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Giardino Armonico faz barroco molto sexy

29/08/2001

Il Giardino Armonico

 

ARTHUR NESTROVSKI
ARTICULISTA DA FOLHA

   Timidez, falta de jeito, decoro, pudor, auto-estima baixa: só uma coisa assim, ou todas essas combinadas, explica por que ninguém saiu dançando na platéia do teatro Cultura Artística, anteontem, escutando o Giardino Armonico.

   O senso equivocado da vida encontra mil maneiras de se traduzir; afundados nas poltronas, estávamos nós, por exemplo, com a música dos italianos italianizando tudo por dentro e as pernas imóveis como um terno, os ternos imóveis como as pernas.

   Mas o fato é que, num movimento como o "Hornpipe", o último do "Concerto Grosso" op. 6, nº 7, de Handel (1685-1759), o Giardino Armonico ultrapassa certa barreira tácita do som e arranca da música a capa de ponderabilidade. Seria fácil dizer que esse é um estilo italiano de tocar música antiga. Mas é o novo estilo italiano de tocar música antiga. Contrastes, ataques, drama. Homens e mulheres no palco, homens e mulheres na música.

   Nem eles dançam, é verdade, talvez porque estejam ocupados com os instrumentos. Já o maestro Giovanni Antonini fica numa situação privilegiada, e não se faz de rogado. Não existe ainda uma escola consagrada de regência da música antiga. Comparado a um regente de sinfônica, Antonini parece ter aprendido tudo sozinho.

   Mas não é para ser comparado a um regente de sinfônica. A maior parte do tempo, parece estar noutro planeta -um planeta sem chão, sem lado, só alturas e tempo. E o que ele ouve lá faz a gente ouvir imediatamente aqui, numa versão inteligível e generosa.

   Há quem resista a tanta energia e tanta sutileza, tantos detalhes de sentido nas costas de cada detalhe da música. É verdade que os largos às vezes parecem superamadurecidos; mas o vinho refermentado é uma das glórias do Vêneto, e quem provou não esquece esse gosto jamais. Resistir, então, em nome de quê? Até Johann Sebastian Bach (1685-1750) tem a ganhar com os excessos de intimidade e glamour. Como na "Abertura" nº 1, em dó maior, quase um concerto para dois oboés, fagote e orquestra, que o Giardino tocou num estilo muito distante das grandiosidades de hábito. O barroco, quem diria, pode ser isso. Bach, mãe de Deus, pode ser isso: molto sexy.

   Antonini, além de maestro, é flautista; e, na segunda parte, fez seus prodígios com uma flauta-doce sopranino, interpretando o "Concerto em Dó Maior" para flautim e orquestra de Vivaldi (1678-1741). O padre vermelho que o Giardino toca tem pouco de padre e muito de vermelho. No ano retrasado, eles acompanharam Cecilia Bartoli num disco incrível só de árias de Vivaldi ("The Vivaldi Album", CD Decca). E, em seu concerto, levaram ao limite essa encarnação do veneziano como mestre de maresias e impetuosidades.

   E os ornamentos! Exemplo de uma cadência, no "Largo": a nota sensível (a última antes da tônica) muito comprida. A tônica fica absurdamente de lado, passando-se direto à segunda rebaixada, que se desfaz num arabesco tortuoso, duas dúzias de semicolcheias para cima e para baixo até chegar, afinal, no alvo. E os ornamentos rápidos? São ainda mais rebuscados que os lentos. Dão vontade de gritar "bravo!" ou "gol!"; mas se nem dançar a gente tem coragem...
A arte da música antiga, em boa medida, está nisso: na recriação imaginosa da melodia, que tem sete vidas por dentro. Um artigo recente sobre o Giardino, na revista "New Yorker" (26/2), falava em "violent Vivaldi". Violento, va bene, mas violeta também, se é para ficar nas aliterações.
Bônus especial: o "Concerto em Ré Menor" para oboé e cordas de Marcello (1684-1750), ressuscitado pelo solista Paolo Grazzi.

   O senso equivocado da vida encontra mil maneiras de se traduzir. O senso do que a vida tem de melhor também. O barroco, quem diria, pode ser isso: jardim, delícia, dança. A platéia não sai dançando porque não tem toda essa coragem. Mas não faltou gente para gritar "bravo!", e um solitário, inaudível, "gol". (Folha de S. Paulo)

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