomacia americanos: os dois princípios estão atuando ao
mesmo tempo. No que se refere aos episódios de 11 de setembro, a dimensão imperialista
está mais aparente porque os Estados Unidos estão falando mais grosso, com a voz do
Estado-Nação protegendo o próprio território. Mas eu e Antonio Negri achamos que, a
longo prazo, a lógica imperial será mais efetiva e a lógica imperialista não terá
mais sucesso. O cenário do antigo imperialismo é inócuo para lutar contra este novo
inimigo que ficou evidente nos atentados. É por isso que os americanos estão tão
perplexos. Há muita discussão nas forças armadas americanas sobre o que é um inimigo
que opera em rede e como atacá-lo. A Al Qaeda e outros grupos terroristas são redes. A
velha forma de controle militar e político não é capaz de atacar uma estrutura como
essa. A forma imperial é mais eficiente.
- Mas o Estado americano não é cada vez mais
forte diante dos outros Estados?
- É verdade. Mas quando dizemos que os
Estados-Nação, mesmo os mais poderosos como os Estados Unidos, estão declinando, não
significa que eles não são mais importantes. Significa que o tipo de dominação que
eles exerciam está se desfazendo. Este poder está assumindo novas formas. A socióloga
holandesa Saskia Sassen diz que os ministros da economia exercem funções locais, mas
ligadas a uma visão global. Ela usa Davos (cidade suíça onde se dá um encontro
anual de lideranças capitalistas) como exemplo de uma espécie de campo de
treinamento, onde esses ministros encontram outros economistas e depois voltam para casa
para dar continuidade às velhas funções relacionadas a seus próprios países. Mas eles
não fazem isso em um cenário nacional. Os funcionários do governo americano estão na
verdade administrando um capital global.
- O senhor acha que depois de 11 de setembro a
esquerda passou a ser vítima de revanchismo contra o que é antiamericano?
- Logo depois daquilo, a imprensa de direita nos EUA
começou a dizer que os movimentos antiglobalização eram tão ruins quanto o terrorismo.
Quatro artigos de revistas semanais de direita disseram que eu, Antonio Negri e nosso
livro Império éramos responsáveis pelo 11 de setembro.
- Com que argumentos?
- Primeiro foi a National Review, depois a New
Republic, a New Criterium e a Weekly Standard. Esta última, aliás,
não fala só de nós, mas diz que o filósofo alemão Martin Heidegger é o mentor
intelectual da esquerda (nos artigos The imperial left - Why american academics love
Hardt and Negris ''Empire'' e Postmodern jihad - What Osama bin Laden learned from
the left). Claro que Heidegger nunca foi um intelectual de esquerda. Tudo isso foi
fruto de uma compreensão fraca do que escrevemos e é ideológico no pior sentido. A
direita ideológica viu uma oportunidade de usar aquele patriotismo todo para atacar os
seus inimigos. Mas acho que já ultrapassamos esse problema.
- A esquerda é criticada por dizer que o mundo
precisa mudar, mas não dizer como. O que pode ser feito de concreto para alterar esse
contexto de dominação do império?
- Há vários grupos na luta antiglobalização com
fins importantes, mas movimentos como o de Seattle e o de Gênova têm limitações. A
primeira delas é que eles são essencialmente do Atlântico Norte. A outra é que eles
são prioritariamente de protesto e não de proposição de alternativas. São úteis, mas
acho que todo movimento de protesto tem que originar um movimento de proposição de
alternativas.
- Eventos como o de Porto Alegre servem para
isso?
- Em vários sentidos sim. Porto Alegre é
certamente livre da primeira limitação de que falei e sem dúvida permite atuar sobre a
segunda, uma vez que lá trocam-se idéias visando a projetos mais ativos. Não devemos
ficar frustrados porque não podemos formular ainda alternativas para criar uma
globalização democrática. Mas temos que ficar juntos. A verdade é que nenhum de nós
sabe o que fazer.
- Será seu tema no Rio e em Porto Alegre?
- Nas palestras vou falar basicamente sobre
globalização e democracia. Mas meu tema formal será a guerra. Em Império,
descrevemos uma nova forma de guerra que definiu uma outra relação entre guerra e
política e tornou a democracia impossível. Tenho tentado entender como a democracia foi
excluída do sistema global atual. Não estou falando que não tenhamos eleições livres
ou sistemas representativos. Falo da democracia à antiga. Não sabemos o que ela
significa em um mundo globalizado. A democracia é algo que temos que criar. Por
democracia entendo igualdade absoluta e liberdade, mas com participação coletiva.
- Nosso maior problema é o da coletividade?
- É um grande problema. Mas talvez o maior seja o
da igualdade. Não temos nenhuma igualdade. (©
JB Online)
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