Quando me apresenta às
pessoas, o dramaturgo italiano Dario Fo, que este ano comemora os 50 anos de palco ao lado
da mulher, Franca Rame, sempre diz: "Este é meu tradutor americano. Ele comete erros
muito criativos. Às vezes, seus erros são tão interessantes que eu os traduzo para o
italiano e os coloco no texto original." Os gracejos de Fo invertem nossos papéis e
zombam do conceito de tradução. Foi isso exatamente o que ele fez durante a primeira
turnê americana de Mistério Bufo, em 1986. Na ocasião, eu ficava no palco próximo a
ele e me esforçava para traduzir suas performances vívidas e não raro improvisadas.
Ele foi o primeiro escritor a ganhar o Nobel de
literatura que, além de escrever, também é ator, mímico e palhaço. Aos 75 anos,
continua a atuar nos palcos. Fo, que não fala inglês, teve suas comédias traduzidas em
mais de 30 idiomas; entretanto, mesmo antes de traduzidas, suas obras passam por uma
série de transformações poliglotas.
Ele escreve suas peças com o corpo antes de pô-las no
papel, improvisando perante uma platéia, de modo que possa captar o impulso cinético dos
gestos na sintaxe de seus diálogos. Em geral, suas performances são uma mistura de
dialetos italianos, onomatopéias e palavras inventadas, tudo isso inspirado em pinturas
de sua autoria que funcionam como esboços das tramas. Fo é refém da obsessão do ator
pela transformação. Ele traduz a linguagem corporal em linguagem verbal, as
contradições trágicas em paradoxos cômicos e as imagens do mundo à sua volta na
verdade muscular dos chistes.
Na qualidade de tradutor de Fo desde 1986, fui
visitá-lo em sua casa de veraneio em Cesenatico, próximo de Ravenna, na costa do
Adriático.
Eu havia começado a traduzir sua peça Johan Padan e a
Descoberta das Américas e queria consultá-lo. Em Johan Padan, nota-se a predileção do
autor pela combinação do sério com o absurdo. A peça narra as aventuras de uma humilde
recruta que, durante as viagens de Colombo, usa o riso para combater a injustiça ao mesmo
tempo que aprende a cozinhar iguanas e fazer amor em redes. Ao ler trechos da peça em sua
sala de estar, Fo não sente necessidade de encenar a narrativa com o corpo, embora não
se furte a pequenos gestos, traços subliminares das ações codificadas na linguagem
quando de sua concepção original. Seus dedos transformam-se nas velas dos navios e, em
seguida, traçam o curso dos fogos de artifício pelo céu.
Seus músculos respondem a cada frase construindo uma
seqüência de minúsculos hieróglifos que vão ao encontro da ação. Fo lembrava-se do
texto do modo como o havia escrito, com seu corpo, e eu procurava traduzi-lo da mesma
maneira que havia traduzido todas as suas peças: tendo em mente as origens pictóricas e
cinéticas de suas histórias.
No palco, perante a platéia, acabo por vacilar muitas
vezes, interrompendo o fluxo incansável das cadências cômicas de Fo.
Onomatopéia - Inicialmente, esses momentos me
aterrorizavam; por fim, passei a aguardar ansiosamente por eles. Se eu minimizava uma
longa lista de personagens da commedia dell'arte, Fo dizia brincando que a síntese é o
maior talento do americano médio. Se eu usava uma palavra inventada em vez de uma
tradução literal, Fo observava a qualidade onomatopéica do som e o repetia por diversas
vezes em inglês, como uma criança que brincasse com um brinquedo novo. Papamóvel era
uma de suas favoritas.
Ao chamar a atenção para o nosso relacionamento, Fo
fez do ato da tradução parte de sua performance, estreitando seus laços da cumplicidade
com o público ao convidá-lo a participar do que se passava no palco. Ele queria lembrar
à platéia que as palavras não são planas e sem vida, e sim maleáveis e cheias de
contradições, por isso insistia em que saíssem de seu papel de ouvintes e se tornassem
participantes em um jogo de pingue-pongue bilíngüe.
"Alguns de vocês rirão quando eu falar em
italiano", Fo diz à platéia: "Outros rirão quando ouvirem a tradução;
outros só entenderão as piadas depois que forem embora, o que lhes garantirá boas
risadas até chegarem em casa." Depois de três meses trabalhando como intérprete de
palco da turnê americana de 1986, aprendi na prática que Dario Fo e Franca Rame
constroem sua comédia sobre a ação, e que era, portanto, crucial que eu mantivesse a
cadência rítmica da ação para que a tradução dos textos fosse bem-sucedida.
Aos poucos, ao traduzir, comecei a escolher as palavras
de modo que se encaixassem nos gestos empregados na performance. Com o passar dos anos,
passei a traduzir seus textos para montagens feitas por outros atores. Com isso, vi-me
recorrendo cada vez mais não apenas àqueles gestos dos quais me lembrava, mas também
aos desenhos que Fo esboçava quando redigia suas peças.
Esses esboços captavam a coreografia da performance
numa planta primal, como se fosse a partitura de um movimento que, de algum modo, tinha de
ser incorporado à tradução.
Tradição - A facilidade com que Fo e Rame
exploravam o potencial cômico dos erros e a presença do tradutor no palco com eles tem
raízes nas tradições medievais e renascentistas que servem de inspiração ao seu
trabalho. Os artistas viajantes da Idade Média e os atores da commedia dell'arte da
Renascença buscavam um estilo semelhante de improvisação que incorporasse eventos
aleatórios à sua performance. Se, por exemplo, acontecesse de um cão subir ao palco de
uma commedia dell'arte, o arlequim não via nisso um motivo de interrupção, e sim uma
oportunidade para inventar novas piadas e interagir com a platéia.
Fo atribui seu sucesso na improvisação àquilo que
aprendeu no palco na companhia da esposa, nascida no seio de uma família de artistas
itinerantes que há gerações se dedica à tradição cômica. "Meu trabalho no
teatro não seria possível sem Franca", diz Fo. "Porque Franca nasceu no
teatro, mas não no teatro de 70 anos atrás, que é a sua idade. Ela nasceu no teatro de
400 anos atrás. Essa mulher tem pelo menos 400 anos de vida no teatro, talvez 500. Em seu
DNA repousa a memória de todos os seus ancestrais, avós e tataravós que trabalharam no
teatro. Sua família possui toda a história do teatro europeu em sua memória coletiva: o
teatro itinerante, de fantoches, o melodrama, Shakespeare, a commedia dell'arte, o circo,
o teatro épico e a pantomima.
No âmago da imaginação transformadora de Fo está
sua habilidade de enxergar o mundo sob a forma de desenhos e gestos. Tendo recebido aulas
de pintura e de arquitetura na Academia de Artes Brera, de Milão, nunca deixou de
utilizar o desenho ao longo de sua carreira para visualizar seus pensamentos,
transformando as personagens e as situações mais elementares de suas peças em esboços
que capturam o absurdo de suas sinas. Nos desenhos de Fo, as pessoas voam, aparecem de
ponta-cabeça e têm partes do corpo extraídas de animais exóticos.
As paredes de seu apartamento em Milão são cobertas
de obras de arte. Máscaras da África, Ásia e Europa decoram o corredor que leva da sala
de estar ao seu estúdio. Uma estátua da Virgem, do século 18, embalando o Cristo,
repousa sobre uma mesa próxima do busto de um bufão medieval.
Plantado no meio desses tesouros encontra-se um
aparelho de televisão wide screen dotado de um controle remoto que Fo usa para percorrer
incessantemente canais de notícias, esportes e filmes antigos, criando com isso o mesmo
tipo de montagem estonteante na tela da TV que cria no teatro.
Crenças - O alvo mais polêmico das sátiras de
Fo é a burocracia da Igreja Católica Romana (em oposição às crenças religiosas dos
indivíduos, pelas quais Fo tem grande respeito). O jornal oficial do Vaticano denunciou a
versão para a TV de Mistério Bufo, de 1977, como "o programa mais blasfemo jamais
levado ao ar na história da televisão mundial". Durante a turnê americana de 1986,
em uma passagem que narra a chegada de João Paulo II ao aeroporto de Madri, Fo comparou o
pontífice, então uma figura atlética, a um herói da cultura popular americana:
"Lá estava ele em toda a sua magnificência. Olhos azuis, sorriso franco, um
pescoço de touro. A musculatura do peito protuberante, os músculos abdominais bem
definidos. E, principalmente, uma capa vermelha que lhe caía até os joelhos:
Superman!" O staccato com que descreve cada detalhe físico observa uma cadência que
culmina com a fala cômica final: "Superman", que Fo diz em inglês.
A seguir, a descrição vai crescendo em uma espiral de
um lirismo absurdo em que o papa alça vôo por conta própria, dispensando o avião.
"Eles já podiam vê-lo em sua imaginação. A
capa esvoaçante ao vento. De suas vestes sai uma escrita de fumaça amarela e branca que
diz: "Deus está conosco. E ele é polonês." Ao encenar o vôo do papa, as
palavras e os gestos de Fo fundem-se no equivalente teatral do documentário, exceto pelo
fato de que a montagem das imagens é absurda: fatos e fantasias justapostos culminam num
fluxo ininterrupto de close-ups, tomadas longas e cenas que vão se dissolvendo.
Juntos, Fo e Rame criaram um vernáculo teatral que é
todo músculos, cheio de ilusão poética e de metáforas políticas. Os fatos são
analisados de várias perspectivas: histórica, política, religiosa, social, moral e
irônica. Todos esses quadros se superpõem uns aos outros em uma montagem de ação
paradoxal que, por vezes, parece anárquica, mas é na verdade produto de uma visão
artística cômica enraizada na destreza do trabalho conjunto de um palhaço com
formação em arquitetura e de uma atriz que nasceu para viver no palco. (Tradução de
Antivan G. Mendes) (©