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ARTHUR NESTROVSKI
ARTICULISTA DA FOLHA
Timidez, falta de jeito, decoro, pudor, auto-estima
baixa: só uma coisa assim, ou todas essas combinadas, explica por que ninguém saiu
dançando na platéia do teatro Cultura Artística, anteontem, escutando o Giardino
Armonico.
O senso equivocado da vida encontra mil maneiras de se
traduzir; afundados nas poltronas, estávamos nós, por exemplo, com a música dos
italianos italianizando tudo por dentro e as pernas imóveis como um terno, os ternos
imóveis como as pernas.
Mas o fato é que, num movimento como o
"Hornpipe", o último do "Concerto Grosso" op. 6, nº 7, de Handel
(1685-1759), o Giardino Armonico ultrapassa certa barreira tácita do som e arranca da
música a capa de ponderabilidade. Seria fácil dizer que esse é um estilo italiano de
tocar música antiga. Mas é o novo estilo italiano de tocar música antiga. Contrastes,
ataques, drama. Homens e mulheres no palco, homens e mulheres na música.
Nem eles dançam, é verdade, talvez porque estejam
ocupados com os instrumentos. Já o maestro Giovanni Antonini fica numa situação
privilegiada, e não se faz de rogado. Não existe ainda uma escola consagrada de
regência da música antiga. Comparado a um regente de sinfônica, Antonini parece ter
aprendido tudo sozinho.
Mas não é para ser comparado a um regente de
sinfônica. A maior parte do tempo, parece estar noutro planeta -um planeta sem chão, sem
lado, só alturas e tempo. E o que ele ouve lá faz a gente ouvir imediatamente aqui, numa
versão inteligível e generosa.
Há quem resista a tanta energia e tanta sutileza,
tantos detalhes de sentido nas costas de cada detalhe da música. É verdade que os largos
às vezes parecem superamadurecidos; mas o vinho refermentado é uma das glórias do
Vêneto, e quem provou não esquece esse gosto jamais. Resistir, então, em nome de quê?
Até Johann Sebastian Bach (1685-1750) tem a ganhar com os excessos de intimidade e
glamour. Como na "Abertura" nº 1, em dó maior, quase um concerto para dois
oboés, fagote e orquestra, que o Giardino tocou num estilo muito distante das
grandiosidades de hábito. O barroco, quem diria, pode ser isso. Bach, mãe de Deus, pode
ser isso: molto sexy.
Antonini, além de maestro, é flautista; e, na segunda
parte, fez seus prodígios com uma flauta-doce sopranino, interpretando o "Concerto
em Dó Maior" para flautim e orquestra de Vivaldi (1678-1741). O padre vermelho que o
Giardino toca tem pouco de padre e muito de vermelho. No ano retrasado, eles acompanharam
Cecilia Bartoli num disco incrível só de árias de Vivaldi ("The Vivaldi
Album", CD Decca). E, em seu concerto, levaram ao limite essa encarnação do
veneziano como mestre de maresias e impetuosidades.
E os ornamentos! Exemplo de uma cadência, no
"Largo": a nota sensível (a última antes da tônica) muito comprida. A tônica
fica absurdamente de lado, passando-se direto à segunda rebaixada, que se desfaz num
arabesco tortuoso, duas dúzias de semicolcheias para cima e para baixo até chegar,
afinal, no alvo. E os ornamentos rápidos? São ainda mais rebuscados que os lentos. Dão
vontade de gritar "bravo!" ou "gol!"; mas se nem dançar a gente tem
coragem...
A arte da música antiga, em boa medida, está nisso: na recriação imaginosa da melodia,
que tem sete vidas por dentro. Um artigo recente sobre o Giardino, na revista "New
Yorker" (26/2), falava em "violent Vivaldi". Violento, va bene, mas violeta
também, se é para ficar nas aliterações.
Bônus especial: o "Concerto em Ré Menor" para oboé e cordas de Marcello
(1684-1750), ressuscitado pelo solista Paolo Grazzi.
O senso equivocado da vida encontra mil maneiras de se
traduzir. O senso do que a vida tem de melhor também. O barroco, quem diria, pode ser
isso: jardim, delícia, dança. A platéia não sai dançando porque não tem toda essa
coragem. Mas não faltou gente para gritar "bravo!", e um solitário,
inaudível, "gol". (Folha de S. Paulo)
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